Professores usam inteligência artificial em aula enquanto MEC prepara diretrizes

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Sala de aula, professor, alunos - Divulgação/José Cruz/Agência Brasil Foto: Sala de aula, professor, alunos - Divulgação/José Cruz/Agência Brasil

O Ministério da Educação (MEC) prepara uma resolução nacional sobre inteligência artificial no ensino, enquanto professores das redes pública e privada relatam nesta quinta-feira (15), Dia do Professor, o uso da tecnologia para engajar estudantes e reduzir tarefas burocráticas. O texto estabelece diretrizes éticas e pedagógicas para todas as etapas escolares, com o objetivo de proteger os alunos e preservar a autonomia dos educadores.

Em nota oficial, a pasta informou que o documento criará uma referência para gestores e redes de ensino em todo o território nacional, embora a data exata de publicação no Diário Oficial da União ainda não esteja confirmada. “A partir da resolução, o país passa a contar, de forma inédita, com um parâmetro nacional unificado para orientar a adoção consciente e ética da inteligência artificial em todas as etapas de ensino”, informou o Ministério da Educação.

Práticas com inteligência artificial em escolas de Campinas e Taguatinga

Em Campinas (SP), a professora Giovanna Macedo utilizou o ChatGPT (ferramenta de inteligência artificial generativa) para transformar fotos tiradas em 2025 de seus alunos do 4º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Professor Carlos Cristovam Zink. As imagens projetaram as crianças no futuro, exercendo profissões escolhidas por elas, como astronauta, jogador de futebol, veterinária, bailarina, cantor e artista.

O vídeo com a reação da turma viralizou nas redes sociais. Mesmo sem formação específica na área tecnológica, a educadora aplica os recursos de maneira intuitiva para elaborar materiais visuais e planeja cursar uma especialização em metodologias e didática. “Para mim, como professora, é muito significativo criar situações em que os alunos se sintam valorizados e vejam que alguém acredita neles, que têm potencial para irem além”, afirmou Giovanna Macedo.

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A docente acrescentou que o foco do trabalho pedagógico ultrapassa o domínio técnico da ferramenta. “Mais do que utilizar uma tecnologia nova, nosso papel é encontrar formas de despertar a curiosidade das crianças, fortalecer a autoestima e ampliar os horizontes delas. Quanto mais conseguirmos mostrar o que são capazes de aprender, criar e sonhar, mais sentido terá o nosso trabalho”, disse a professora, que declarou esperar que a iniciativa motive outros profissionais: “Gostaria que experiências como essa inspirassem outros educadores a explorar novas metodologias e a pensar em maneiras criativas de aproximar os conteúdos escolares da realidade dos alunos.”

Na rede pública de Taguatinga, no Distrito Federal, o professor de computação gráfica Jaime Guilherme de Oliveira aplica recursos digitais no Centro de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional (CEMI), onde muitos jovens não possuem computador em casa. Após realizar cursos na Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE), vinculada à Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, o docente desenvolveu com o auxílio do ChatGPT o jogo interativo Arena ABNT, voltado ao ensino das regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas para trabalhos acadêmicos.

Além de jogos educativos e conteúdos para aulas expositivas, Oliveira utiliza os sistemas automatizados para adaptar avaliações a estudantes com neurodivergências ou necessidades específicas. Para o educador, a tecnologia exige propósito claro por parte de quem a opera em sala de aula para evitar entregas superficiais. “Quando existe uma intenção clara, a ferramenta amplia o alcance de quem já tem algo a dizer”, declarou Jaime Guilherme de Oliveira.

Números da experiência docente com inteligência artificial

  • 31 alunos: quantidade de estudantes de 9 e 10 anos do 4º ano da Escola Estadual Professor Carlos Cristovam Zink que participaram da atividade em Campinas (SP).
  • 27 anos e 8 anos de carreira: idade da professora Giovanna Macedo e tempo de atuação no magistério, iniciado em 2018.
  • 14 a 18 anos: faixa etária dos alunos de ensino médio atendidos pelo professor Jaime Guilherme de Oliveira no CEMI de Taguatinga (DF).
  • 13 anos: tempo de atuação do professor Marcio Luiz Dias na formação continuada em tecnologias educacionais na rede pública do Distrito Federal.

