Starshield sofre bloqueio na Ucrânia e Musk culpa governo dos EUA

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Satélite - Foto: Just_Super/istock

O CEO e fundador da SpaceX, Elon Musk, afirmou nesta quarta-feira (14) que o sistema de satélites Starshield pertence e é controlado pelo governo dos Estados Unidos, após autoridades da Ucrânia denunciarem restrições repentinas no serviço durante a guerra contra a Rússia. Os bloqueios de conexão atingiram terminais móveis que se deslocavam acima de 160 km/h (100 mph), interrompendo missões de drones de ataque, reconhecimento e interceptadores de defesa aérea ucranianos.

Na rede social X, o executivo declarou que a empresa espacial não define as regras de operação da versão governamental da tecnologia. “Os sistemas Starshield são de propriedade e controlados pelo governo dos EUA. Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos”, disse Musk, em tradução livre, referindo-se ao presidente americano, Donald Trump.

A queixa do governo em Kiev teve início após falhas registradas na virada de terça-feira (13) para quarta-feira. O conselheiro do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para tecnologia de armamentos, Serhiy Beskrestnov, relatou o impacto imediato nas linhas de frente do leste e do sul do país. “Nossas Forças Armadas não foram avisadas dessas restrições, e isso levou ao fracasso de várias missões”, afirmou Beskrestnov.

Integrantes do 7º Corpo de Reação Rápida da Ucrânia informaram que alguns veículos aéreos não tripulados perderam a conectividade por períodos de 10 a 20 segundos mesmo voando abaixo do teto imposto, a velocidades entre 110 km/h e 120 km/h (68 a 75 mph), o que forçou o cancelamento de operações. Autoridades ucranianas associaram o bloqueio às tensões políticas com a administração em Washington, que tem pressionado Kiev a interromper ataques com drones de longo alcance contra refinarias de petróleo em território russo. Nem o Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) nem a Casa Branca confirmaram oficialmente quem ordenou ou implementou tecnicamente o limite de velocidade.

Qual é a diferença entre o Starshield e o serviço comercial Starlink?

Foto: satélite – vectorfusionart/Shutterstock.com

Embora operem com a mesma base tecnológica e compartilhem parte da infraestrutura orbital, o Starshield e o Starlink atendem a públicos e regras contratuais distintos dentro da SpaceX. Enquanto o Starlink funciona como a divisão civil de banda larga administrada diretamente pela companhia para residências, empresas de navegação e companhias aéreas, o Starshield atua como uma unidade de negócios governamental e de defesa lançada oficialmente no final de 2022. O programa militar é voltado a órgãos de segurança nacional americanos, incluindo o Pentágono, a Space Force (ramo espacial das Forças Armadas dos EUA) e o National Reconnaissance Office (NRO, agência responsável pelos satélites de reconhecimento do país).

Ao rebater as críticas sobre o corte de sinal na Ucrânia, Musk separou o funcionamento das duas redes. “O Starlink é um serviço comercial pertencente e controlado pela SpaceX. O uso do Starlink é limitado a atividades civis ou defensivas e não pode ser usado para ações militares ofensivas, pois fazer isso seria inadequado para uma empresa comercial”, declarou o empresário.

O sistema governamental utiliza a constelação comercial do Starlink como espinha dorsal para o transporte de dados, mas aplica criptografia reforçada para separar o tráfego militar do civil. Além disso, o Starshield dispõe de satélites próprios exclusivos, inacessíveis a clientes comuns, voltados a comunicações seguras, observação da Terra, integração de sensores e missões de alerta antecipado contra mísseis. No campo de batalha ucraniano, a confusão entre os dois nomes ocorre porque soldados frequentemente utilizam a antena plana padrão do Starlink, mas conectada sob contratos e regras de criptografia do pacote Starshield. Fora dos Estados Unidos, o Reino Unido adotou a versão militar e a Nova Zelândia realiza testes com a tecnologia.

Números, contratos e cronologia do Starshield e do Starlink na guerra

A infraestrutura de satélites em órbita baixa da Terra começou a ser lançada pela SpaceX em 2019 e tornou-se a principal via de comunicação ucraniana após 24 de fevereiro de 2022, quando um ataque cibernético no início da invasão russa derrubou a rede KA-SAT, da empresa americana Viasat. Dias depois da falha, atendendo a um pedido feito no antigo Twitter por Mykhailo Fedorov — que na época ocupava o cargo de vice-primeiro-ministro e ministro da Transformação Digital, tendo assumido como ministro da Defesa apenas entre janeiro e julho de 2026 —, Musk ativou o sinal no país europeu.

  • Constelação comercial Starlink: mais de 11 mil satélites operando entre 328 km e 614 km de altitude, atendendo cerca de 13 milhões de assinantes globais.
  • Equipamentos na Ucrânia: mais de 50 mil terminais Starlink recebidos por Kiev de países parceiros desde 2022.
  • Financiamento da Polônia: 29.500 terminais ativos em solo ucraniano custeados pelo governo polonês, ao valor anual de cerca de US$ 50 milhões.
  • Contratos militares dos EUA: 500 terminais exclusivos do Starshield financiados pelo US European Command (Comando Europeu dos EUA) em 2023 por cerca de US$ 40 milhões, somados a 2.500 aparelhos Starlink habilitados para a rede Starshield pelo Space Systems Command (Comando de Sistemas Espaciais) em agosto de 2024.
  • Custos por aparelho militar: cerca de US$ 25 mil por terminal cobrados pela SpaceX no pacote governamental, ante o plano de US$ 5 mil usado anteriormente pelo Pentágono em drones no conflito com o Irã, reajuste que gerou atrito entre o órgão de defesa e a empresa no primeiro semestre de 2026.

Retomada do sinal na linha de frente e reação na Europa

O episódio provocou reação diplomática entre os financiadores europeus da rede usada por Kiev. O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, questionou diretamente o fundador da SpaceX sobre as falhas registradas nos equipamentos. “Ei, Elon Musk, figurão, você está fazendo política com seus produtos de novo? Como seus clientes europeus, estamos de olho em você”, escreveu o chanceler polonês.

Entre a noite de quarta-feira (14) e ao longo desta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, o gabinete de Volodymyr Zelensky e fontes de defesa ucranianas informaram que o funcionamento dos terminais em movimento começou a ser normalizado. Fedorov confirmou o retorno gradual das operações, mas cobrou mudanças definitivas nas travas do sistema. “A conectividade do Starlink em velocidades de até 160 km/h está sendo restabelecida. Remover totalmente o limite de velocidade do Starshield é agora crítico para a defesa da Ucrânia”, afirmou o ex-ministro da Defesa.

Maria: Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.
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