Mundos super-habitáveis terão busca espacial a partir de 2027

Sistema solar, planetas

Sistema solar, planetas - Vadim Sadovski/shutterstock.com

Astrônomos e astrobiólogos da Alemanha investigam a existência dos chamados mundos super-habitáveis, planetas fora do Sistema Solar que podem oferecer condições mais favoráveis e duradouras para a vida do que a Terra. O mapeamento prático desses corpos celestes está previsto para começar em março de 2027 com o lançamento da missão espacial europeia PLATO.

O trabalho conduzido por René Heller, astrônomo do Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar, em Göttingen, e por Iva Vilović, astrobióloga do Instituto Leibniz de Astrofísica de Potsdam, ganhou projeção internacional em 14 de outubro de 2026. Para os cientistas, a procura por vida extraterrestre não deve se restringir a cópias exatas do planeta em que vivemos. “Me ocorreu que atualmente a humanidade busca por planetas parecidos com a Terra com o mesmo viés antropocêntrico. Claro que a Terra é especial para nós. Mas, de uma perspectiva universal, por que a Terra deveria ser uma referência?”, questionou Heller, em tradução livre.

O que torna as super-Terras candidatos a mundos super-habitáveis?

Na definição dos pesquisadores, mundos super-habitáveis são planetas capazes de sustentar ecossistemas mais diversos e por mais tempo que a Terra. Os candidatos mais promissores pertencem à categoria das super-Terras, nome dado aos planetas rochosos ligeiramente maiores que o nosso. Pela hipótese científica, um corpo celeste com essas características teria um diâmetro (largura) entre 20% e 30% maior que o terrestre e aproximadamente o dobro da massa da Terra.

Essas proporções físicas alteram diretamente a capacidade de proteção e manutenção de vida na superfície planetária. A gravidade mais forte gerada pelo dobro de massa ajuda a reter uma atmosfera mais espessa, condição que proporciona um clima mais quente e estável ao longo do tempo, enquanto a presença de um núcleo de ferro maior pode produzir um campo magnético mais intenso para barrar a radiação cósmica. Além da proteção atmosférica e magnética, a topografia prevista para esses mundos inclui mares rasos, lagos, recifes e extensas cadeias de ilhas (arquipélagos), formando habitats que na Terra são associados a índices elevados de biodiversidade.

Foto: Planeta Terra – buradaki/ istockphoto.com

Estrelas anãs K de até 70 bilhões de anos e testes em Berlim

Outro fator determinante para a hipótese está no tipo de estrela que esses planetas orbitam. O foco recai sobre as anãs do tipo K, estrelas de coloração alaranjada que são mais frias que o Sol e possuem entre 45% e 80% da massa solar. Por consumirem seu combustível de hidrogênio de forma mais lenta, as anãs K podem brilhar de maneira estável na chamada sequência principal (a fase adulta da estrela) por dezenas de bilhões de anos, alcançando até 70 bilhões de anos de estabilidade.

A diferença de tempo disponível para a evolução biológica fica evidente na comparação com o Sistema Solar. O Sol tem um tempo de estabilidade estimado em cerca de 10 bilhões de anos. Na Terra, o aumento gradual da luminosidade solar deverá tornar o planeta quente demais para sustentar formas complexas de vida, como plantas e animais, em aproximadamente 500 milhões de anos.

Para verificar como organismos vivos reagem ao espectro luminoso de uma estrela alaranjada, a astrobióloga Iva Vilović conduziu um experimento de laboratório em Berlim, quando atuava como doutoranda na Universidade Técnica de Berlim (TU Berlin). A pesquisadora cultivou agrião (Lepidium sativum) e cianobactérias (microrganismos capazes de realizar fotossíntese, do gênero Chroococcidiopsis sp.) sob luz artificial que simulava a radiação de uma estrela anã K. Nos testes com as cianobactérias, os pesquisadores registraram eficiência fotossintética e crescimento de cultura significativamente maiores sob a iluminação alaranjada simulada do que sob a luz solar simulada, além de constatarem o desenvolvimento fotossintético do agrião.