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Formação continuada e limites da inteligência artificial na rotina escolar

O avanço dessas ferramentas nas escolas exige preparo técnico e mediação crítica, segundo especialistas em educação. Mestre e doutorando na área, o professor Marcio Luiz Dias trabalha na capacitação de docentes da rede pública do Distrito Federal e aponta que a velocidade das transformações digitais impede que o currículo das faculdades de licenciatura acompanhe todas as novidades em tempo real.

De acordo com o formador, a orientação nas escolas brasilienses busca superar o uso meramente mecânico dos programas de computador e combater a desinformação e os golpes digitais. “O Currículo em Movimento das Escolas Públicas do DF preconiza que a formação continuada extrapole o uso instrumental das tecnologias e passe para o uso crítico, colaborativo e focado na intencionalidade pedagógica”, afirmou Marcio Luiz Dias.

O educador explicou que a automação de tarefas administrativas e operacionais repetitivas libera tempo na agenda para que o profissional estude, planeje aulas e faça o acompanhamento individualizado de cada estudante. No ensino privado, a diretora-geral da Start Anglo Bilingual School, no Rio de Janeiro (RJ), Kassula Correa, defende que essa transição tecnológica valorize a bagagem analógica que os professores construíram com livros, quadro e papel, respeitando os diferentes ritmos de aprendizagem das turmas.

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A gestora alertou que a familiaridade das crianças com aparelhos eletrônicos não significa domínio sobre a qualidade do conteúdo acessado. “Uma criança pode ter facilidade para mexer no celular e, ainda assim, não saber pesquisar com profundidade, identificar uma informação falsa ou compreender os riscos de compartilhar determinados dados”, disse Kassula Correa. Ela reforçou que o julgamento humano segue indispensável na avaliação escolar: “Por mais que a tecnologia avance, a escola continua sendo um lugar de relações humanas. É onde a criança aprende a conviver, a lidar com dificuldades, a se conhecer e a descobrir do que é capaz.”

Regras do CNE para inteligência artificial e dados da Enec em 2026

O parâmetro nacional mencionado pelo MEC tem como base as Diretrizes Orientadoras da Utilização da Inteligência Artificial na Educação Brasileira, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em 1º de setembro de 2026. O texto aguarda a homologação ministerial e determina proibições imediatas assim que a resolução for publicada no Diário Oficial da União.

As normas do CNE vedam o uso de inteligência artificial para corrigir e atribuir notas a redações e provas dissertativas em qualquer etapa de ensino. O documento também proíbe o acesso direto e sem supervisão às ferramentas por crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, que vão até o 5º ano.

Para que as diretrizes funcionem na prática, a rede pública depende de infraestrutura física e digital, monitorada pelo MEC por meio da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec). Os dados do painel oficial, coletados entre abril e maio de 2026 via Simec e PDDE Interativo (sistemas federais de gestão e repasse de recursos educacionais), mostram o alcance da conectividade no país até julho de 2026.

  • 108.658 escolas públicas (78,7% das 138.086 unidades monitoradas pela Enec): instituições de educação básica classificadas nos níveis 4 e 5 do Indicador Escolas Conectadas (Inec), que vai do nível 0 ao 5 e mede os parâmetros adequados de conexão.
  • 136.602 escolas públicas (98,9% do total monitorado): unidades que contavam com condições adequadas de energia elétrica em julho de 2026.
  • 79,7% das escolas monitoradas: percentual de instituições públicas com velocidade de internet adequada para uso pedagógico.
  • 80,7% das escolas monitoradas: índice de unidades com cobertura de rede Wi-Fi dentro dos parâmetros estabelecidos pelo governo federal.
  • 12 meses: prazo legal que os sistemas de ensino e as instituições educacionais terão para se adequar às novas diretrizes de inteligência artificial após a publicação oficial da resolução pelo MEC.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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