FAO escolhe 2 brasileiras entre 609 indicações para prêmio global

ONU elege duas brasileiras como heroínas do desenvolvimento agroalimentar

ONU elege duas brasileiras como heroínas do desenvolvimento agroalimentar

As pescadoras artesanais brasileiras Joana Rodrigues Mousinho e Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, receberam na quinta-feira (15), em Roma, na Itália, o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Elas foram escolhidas para integrar a lista global de 100 Mulheres Heroínas nos Sistemas Agroalimentares e no Desenvolvimento Rural, após uma seleção que avaliou 609 indicações enviadas por 131 países-membros.

Indicadas pelo Ministério das Mulheres, as duas representantes do Brasil participaram da cerimônia na sede da agência das Nações Unidas durante o Fórum Mundial da Alimentação e as celebrações do Dia Internacional da Mulher Rural e do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026. Em Roma, Luena Pataxó recebeu a premiação das mãos do diretor-geral da FAO. “A escolha de Joana Mousinho e Luena Pataxó reflete não apenas suas realizações individuais, mas também o compromisso do Brasil com o fortalecimento das mulheres agricultoras e pescadoras, empreendedoras, lideranças comunitárias e agentes de transformação dos sistemas agroalimentares”, afirmou o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza.

Foto: ONU elege duas brasileiras como heroínas do desenvolvimento agroalimentar

Seleção da FAO avaliou 609 candidaturas de 131 países

O processo seletivo da iniciativa global estabeleceu limites de candidaturas para cada nação de acordo com o tamanho de sua população e passou por duas rodadas de deliberação conduzidas pela alta liderança da organização internacional. O programa foi criado para destacar mulheres cujas trajetórias promovem segurança alimentar, inclusão social, sustentabilidade ambiental, geração de renda e resiliência nas comunidades rurais em áreas como agricultura, pesca, aquicultura, ciência, inovação e preservação ambiental.

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As brasileiras selecionadas integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil. Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a premiação projeta a atuação das trabalhadoras do setor no país. “Reconhecer Joana Mousinho e Luena Pataxó é dar visibilidade ao trabalho das mulheres da pesca artesanal, que alimentam nossas comunidades, protegem os territórios e preservam conhecimentos tradicionais. Suas trajetórias mostram por que as pescadoras precisam ser ouvidas e participar das decisões sobre as políticas que afetam suas vidas. Esse reconhecimento reforça a importância de garantir direitos, autonomia econômica e condições dignas de trabalho para essas mulheres”, declarou a ministra.

Trajetória de Joana Mousinho na pesca artesanal em Pernambuco

Natural de Pernambuco, Joana Rodrigues Mousinho tem 70 anos e trabalha na pesca artesanal desde a infância. Há mais de seis décadas, ela atua na captura e na venda direta de peixes, camarões, mariscos e siris no Canal de Santa Cruz, localizado no município de Itapissuma (PE). Ao longo de sua carreira na defesa dos territórios costeiros diante da expansão de grandes empreendimentos, tornou-se uma das primeiras mulheres brasileiras a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), documento oficial que garante o exercício legal da profissão no país, além de ter sido a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores no Brasil e uma das fundadoras da Articulação Nacional das Pescadoras.

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A pescadora pernambucana avaliou o efeito da premiação internacional para a organização política da categoria. “Este reconhecimento da FAO incentiva as mulheres a lutar e a participar cada vez mais dos espaços de decisão, porque vemos que estamos ganhando visibilidade. Foi uma conquista, minha comunidade está muito feliz e agradecida”, disse Joana.

Atuação de Luena Pataxó nas comunidades pesqueiras da Bahia

A outra homenageada brasileira, Luena Pataxó, tem 44 anos e é liderança indígena da etnia Pataxó no sul da Bahia. Ela preside a Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), situada no distrito de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália (BA), entidade na qual implementou parcerias institucionais e projetos de segurança no mar e de geração de renda com foco na pesca artesanal de camarão. No âmbito regional e federal, Luena preside o Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul da Bahia, colegiado que abrange oito municípios e 13 associações, e criou o Grupo de Trabalho Indígena Nacional por meio do Plano Nacional da Pesca Artesanal, conduzido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.

Antes da homenagem em Roma, Luena já havia alcançado o primeiro lugar na etapa estadual e a terceira colocação na etapa nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Produtora Rural. “É uma honra ter o reconhecimento internacional da luta do meu povo indígena, que não é de hoje, e é diária. A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas. Somos os guardiões do meio ambiente”, afirmou a liderança indígena, acrescentando que a premiação é “fruto de uma luta coletiva, da história de um povo indígena e da voz de tantas mulheres que, todos os dias, sustentam suas famílias e suas comunidades, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem”.

“A nossa luta é tanto pela pesca artesanal quanto pela saúde e pelo reconhecimento das mulheres. A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar”, disse a presidente da Apip.

Participação feminina nos sistemas agroalimentares e datas da premiação da FAO

Dados levantados pela FAO mostram que as mulheres representam 41% da força de trabalho global nos sistemas agroalimentares, atuando desde a produção e o processamento até a distribuição e o comércio de alimentos. Apesar da proporção próxima à dos homens e da contribuição direta para a segurança nutricional das famílias, a organização aponta que as trabalhadoras rurais enfrentam de maneira desproporcional empregos precários, más condições de trabalho e limitação de direitos. A agência internacional mantém programas de cooperação para ampliar a renda e fortalecer as economias locais, visando a conservação dos conhecimentos tradicionais e dos recursos naturais.

A escolha das representantes brasileiras na capital italiana reúne marcos recentes da atuação das pescadoras e a programação oficial do evento na Europa:

  • 2024 — Joana Rodrigues Mousinho recebe o Prêmio Mulheres das Águas, concedido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas.
  • 2025 — A história de atuação de Joana Mousinho é retratada no documentário de curta-metragem intitulado Pescadora de Direitos.
  • 8 de outubro de 2026 — Tem início na sede da FAO, em Roma, a programação do Fórum Mundial da Alimentação.
  • 15 de outubro de 2026 — A FAO realiza a cerimônia oficial de entrega do prêmio às 100 Mulheres Heroínas durante o Dia Internacional da Mulher Rural.
  • 16 de outubro de 2026 — As atividades do Fórum Mundial da Alimentação, que contaram com a participação de Joana Mousinho e Luena Pataxó a convite da organização, são encerradas nesta sexta-feira em Roma.
Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
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