O resultado experimental indica que a fotossíntese, processo pelo qual plantas e certos microrganismos usam a luz para produzir energia, pode operar sob o brilho desse tipo de estrela. “A luz das anãs K é uma fonte de iluminação muito, muito interessante e deveria ser considerada, se não priorizada, em qualquer tipo de busca por vida extraterrestre, na minha opinião”, afirmou Vilović.

Origem da hipótese em 2014 e estudos para o James Webb

A formulação teórica sobre mundos super-habitáveis soma mais de uma década de publicações científicas antes da preparação das missões de busca. O conceito foi proposto originalmente em janeiro de 2014 por René Heller e por John Armstrong, professor de física e astronomia da Universidade Estadual Weber, no estado de Utah, nos Estados Unidos. A dupla publicou o artigo inaugural na revista científica Astrobiology, após Armstrong levantar o questionamento em um seminário sobre a possibilidade de existirem planetas mais habitáveis que a Terra.

Dez anos depois da proposta inicial, os testes práticos e de modelagem avançaram em duas frentes. Em 2024, o estudo experimental liderado por Vilović em coautoria com Dirk Schulze-Makuch e René Heller foi publicado no periódico International Journal of Astrobiology. Já em janeiro de 2025, uma equipe formada por Iva Vilović, Jayesh Goyal, René Heller e Fanny Marie von Schauenburg publicou um novo estudo demonstrando que planetas super-habitáveis ao redor de estrelas anãs K de tipo médio melhoram tanto a habitabilidade de superfície quanto a capacidade de observação simulada pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST), em comparação com planetas idênticos à Terra.

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Missão PLATO em 2027 e telescópio de 39 metros no Chile

A transição dos modelos teóricos para a busca observacional ocorrerá por meio de observatórios no espaço e no solo. A primeira etapa cabe à missão PLATO (sigla em inglês para Trânsitos Planetários e Oscilações de Estrelas), da Agência Espacial Europeia (ESA), projeto do qual René Heller é um dos líderes. Em julho de 2026, o observatório espacial concluiu seus testes de compatibilidade eletromagnética no centro técnico ESTEC da ESA, na Holanda, superando o último grande obstáculo técnico antes do envio ao espaço.

Equipada com um conjunto de instrumentos específicos para rastrear zonas habitáveis ao redor de estrelas como as anãs K, a operação de busca e análise atmosférica nos próximos anos seguirá etapas definidas pelas agências espaciais:

  • Março de 2027: lançamento planejado do telescópio espacial PLATO a bordo de um foguete Ariane 6, a partir da base da Guiana Francesa;
  • 26 câmeras: quantidade de instrumentos ópticos a bordo do observatório PLATO para identificar planetas rochosos;
  • 39 metros de diâmetro: tamanho do Telescópio Extremamente Grande (ELT), em construção no Chile, que investigará a composição química das atmosferas dos planetas candidatos ao lado do Telescópio Espacial James Webb;
  • Década de 2040: período previsto pela agência espacial norte-americana (NASA) para o Observatório de Mundos Habitáveis (Habitable Worlds Observatory), planejado para aprofundar a busca por sinais de vida.

Apesar do avanço nos instrumentos de detecção, a existência real de planetas super-habitáveis e de vida extraterrestre nesses locais permanece como uma hipótese científica teórica, sem nenhum planeta desse tipo confirmado até o momento. Mesmo quando o telescópio europeu começar a operar em 2027, a primeira fase servirá apenas para apontar onde estão os alvos, exigindo o trabalho posterior dos telescópios gigantes para a análise química das atmosferas. “Provavelmente encontraremos alguns deles talvez uma dúzia”, afirmou Heller sobre os primeiros registros que serão feitos pela missão PLATO, ressalvando que a descoberta inicial não permitirá conhecer muitos detalhes desses mundos.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.
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