Terminais do Starshield, serviço militar de internet via satélite da SpaceX, sofreram um bloqueio repentino na Ucrânia entre a noite de terça-feira (13) e quarta-feira (14), interrompendo a operação de drones de combate antes de o sinal ser restabelecido nesta quinta-feira (15). A restrição cortou a conexão de dispositivos em deslocamento superior a 160 km/h (100 milhas por hora) e gerou um impasse entre o governo de Kiev, o empresário Elon Musk e a administração dos Estados Unidos sobre o comando da rede.
Segundo Serhiy Beskrestnov, conselheiro do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para tecnologias de armamentos, a trava ocorreu sem aviso prévio e comprometeu operações em andamento. “Nossas forças armadas não receberam um aviso sobre essas restrições, e isso levou ao fracasso de várias missões”, declarou Beskrestnov, em tradução livre. O conselheiro acrescentou que a medida está ligada ao cenário diplomático: “Claramente, essa ação não pode ser uma coincidência e está ligada à situação política atual”.
Como o bloqueio do Starshield afetou os drones da Ucrânia
Com os terminais instalados em veículos e aeronaves não tripuladas para navegação em alta velocidade, o corte de sinal prejudicou missões de ataque de médio alcance, reconhecimento, retransmissão de sinais e logística na linha de frente. A trava afetou diretamente os drones interceptadores ucranianos acionados para abater drones russos do modelo Shahed, que voam a cerca de 320 km/h (200 milhas por hora) e exigem conexão estável em velocidades elevadas para a interceptação.
Militares do 7º Corpo de Reação Rápida da Ucrânia relataram que a instabilidade atingiu também equipamentos abaixo do teto de 160 km/h. Unidades registraram quedas de conectividade com duração de 10 a 20 segundos em drones que operavam entre 110 km/h e 120 km/h (68 a 75 milhas por hora), além de falhas pontuais a partir de 72 km/h (45 milhas por hora).
Impasses entre Kiev, Elon Musk e o governo Trump sobre o Starshield
Integrantes do Ministério da Defesa da Ucrânia atribuíram inicialmente a restrição a uma decisão unilateral da SpaceX. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que a interrupção foi apresentada a Kiev como uma falha técnica, mas declarou que a medida foi deliberada: “Não foi um problema técnico, foi a vontade”. Na quarta-feira (14), o diretor-executivo (CEO) da SpaceX, Elon Musk, rebateu as acusações e transferiu a responsabilidade para Washington. “Os sistemas Starshield são de propriedade e controlados pelo governo dos EUA. Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos”, escreveu Musk.
O corte temporário nas comunicações militares ocorreu durante um período de desgaste diplomático entre os governos de Volodymyr Zelensky, em Kiev, e de Donald Trump, em Washington, após a Casa Branca pressionar as forças ucranianas a suspenderem ataques contra refinarias de petróleo dentro do território da Rússia e anunciar o alívio de sanções sobre o diesel russo. A administração americana sustenta que a contenção dessas ofensivas é necessária para estabilizar a oferta global do combustível, uma vez que a alta nos preços tem pressionado a inflação nos Estados Unidos e o desempenho eleitoral do Partido Republicano antes das eleições legislativas do próximo mês.
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O que é o Starshield e qual a diferença para o Starlink?
Anunciado publicamente pela SpaceX no fim de 2022, o Starshield é uma unidade de negócios e rede de satélites projetada para órgãos governamentais, segurança nacional e o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Enquanto o serviço comercial Starlink teve seus primeiros equipamentos lançados em 2019 e tornou-se o principal motor de lucros da empresa, o pacote governamental utiliza criptografia aprimorada e terminais dedicados para hospedar, processar e transmitir informações confidenciais, embora compartilhe a mesma infraestrutura básica de satélites em órbita baixa da Terra (LEO, na sigla em inglês). Parte dessa estrutura é cedida à Ucrânia por meio de acordos com o Pentágono, que passou a custear formalmente serviços de satélite para as forças de Kiev em junho de 2023.
Elon Musk ressaltou na quarta-feira (14) a separação operacional entre as duas redes da empresa, que realizou sua abertura de capital (IPO, oferta pública inicial de ações) e fusão com a xAI em 2026, operação que consolidou o empresário como o primeiro trilionário da história. “O Starlink é um serviço comercial de propriedade e controlado pela SpaceX. O uso do Starlink é limitado a atividades civis ou defensivas e não pode ser usado para ações militares ofensivas, pois fazê-lo seria inapropriado para uma empresa comercial”, afirmou o executivo. A presidente e diretora de operações (COO, cargo executivo responsável pela operação diária) da SpaceX, Gwynne Shotwell, já havia declarado em fevereiro de 2023 que o sistema civil não foi concebido para uso como armamento ofensivo.
Números, datas e especificações da crise do Starshield na Ucrânia
A operação dos satélites da SpaceX no Leste Europeu envolve diferentes fontes de financiamento e parâmetros técnicos estabelecidos desde o início do conflito:
- Ativação inicial na guerra: 1 de fevereiro de 2022, logo após o início da invasão russa em larga escala na Ucrânia.
- Início e fim do bloqueio em alta velocidade: restrições começaram na noite de 13 de outubro de 2026 e foram encerradas em 15 de outubro de 2026, por volta das 11h45 no horário local de Kiev.
- Infraestrutura da SpaceX: constelação de aproximadamente 11.000 satélites em órbita baixa e cerca de 13 milhões de assinantes globais na rede comercial Starlink.
- Financiamento aliado: US$ 50 milhões por ano é o valor pago pelo Ministério da Digitalização da Polônia para custear o Starlink fornecido à Ucrânia.
- Histórico de bloqueios: a SpaceX já havia negado um pedido ucraniano para ativar o sinal sobre a Crimeia antes de um ataque com drones e cortou, em 2025, o acesso de tropas russas que usavam terminais de forma ilegal.
Ainda não há confirmação oficial independente do Pentágono ou da Casa Branca sobre quem ordenou tecnicamente a limitação temporária de velocidade no Starshield nem sobre o motivo exato de sua reversão em 15 de outubro de 2026.
Fontes do Ministério da Defesa da Ucrânia e o deputado Yehor Cherniev, vice-presidente do comitê de segurança nacional, defesa e inteligência do Parlamento ucraniano, confirmaram que a operação dos terminais acima de 160 km/h foi totalmente retomada às 11h45 (horário de Kiev) desta quinta-feira (15), mas o governo ucraniano mantém uma investigação aberta para apurar as causas da interrupção.
