A necessidade irresistível de mover os membros inferiores durante o repouso caracteriza a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), condição neurológica que afeta ao menos 5% da população brasileira. Também chamada de doença de Willis-Ekbom, a alteração provoca sensações de formigamento, ardor, peso, pontadas ou a impressão de insetos caminhando sob a pele, sobretudo no período noturno, conforme diretrizes médicas revisadas em 16 de outubro de 2026.
As estimativas sobre o alcance do distúrbio no país variam entre 5% e 10% dos brasileiros segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), enquanto a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) calcula uma prevalência de 5% a 8% da população. “Esse desconforto melhora ao se movimentar, mas piora no repouso, sobretudo à noite, o que pode prejudicar bastante o sono e, em casos mais graves, comprometer a vida do paciente”, afirmou Marcelo Cruz Rezende, médico reumatologista e membro da Comissão de Dor da SBR.
Diagnóstico da Síndrome das Pernas Inquietas avalia 4 critérios clínicos
A identificação da doença de Willis-Ekbom é exclusivamente clínica e dispensa a realização de exames complexos de laboratório ou de imagem. As diretrizes nacionais para reconhecer o problema foram estabelecidas pelo Grupo Brasileiro de Estudo em Síndrome das Pernas Inquietas (GBE-SPI) durante uma reunião de especialistas realizada nos dias 17 e 18 de novembro de 2006, cujo consenso científico foi publicado em 10 de setembro de 2007 no periódico Arquivos de Neuro-Psiquiatria, há quase 20 anos.
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Para confirmar o quadro, o médico analisa 4 pontos básicos relatados pelo paciente no consultório:
- Impulso incontrolável de mexer as pernas, quase sempre acompanhado de sensações físicas desagradáveis;
- Início ou agravamento dos sintomas durante momentos de inatividade, quando a pessoa está sentada ou deitada;
- Alívio parcial ou total do incômodo de forma imediata ao realizar movimentos como caminhar, alongar ou massagear a região;
- Padrão ligado ao relógio biológico, com manifestação concentrada no fim do dia e durante a madrugada.
O documento do GBE-SPI aponta que a tentativa de relaxar funciona como gatilho para a crise: “A necessidade de mover as pernas ou a sensação desagradável de desconforto começa ou piora durante períodos de repouso ou inatividade, com o paciente sentado ou deitado”. Em quadros mais severos ou menos frequentes, a agitação e a alteração de sensibilidade também atingem os membros superiores, afetando os braços.
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Diferenças entre a Síndrome das Pernas Inquietas, a ansiedade e o TDAH
O balançar repetitivo dos pés em salas de espera, no trabalho ou durante provas costuma gerar confusão com outros quadros clínicos. O consenso do GBE-SPI inclui os estados de ansiedade, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e as estereotipias motoras (movimentos repetitivos involuntários) na lista de diagnóstico diferencial, que reúne condições com sinais parecidos, mas de origem distinta. Na ansiedade e no TOC, o movimento ocorre como válvula de escape para a tensão emocional ou ação automática durante o dia, sem dor física, e desaparece durante o sono. Já na SPI, a movimentação é uma resposta voluntária a um incômodo físico real e segue uma “característica circadiana surgindo ou piorando no final do dia e à noite”, segundo define o GBE-SPI.
Entre o público infantil, a privação de descanso e o incômodo crônico nas pernas geram irritabilidade, falta de atenção e incapacidade de permanecer parado em sala de aula. Esse comportamento faz com que crianças com o distúrbio neurológico recebam, de maneira equivocada, o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Sobre a identificação do problema nessa faixa etária, o pesquisador do Ambulatório dos Distúrbios do Sono (Asono) da USP, Daniel Guilherme Suzuki, declarou: “É desafiador porque pode ser confundido com hiperatividade”.
Fatores de risco da doença de Willis-Ekbom e histórico médico
Identificada pela primeira vez no século XVII, a condição recebeu a denominação atual em 1945, quando foi descrita pelo médico sueco Karl-Axel Ekbom. Os dados da Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, mostram que a síndrome impede o descanso adequado e provoca sonolência diurna exagerada, cansaço, indisposição e alterações de humor. Nas chamadas formas primárias, o distúrbio apresenta forte componente genético, sendo registrado com maior frequência em mulheres, gestantes — especialmente aquelas que passaram por múltiplas gestações — e adultos a partir dos 40 ou 50 anos.
Além da predisposição hereditária, fatores secundários e hábitos diários atuam como gatilhos para desencadear ou agravar a inquietação nos membros:
- