Josh Wander, ex-controlador da SAF do Vasco, confessa fraude de US$ 500 milhões à Justiça de Nova York

São Januário, bandeira do Vasco

São Januário, bandeira do Vasco - Matheus Lima/Vasco

Joshua Wander, de 45 anos, cofundador e ex-CEO da empresa de investimentos 777 Partners e ex-controlador da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Vasco da Gama, declarou-se culpado de fraude na Corte Federal de Manhattan, em Nova York, na quinta-feira (15). O empresário admitiu ter comandado um esquema ilegal de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,54 bilhões) e concordou com o confisco e a restituição de pelo menos esse mesmo montante às vítimas.

O acordo judicial foi firmado perante o juiz distrital dos Estados Unidos J. Paul Oetken um dia antes da data prevista para o início do julgamento. Originalmente denunciado em seis acusações criminais, Wander confessou uma acusação de fraude eletrônica (crime financeiro cometido por meios digitais ou de telecomunicações) e uma de fraude de valores mobiliários (manipulação ou engano no mercado de capitais). “Na época em que fiz essas coisas, eu sabia que o que estava fazendo era errado e lamento profundamente minha conduta”, declarou Wander ao magistrado no tribunal, em tradução livre.

Leia também: Vasco da Gama derrota o Boca Juniors por 1 a 0 na Bombonera e se torna o 4º brasileiro a vencer lá em mata-mata

Acusações da Procuradoria contra Josh Wander e uso do Microsoft Paint

Segundo a Procuradoria dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, o executivo estruturou uma operação para enganar credores privados e investidores da 777 Partners, companhia sediada em Miami. Os promotores apontaram que Wander ofereceu os mesmos ativos como garantia mais de uma vez — prática conhecida como dupla garantia —, apresentou bens fictícios que a empresa não detinha e mentiu sobre a real condição financeira do grupo. Para esconder o rombo nas contas, ele orientou funcionários a adulterar digitalmente dezenas de extratos bancários, utilizando inclusive o programa de edição de imagens Microsoft Paint para simular saldos milionários inexistentes.

“Como ele próprio admitiu, Josh Wander utilizou sua empresa, a 777 Partners, para subtrair centenas de milhões de dólares de credores privados e investidores. Wander ofereceu os mesmos ativos como garantia mais de uma vez, apresentou ativos fictícios, mentiu sobre a situação financeira de sua empresa e chegou a falsificar extratos bancários, tudo para obter acesso aos recursos de suas vítimas. Em seguida, ele destinou esses valores a fins não autorizados pelos credores, inclusive para arcar com as despesas da rede de clubes de futebol profissional mantida pela 777”, afirmou o procurador dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, Jamie McDonald, em comunicado oficial.

Além de cobrir custos dos clubes de futebol do grupo, a promotoria detalhou que os recursos captados de maneira irregular foram desviados para investimentos em companhias aéreas, operações com opções financeiras e despesas pessoais do próprio empresário, como o pagamento de faturas de cartão de crédito. Jamie McDonald acrescentou na nota oficial que “este gabinete, em conjunto com nossos parceiros de aplicação da lei, continuará a proteger investidores e credores e a garantir que aqueles que ameaçam nossos mercados financeiros sejam responsabilizados”.

Saiba mais: Marcos Lamacchia arremata 90% da SAF do Vasco em leilão no Tribunal do Rio

Valores e penas do processo contra a 777 Partners em Nova York

A investigação federal detalhou as cifras movimentadas por Joshua Wander durante a gestão da 777 Partners e as punições previstas na legislação norte-americana para os crimes confessados:

Veja também: Guerra na SAF do Vasco: BAP, Leila, Pedrinho e Textor trocam farpas por venda milionária

  • US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,54 bilhões): valor estimado do esquema de fraude e piso que o réu concordou em devolver ou ter confiscado pela Justiça;
  • US$ 350 milhões: limite da linha de crédito concedida pelo fundo britânico Leadenhall Capital Partners à 777 Partners mediante garantias duplicadas ou falsificadas;
  • US$ 200 milhões: montante captado por Wander entre 2021 e 2022 junto a investidores por meio da venda de participações baseada em dados financeiros falsos;
  • US$ 13,7 milhões: quantia pertencente a um credor que foi transferida diretamente por Wander para sua conta pessoal de corretagem;
  • 20 anos de prisão: pena máxima prevista para cada uma das duas acusações assumidas pelo executivo, o que pode somar até 40 anos de reclusão.

Veja também: Boca Juniors e Vasco da Gama disputam ida da semifinal da Copa Sul-Americana

Da compra da SAF do Vasco ao indiciamento criminal de Josh Wander

Criada em 2015 em Miami para operar no financiamento de acordos de indenização estruturada (modalidade em que uma empresa compra o direito de recebimento de indenizações judiciais parceladas), a 777 Partners passou a investir nos setores de aviação e esporte a partir de 2021. No futebol, o fundo assumiu o controle de 70% das ações da SAF do Vasco da Gama em 2022 e adquiriu participações no Genoa (Itália), no Hertha Berlim (Alemanha) e no Standard Liège (Bélgica), além das empresas aéreas Flair, do Canadá, e Bonza, da Austrália.

O esquema financeiro começou a desmoronar em março de 2023, quando um credor questionou Wander a respeito de garantias duplicadas e ouviu do empresário a alegação falsa de que ocorrera uma falha no sistema de computadores da companhia. Em maio de 2024, o fundo Leadenhall Capital Partners ajuizou uma ação civil em Nova York acusando a empresa de fraude; no mesmo mês, a tentativa de aquisição do clube inglês Everton fracassou, a Justiça do Rio de Janeiro afastou a 777 Partners do comando da SAF do Vasco, e os sócios-fundadores Josh Wander e Steven Pasko renunciaram às funções executivas, enquanto a companhia entrou em processo de falência e passou a ser gerida pela seguradora A-CAP, uma de suas principais credoras.

Na esfera penal, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou formalmente Josh Wander em outubro de 2025 por fraude eletrônica, fraude com valores mobiliários e conspiração. Antes da confissão do ex-CEO em 15 de outubro de 2026, o ex-diretor financeiro (CFO) da 777 Partners, Damien Alfalla, já havia se declarado culpado à Justiça norte-americana e firmado um acordo de cooperação com os promotores do caso.

Josh Wander responderá ao restante do processo em liberdade, mediante pagamento de fiança. A audiência para a definição e leitura da sentença foi agendada pelo juiz distrital J. Paul Oetken para 1º de março de 2027, na Corte Federal de Manhattan.

Thiago Lemos: Thiago Lemos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2020: Formação: Administração.
Notícias Relacionadas