Café tradicional e extraforte: indústria eleva proporção do grão conilon após alta nos custos e clima extremo

Xicara de café

Xicara de café - Esin Deniz/shutterstock.com

As indústrias torrefadoras do Brasil alteraram a composição do café tradicional e extraforte nos últimos anos, aumentando a proporção do grão conilon e reduzindo a presença do arábica nas misturas vendidas nos supermercados. A mudança, detalhada em levantamento divulgado nesta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, responde ao encarecimento da matéria-prima do arábica e aos eventos climáticos extremos que atingiram as lavouras.

A substituição parcial nos pacotes comercializados no varejo foi confirmada por representantes do setor e consultorias especializadas. Segundo Eric Emiliano, sócio da L.E.K. Consulting em São Paulo e líder das práticas de Agronegócio e Consumo na América Latina, o grão conilon ganhou espaço nas fórmulas industriais diante da elevação dos custos produtivos do arábica. “As indústrias não passam qual blend estão usando, mas de fato houve no ano passado uma busca para que esse percentual fosse maior. E inclusive cresceram os produtos 100% robusta. A gente não tem o número, mas é possível, sim, que as indústrias tenham usado mais robusta”, afirmou Celírio Inácio da Silva, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).

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Alta de 212% no café arábica e números do mercado brasileiro

Os dados consolidados pela Associação Brasileira da Indústria de Café demonstram que a pressão inflacionária sobre as torrefadoras e os consumidores atingiu patamares elevados nos últimos anos, impulsionada por quebras de safra e pelo desequilíbrio entre a produção e a procura mundial pelo grão. Mesmo com a diferença de custos na origem agrícola, os dois tipos de matéria-prima registraram forte valorização, o que levou o setor a ajustar a composição das embalagens para conter repasses ainda maiores nas prateleiras e tentar preservar o volume de vendas no mercado doméstico.

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  • 212%: alta acumulada no preço da matéria-prima do café arábica nos cinco anos encerrados em 2025, segundo a ABIC.
  • 201%: alta acumulada no preço da matéria-prima do café conilon no mesmo intervalo de cinco anos terminado em 2025.
  • 116%: aumento acumulado do preço do café no varejo para o consumidor final nos cinco anos encerrados em 2025.
  • 5,8%: elevação no preço do café torrado e moído para o consumidor no varejo ao longo do ano de 2025.
  • 21,409 milhões de sacas: volume de sacas de 60 kg consumido no Brasil entre novembro de 2024 e outubro de 2025, retração de 2,31% ante o ciclo anterior.
  • 98%: percentual de lares brasileiros onde a bebida está presente, conforme medição da entidade.

Diferenças entre café arábica e conilon nas lavouras

Os produtos das linhas tradicional e extraforte são elaborados a partir de uma mistura técnica de grãos chamada pela indústria de blend, que combina as espécies Coffea arabica (arábica) e Coffea canephora (conilon ou robusta). Historicamente preferido pelos consumidores brasileiros e com maior participação nos pacotes, o arábica resulta em uma bebida mais suave e aromática, mas sua planta é sensível a oscilações meteorológicas e tem sofrido perdas por altas temperaturas, secas, geadas e chuvas fora de época. Já o conilon entrega uma bebida mais encorpada, com maior teor de cafeína e intensidade, além de possuir maior tolerância ao calor e resistência às variações do clima, tornando-se mais atraente para os produtores rurais.

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O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café, Pavel Monteiro Cardoso, atribui a pressão sobre os estoques a eventos iniciados há cinco anos. “Desde 2021 houve um descasamento nessa cadeia global de oferta e demanda. Em 2021 tivemos problemas climáticos sucessivos, trazendo frustrações com o tamanho da safra”, declarou o dirigente.

As torrefadoras não divulgam oficialmente a proporção exata de cada espécie utilizada em suas marcas por tratarem a fórmula como informação estratégica de mercado. Fontes do setor estimam que a fatia média dos grãos canéforas (conilon e robusta) tenha avançado cerca de 20% em um ano, chegando a representar entre 75% e 80% de determinados blends no varejo brasileiro, mas a ABIC informa que não possui um número oficial consolidado sobre essa divisão.

Como identificar a composição do café na embalagem

A alteração nas fórmulas adotadas pelas empresas não decorre de imposição legal, uma vez que cada fabricante tem autonomia para definir a receita de seu blend conforme a disponibilidade de grãos e os custos de produção. No entanto, os consumidores afetados pela mudança encontram respaldo na Portaria SDA nº 570/2022, do Ministério da Agricultura, em vigor desde 1 de janeiro de 2023. A norma exige que os fabricantes informem no rótulo da embalagem quando o produto for composto integralmente por uma única espécie, com os termos “100% arábica” ou “100% conilon”, ou indiquem qual variedade tem maior volume na mistura, utilizando as expressões “predominantemente arábica” ou “predominantemente conilon”.

Para o comprador que busca diferenciar o perfil da bebida nos supermercados, a ABIC mantém desde 2004 uma escala de certificação que classifica os produtos da menor nota para a mais alta nas categorias extraforte, tradicional, superior, gourmet e especiais. Nessa régua de qualidade, os cafés certificados como gourmet precisam atingir notas acima de 7,3 pontos e ter composição obrigatória de 100% arábica.

Produção e destino do café arábica e canéfora no Brasil

Maior produtor mundial e segundo maior consumidor global da bebida, atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil divide o destino de suas colheitas conforme a espécie plantada. Enquanto a maior parte da safra nacional de arábica segue para a exportação, a quase totalidade da produção brasileira de canéforas — cultivada principalmente nos estados do Espírito Santo, Rondônia e Bahia — é absorvida dentro do próprio país pelas indústrias de café solúvel e de torrado e moído.

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração
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