Tratamento contra HIV tem 1ª dose de 4 meses aplicada em SP

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Teste HIV, tubo de sangue - homas Faull/ istockphoto.com Foto: Teste HIV, tubo de sangue - homas Faull/ istockphoto.com

A antropóloga e ativista Pisci Bruja Garcia de Oliveira, de 37 anos, tornou-se a primeira pessoa do Brasil a receber a dose experimental de um tratamento antirretroviral injetável contra o HIV aplicado a cada quatro meses. A aplicação ocorreu em 22 de setembro de 2026 na Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids (CRT-SP), na cidade de São Paulo, um dia após a voluntária tomar o último comprimido diário que utilizava havia 13 anos.

Mulher trans, travesti, educadora comunitária do CRT-SP e doutoranda em Saúde Coletiva/Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), Pisci iniciou a participação no ensaio clínico global conduzido pela farmacêutica GSK (ViiV Healthcare) após encerrar o uso contínuo de pílulas em 21 de setembro de 2026. “Foi muito simbólico ter sido o último comprimido para, no dia seguinte, começar o novo tratamento. Guardei a minha caixinha de remédio de recordação, mas pensei ‘que bom’. Tomar remédio todo dia é chato”, disse Pisci Bruja.

Como funciona o estudo da GSK com cabotegravir e rilpivirina

O protocolo clínico internacional avalia a eficácia e a segurança do uso combinado de dois medicamentos antirretrovirais (fármacos que impedem a multiplicação do vírus no organismo), o cabotegravir e a rilpivirina, aplicados por injeção nos glúteos de pessoas que já vivem com o HIV controlado. A pesquisa compara o novo intervalo de quatro meses, equivalente a três aplicações por ano, com o esquema administrado a cada dois meses, que exige seis aplicações anuais e já possui aprovação regulatória nos Estados Unidos, pela agência FDA, na União Europeia, pela EMA, no Canadá e na Austrália, mas ainda não tem registro no Brasil.

A formulação testada não é uma vacina contra o HIV nem funciona como PrEP (profilaxia pré-exposição, estratégia de prevenção usada por pessoas que não têm o vírus para reduzir o risco de infecção). O tratamento experimental destina-se apenas a pacientes diagnosticados com HIV que mantêm a replicação viral controlada e foram selecionados por triagem clínica direta dentro do serviço público de saúde, sem abertura de inscrições ao público geral devido aos critérios médicos exigidos pelo protocolo e ao número restrito de vagas.

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Para o médico infectologista José Valdez Ramalho Madruga, diretor e principal investigador da Casa da Pesquisa do CRT-DST/Aids-SP e coordenador do estudo no Brasil, o espaçamento das doses reduz a necessidade de deslocamento e auxilia grupos específicos de pacientes. “Se o indivíduo toma a injeção de dois em dois meses, ele vai ter que ir ao serviço de saúde seis vezes por ano. Se ele toma a injeção de quatro em quatro meses, ele só vai ter que ir três vezes por ano”, afirmou o pesquisador, que atua há 32 anos em estudos clínicos sobre a infecção. “Os medicamentos de longa duração podem facilitar a vida de pessoas em situação de rua, de pessoas privadas de liberdade e de quem precisa viajar com frequência, já que não é necessário carregar comprimidos e se preocupar em tomar a medicação todos os dias”, declarou Madruga.

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Números, custos e divisão dos voluntários do estudo sobre HIV

Entre os brasileiros selecionados na triagem está o enfermeiro Matheus Evedo, de 24 anos, que vive com HIV há três anos e integra o grupo de comparação do estudo. “Estou estranhando muito não tomar medicação, porque eu já estava habituado”, afirmou o voluntário dois dias após receber a primeira injeção. “Estou aqui por mim e por todas as pessoas que vivem com HIV. Tenho esperança de que a cura está logo aí. Receber o diagnóstico não é e não será o fim da linha”, disse Evedo.

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A pesquisa clínica internacional tem duração plurianual e custos de referência estabelecidos no mercado norte-americano para as doses dos medicamentos testados:

  • Participantes no mundo: previsão de cerca de 564 voluntários distribuídos em nove países (Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, Japão, México, Espanha e Reino Unido).
  • Participantes no Brasil: entre 63 e 77 voluntários ao todo, divididos em sete centros de pesquisa, com recrutamento de 9 a 11 pacientes por unidade.
  • Previsão de término: conclusão global estimada para setembro de 2029.
  • Custo por dose nos Estados Unidos: valor de referência de US$ 7.311,29 (cerca de R$ 36,5 mil) pela aplicação combinada de cabotegravir e rilpivirina.
  • Custo anual estimado nos Estados Unidos: US$ 43,8 mil por paciente ao ano (cerca de R$ 219 mil) na modalidade bimestral.

Até a publicação desta reportagem, nesta quinta-feira (15), não havia confirmação oficial sobre quais são os outros seis centros de pesquisa brasileiros que participam do ensaio clínico além do CRT-SP, na capital paulista.

Histórico de pesquisas de 2026 e atuação de Pisci Bruja

Antes de ingressar no estudo da dose quadrimestral, Pisci Bruja recebeu o diagnóstico de HIV em 2013 e utilizou por cerca de seis anos o antirretroviral oral Efavirenz. Por causa dos efeitos colaterais neuropsiquiátricos provocados pela substância, ela ajudou a fundar o coletivo de ativismo e acolhimento Loka de Efavirenz e, em julho de 2026, atuou como palestrante convidada na abertura da pré-conferência Towards an HIV Cure, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Riocentro, no Rio de Janeiro, onde defendeu a integração dos saberes comunitários na ciência voltada à cura.

Para a antropóloga, a substituição dos comprimidos pelas injeções precisa vir acompanhada de políticas públicas de acesso e negociação de preços. “Ter acesso ao tratamento é fundamental, mas a saúde não pode ser reduzida a tomar remédio para não ter mais vírus circulando no sangue. Importa também como as pessoas vivem, como são cuidadas, quais violências e estigmas atravessam suas vidas, que autonomia possuem e quais condições concretas têm para viver com dignidade”, afirmou Pisci Bruja.

O avanço dos medicamentos injetáveis soma-se a outros resultados divulgados em março de 2026 pela ViiV Healthcare/GSK nos estudos LATITUDE, publicado no periódico científico NEJM, e IMPAACT 2017, apresentado na conferência CROI 2026, os quais demonstraram que o regime de longa ação com cabotegravir e rilpivirina teve eficácia superior à terapia oral diária em pacientes com dificuldades de adesão e alcançou 97% de preferência entre adolescentes. No campo exclusivo da prevenção no Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) abriu em agosto de 2026 a Consulta Pública nº 76/2026, encerrada em 31 de agosto de 2026, para avaliar a incorporação do cabotegravir injetável no SUS apenas como PrEP.

Posicionamento do Ministério da Saúde e regras do SUS

Atualmente, o atendimento gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS) para quem vive com HIV baseia-se em medicamentos orais diários que impedem a replicação viral; quando o tratamento mantém a carga viral indetectável no sangue, o paciente não transmite o vírus por via sexual, conceito médico denominado I=I (indetectável é igual a intransmissível). Questionado sobre a adoção de terapias injetáveis, o Ministério da Saúde informou que a rede pública dispõe de 30 opções terapêuticas de uso diário já aprovadas e que “96% das pessoas atendidas pelo SUS apresentam supressão da carga viral”.

Segundo a pasta, “em virtude da atual situação de registro de medicamentos injetáveis no Brasil para tratamento do HIV, não há discussão acerca da incorporação de novas opções terapêuticas”. De acordo com o coordenador nacional do estudo, José Valdez Ramalho Madruga, o governo brasileiro já dispõe de dados científicos internacionais para aprovar a modalidade bimestral sem aguardar o fim dos testes de quatro meses: “A gente já tem dados mostrando que o medicamento injetado a cada dois meses funciona bem. Então o governo poderia já aprovar”, disse o infectologista.

Caso os resultados finais do ensaio clínico da dose quadrimestral, previstos para setembro de 2029, confirmem a eficácia e a segurança da formulação, o medicamento precisará passar por avaliação e registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, na sequência, por análise da Conitec para eventual oferta pelo SUS.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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