O governo da Ucrânia denunciou na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, que a SpaceX impôs sem aviso prévio um limite de velocidade ao sistema militar Starshield e interrompeu missões de drones contra a Rússia. A restrição entrou em vigor na noite de terça-feira (13) e cortou a conexão de terminais que operavam acima do novo teto estabelecido para o campo de batalha.
Serhiy Beskrestnov, assessor do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para tecnologia militar, confirmou a falha nos equipamentos em movimento. “Nossas forças de defesa não receberam um aviso sobre essa limitação, e isso levou à interrupção de várias missões”, afirmou Beskrestnov, em tradução livre. O corte atingiu drones de ataque de médio alcance, aparelhos interceptadores de defesa aérea e a logística tática na linha de frente.
Além do bloqueio nas velocidades mais altas, o 7º Corpo de Reação Rápida da Ucrânia, também chamado de 7º Corpo de Assalto Aéreo, registrou quedas de sinal em equipamentos mais lentos. No setor operacional de Huliaipole, conexões de drones caíram por intervalos de 10 a 20 segundos mesmo quando os aparelhos voavam abaixo do limite imposto, obrigando o cancelamento de operações militares.
Como funciona o Starshield e o que muda em relação à Starlink comercial?
Apresentado pela SpaceX no fim de 2022, o Starshield é uma unidade de negócios desenvolvida especificamente para o Pentágono (a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos), governos e agências de segurança nacional. Enquanto a Starlink funciona como o serviço comercial de internet banda larga da empresa e proíbe o uso de sua rede para ações militares ofensivas — restringindo o sinal a atividades civis ou defensivas —, o pacote Starshield libera capacidades militares de ataque, inteligência e rastreamento de alvos. O sistema governamental utiliza como base a mesma constelação de baixa órbita terrestre da Starlink, mas opera com terminais dedicados, canais separados e criptografia adicional de alta segurança para a transmissão de dados sigilosos em três frentes principais: comunicações governamentais seguras, observação da Terra por satélites equipados com sensores e transporte de cargas úteis exigentes em órbita.
O Pentágono é o maior cliente do serviço militar da empresa de Elon Musk, com investimentos de bilhões de dólares nas duas redes, além da compra de satélites exclusivos para alerta de mísseis e de uma constelação de espionagem destinada ao National Reconnaissance Office (NRO, a agência dos Estados Unidos responsável por projetar e operar satélites de reconhecimento). Fora do território americano, o Reino Unido adotou o Starshield com terminais próprios para comunicações militares seguras, e a Força de Defesa da Nova Zelândia realiza testes com a tecnologia. Na Ucrânia, o acesso aos satélites da SpaceX começou em 28 de fevereiro de 2022, logo após o início da invasão russa, quando chegou o primeiro carregamento da rede comercial lancada em 2019.
Continue lendo: Starship atinge órbita a 275 km e libera 26 satélites Starlink
Dados técnicos e custos dos sistemas Starshield e Starlink na Ucrânia
- Limite imposto aos terminais móveis na Ucrânia: 160 km/h (100 milhas por hora).
- Faixa de velocidade com quedas de 10 a 20 segundos em Huliaipole: entre 110 km/h e 120 km/h (68 a 75 milhas por hora).
- Custo aproximado por equipamento: cerca de US$ 25.000 por terminal do serviço Starshield, ante US$ 5.000 por terminal da Starlink comercial, valores praticados pela SpaceX no início de 2026 durante disputas contratuais com o Pentágono sobre drones usados no conflito com o Irã.
- Financiamento europeu para Kiev: US$ 50 milhões pagos por ano pelo Ministério da Digitalização da Polônia para custear os serviços Starlink fornecidos à Ucrânia.
- Estrutura da rede comercial Starlink: mais de 11.000 satélites em órbita e cerca de 13 milhões de assinantes globais entre residências, empresas marítimas e companhias aéreas.
Impasse entre Elon Musk e Washington sobre o controle do Starshield
A queixa de Kiev abriu uma divergência pública entre a liderança da SpaceX e o governo em Washington sobre quem acionou a trava técnica nos equipamentos. Em publicação na rede social X na quarta-feira (14), o diretor-executivo (CEO) e fundador da SpaceX, Elon Musk, declarou que a versão comercial pertence à sua empresa, mas eximiu a companhia pelas regras aplicadas ao pacote militar. “Os sistemas Starshield pertencem e são controlados pelo governo dos Estados Unidos. Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos”, escreveu Musk, em referência ao presidente americano, Donald Trump.
Apesar da declaração de Musk, um documento enviado pela própria SpaceX a investidores em junho de 2026 informou que a empresa continua responsável pela operação da rede Starshield dentro dos contratos governamentais. Fontes da Casa Branca comunicaram às autoridades em Kiev que o governo americano não controla a SpaceX e que entraria em contato com a companhia para apurar o caso. Um alto funcionário da administração dos Estados Unidos também negou que o governo de Donald Trump tivesse qualquer participação nas restrições impostas aos drones ucranianos.
O bloqueio nos terminais ocorreu durante um período de tensão diplomática entre Kiev e Washington, após o presidente Donald Trump declarar um “cessar-fogo energético” e pressionar o governo ucraniano a interromper os bombardeios contra refinarias de petróleo na Rússia. Embora a rede Starlink não funcione dentro do território russo e os drones ucranianos de longo alcance utilizem outros sistemas de comunicação para atingir as refinarias, o Starshield é empregado por Kiev em ataques de médio alcance nos territórios ucranianos ocupados e na defesa aérea. A causa exata da restrição e quem efetivamente acionou o limite técnico na noite de terça-feira (13) permanecem sem confirmação oficial independente, e a suspeita de autoridades ucranianas sobre uma retaliação política coordenada para forçar o acordo energético não teve provas apresentadas até o momento.
Polônia cobra Elon Musk e Ucrânia pede fim do teto de 161 km/h no Starshield
A interrupção do serviço militar gerou reação na Europa e no Congresso americano, onde a senadora democrata Jeanne Shaheen atua no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos. Na Polônia, país que financia parte da conexão ucraniana, o ministro das Relações Exteriores e vice-primeiro-ministro, Radosław Sikorski, cobrou diretamente o empresário: “Ei, Elon Musk, grande homem, você está fazendo política com seus produtos de novo? Como seus clientes europeus, estamos observando você”.
No fim da quarta-feira (14), o ex-ministro da Defesa e ex-ministro da Transformação Digital da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, informou que o sinal do sistema militar começou a ser normalizado dentro da margem restrita. “A conectividade da Starlink em velocidades de até 160 km/h está sendo restabelecida. Remover totalmente o limite de velocidade do Starshield é agora crítico para a defesa da Ucrânia”, declarou Fedorov.
O Ministério da Defesa da Ucrânia confirmou na noite de quarta-feira (14) a melhora parcial das conexões até a faixa de 160 km/h, mas destacou que a SpaceX mantinha ativo o teto formal de velocidade de 161 km/h (100 milhas por hora). Com a manutenção desse limite técnico, as forças ucranianas seguem impedidas de utilizar o sistema em drones interceptadores de defesa aérea, que precisam superar 290 km/h (180 milhas por hora) para alcançar e abater drones russos movidos a jato, como os modelos Shahed e Geran-5.
