Os terminais de comunicação via satélite Starshield e Starlink utilizados pelas forças de defesa da Ucrânia passaram a sofrer restrições de velocidade sem aviso prévio a partir da noite de terça-feira (13) para quarta-feira (14). O bloqueio interrompeu o sinal de antenas em deslocamento acima de 160 km/h (100 mph), o que provocou o cancelamento e a interrupção de missões de drones interceptadores e de ataque de médio alcance.
O conselheiro presidencial ucraniano para tecnologia de defesa, Serhiy Beskrestnov, confirmou que a limitação afetou diretamente o Starshield, versão militar da rede de satélites projetada pela empresa aeroespacial americana SpaceX. “Nossas forças de defesa não receberam nenhum aviso prévio sobre essa restrição, e isso levou à interrupção de diversas missões”, afirmou Beskrestnov.
Elon Musk atribui controle do Starshield ao governo dos EUA
O diretor-executivo (CEO) da SpaceX e proprietário da rede social X, Elon Musk, manifestou-se na quarta-feira (14) sobre as falhas relatadas pelas autoridades ucranianas e transferiu a responsabilidade pela operação militar à administração americana. Em publicação na plataforma X, o empresário diferenciou os dois sistemas desenvolvidos por sua companhia, explicando que o serviço comercial Starlink é controlado pela própria SpaceX e tem uso restrito a atividades civis ou defensivas, sem permissão para ações militares ofensivas.
Em relação à rede utilizada pelas tropas na linha de frente, Musk declarou que a gerência cabe a Washington. “Os sistemas Starshield são propriedade e estão sob o controle do governo dos Estados Unidos. Qualquer limite de velocidade ou de uso é decidido pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente”, disse Musk, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A declaração de Musk ocorreu em resposta ao ex-ministro da Defesa e ex-vice-primeiro-ministro da Ucrânia, Mykhailo Fedorov. Na mesma data, Fedorov havia agradecido pela estabilização da conectividade em deslocamentos de até 160 km/h e solicitado a remoção total da trava de velocidade no sistema Starshield.
Zelensky relata falhas na rede Starlink durante ataques russos
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que o país enfrentou dificuldades simultâneas com a conexão da rede Starlink e com o compartilhamento de informações de inteligência durante ofensivas aéreas russas registradas em 14 de outubro de 2026. De acordo com Zelensky, os drones interceptadores ucranianos dependem diretamente dessa ligação via satélite para conseguir abater armamentos inimigos.
Ao comentar a relação com Washington diante das restrições operacionais nos terminais de comunicação, o presidente ucraniano cobrou transparência no suporte militar. “Contamos com a aliança com os Estados Unidos, só queremos ser muito honestos, muito claros, ser aliados firmes”, declarou Zelensky.
Os dados operacionais divulgados pelas autoridades ucranianas detalham o volume dos ataques russos e os parâmetros técnicos das falhas registradas nos equipamentos de comunicação:
- Limite de velocidade imposto aos terminais: corte de sinal entre o satélite e a antena em deslocamentos acima de 160 km/h (cerca de 100 milhas por hora).
- Instabilidade em baixa velocidade: quedas de conexão com duração de 10 a 20 segundos relatadas pelo 7º Corpo de Reação Rápida da Ucrânia mesmo abaixo do limite de 160 km/h.
- Ofensiva noturna russa: 124 drones lançados contra o território ucraniano durante a noite de terça-feira (13) para quarta-feira (14).
- Ofensiva diurna russa: 145 drones disparados pela Rússia ao longo do dia na quarta-feira (14).
Impacto do bloqueio do Starlink e Starshield nas operações militares
A perda de sinal em alta velocidade afeta diretamente a capacidade de defesa aérea da Ucrânia, que enfrenta escassez de sistemas antiaéreos tradicionais com a aproximação do inverno no Hemisfério Norte. Para conter o aumento esperado de bombardeios contra a infraestrutura energética, as forças de Kiev utilizam drones interceptadores guiados por satélite como alternativa de baixo custo para derrubar drones russos do modelo Shahed, incluindo versões equipadas com motor a jato que voam em alta velocidade.
Na área ofensiva, uma fonte europeia sob condição de anonimato apontou que o sistema Starlink vinha sendo eficaz em investidas contra radares, baterias terra-ar e defesas de instalações. O pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos e de Defesa (IESD), de Lyon, Yohann Michel, avalia que o bloqueio de velocidade não prejudica ataques ucranianos de longo alcance contra refinarias no interior da Rússia, regiões onde a rede Starlink não opera. Por outro lado, o especialista destaca que a medida “poderia ter um impacto significativo nos ataques de médio alcance” realizados na península da Crimeia, no Mar Negro e em territórios ocupados por Moscou no leste ucraniano.
Tensão diplomática entre Kiev e Washington envolve ataques a refinarias
A restrição nos terminais de satélite ocorre em meio a divergências diplomáticas entre os governos de Volodymyr Zelensky e Donald Trump. O presidente americano busca comprar diesel russo para reduzir os preços dos combustíveis nos Estados Unidos e tem pressionado tanto a Ucrânia quanto a Rússia a encerrarem os ataques contra infraestruturas de energia. As reclamações de Trump sobre os bombardeios ucranianos a instalações petrolíferas russas geraram receios em Kiev de possíveis represálias americanas na área de inteligência e comunicações, apesar de Elon Musk ter prometido, em março de 2025, nunca desconectar a Ucrânia da rede Starlink.
Ainda não há confirmação oficial ou independente sobre a causa exata das restrições nos terminais — se decorreram de uma ordem direta da Casa Branca ou do Pentágono em reação aos ataques contra refinarias russas ou de um procedimento técnico. A Casa Branca e o Pentágono não responderam aos pedidos de comentário sobre o caso. “Nada pode ser descartado, desde a pressão dos Estados Unidos sobre a Ucrânia pelos ataques ao fornecimento de diesel até uma explicação mais mundana, como uma atualização de software”, afirmou o pesquisador Yohann Michel.
Nesta quinta-feira (15), uma fonte do Ministério da Defesa da Ucrânia informou que a conectividade do serviço Starshield em movimento foi restaurada na prática e permanecia operacional, enquanto autoridades ucranianas mantêm negociações com a SpaceX e parceiros internacionais para esclarecer a origem do bloqueio e remover formalmente o limite de velocidade.
