Representantes internacionais extinguiram o segundo bissexto no Tempo Universal Coordenado (UTC), a escala de tempo civil que define a hora oficial em todo o planeta. A medida foi aprovada na quinta-feira (15) durante a 28ª Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM), na França, e antecipa em oito anos o fim definitivo dos ajustes para evitar falhas tecnológicas globais.
Com a aprovação da Resolução 5, o horário mundial passará a funcionar como uma escala de tempo contínua, sem interrupções para compensar variações astronômicas. “Esta medida é necessária e oportuna diante dos importantes riscos que poderia representar, nos próximos anos, a introdução pela primeira vez de um segundo intercalar negativo”, declarou Dolores del Campo Maldonado, representante do Centro Espanhol de Metrologia.
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Aceleração da Terra e o risco do segundo bissexto negativo
O ajuste encerrado na França, também chamado de segundo intercalar, não altera diretamente os relógios atômicos, que mantêm o Tempo Atômico Internacional de forma ininterrupta. A intervenção ocorria sobre o UTC, que utiliza a precisão dos relógios atômicos como base, mas recebia acréscimos pontuais para não se distanciar do tempo astronômico (UT1), medido pelo ângulo real de rotação da Terra.
A decisão de antecipar o fim do mecanismo foi impulsionada pela recente aceleração do giro do planeta em torno do próprio eixo. Esse fenômeno físico criou a possibilidade inédita de os cientistas precisarem subtrair um segundo dos relógios mundiais, aplicando o chamado segundo intercalar negativo, um procedimento que jamais foi testado em escala global na infraestrutura digital moderna e que gerava temor de colapsos operacionais.
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Diante desse risco técnico iminente, organizações especializadas enviaram declarações formais ao Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), órgão cujo Departamento de Tempo é dirigido por Patrizia Tavella, pedindo a antecipação do UTC contínuo. Entre as entidades que solicitaram a mudança rápida estavam a União Internacional de Telecomunicações (ITU-T), a União Internacional de Radiociência (URSI) e grupos técnicos do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE 1588).
A pressão do setor tecnológico ocorre porque a simples inserção ou retirada de um segundo exige manobras complexas em sistemas críticos que dependem de sincronização exata. A medida protege o funcionamento contínuo de redes de telecomunicações, navegação por satélite, mercados financeiros, centros de processamento de dados, controle de transporte aéreo, redes inteligentes de distribuição de energia (smart grids) e dispositivos conectados à Internet das Coisas (IoT).
Novo limite de 3.600 segundos no Tempo Universal Coordenado
Para garantir que o horário oficial opere sem cortes por vários séculos, a resolução alterou a margem de tolerância entre os relógios e a posição astronômica do planeta. Os parâmetros técnicos e institucionais definidos pelo acordo estabelecem os seguintes limites:
- Evento de aprovação: 28ª Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM).
- Local da votação: Versalhes, na França.
- Composição do órgão: 69 Estados-membros integram o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM).
- Documento oficial: Resolução 5.
- Limite anterior de diferença entre UTC e UT1: 0,9 segundo para acionar o ajuste.
- Novo limite máximo tolerado entre UTC e UT1: 3.600 segundos, o equivalente a 1 hora.
Histórico de falhas e os 27 ajustes no UTC desde 1972
O mecanismo do segundo intercalar foi criado para compensar a irregularidade do movimento terrestre, que sofre alterações constantes provocadas por fluxos no núcleo do planeta, correntes oceânicas, circulação da atmosfera, derretimento de calotas polares e a força gravitacional das marés. Ao longo de sua vigência, o sistema exigiu intervenções recorrentes que se tornaram incompatíveis com a expansão da internet.
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Em 2012, por exemplo, a adição de um segundo extra provocou instabilidades e quedas em plataformas digitais como o Reddit e o LinkedIn, além de causar atrasos operacionais nos sistemas de reservas aéreas da companhia australiana Qantas. Dez anos depois, na conferência de 2022, os países aprovaram a Resolução 4 para encerrar o ajuste no futuro, ocasião em que a Rússia manifestou oposição porque seu sistema de navegação por satélite, o GLONASS, incorpora os segundos intercalares em sua arquitetura, ao contrário do sistema GPS norte-americano.
Cronologia do segundo bissexto até a extinção em 2027
A transição para a escala de tempo ininterrupta encerra um ciclo iniciado há mais de meio século na metrologia mundial. As principais marcas temporais desse processo incluem:
- 1 de janeiro de 1972: introdução oficial do segundo intercalar no Tempo Universal Coordenado (UTC).
- 31 de dezembro de 2016: aplicação do último segundo extra registrado na história, completando o total acumulado de 27 segundos adicionados desde a criação da regra.
- 13 a 15 de outubro de 2026: realização da 28ª reunião da CGPM que votou a antecipação do fim da medida, originalmente prevista para o ano de 2035.
- 20 de maio de 2027: data exata em que entra em vigor a escala contínua do UTC e termina oficialmente a aplicação de segundos intercalares.
Impacto do fim do segundo bissexto na rotina da população
Para o cidadão comum, a mudança nas regras da metrologia internacional passa despercebida e não altera a duração prática dos dias. A extinção do segundo intercalar nos sistemas de tempo não elimina o ano bissexto do calendário civil, que continuará acrescentando o dia 29 de fevereiro a cada quatro anos, nem interfere nas decisões de cada país sobre a adoção de horários de verão ou de inverno.
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Com a nova margem de uma hora de tolerância entre o tempo atômico civil e a rotação solar da Terra, qualquer necessidade de revisão estrutural nos relógios ficará restrita às próximas gerações, a partir do início da vigência da regra em 20 de maio de 2027.
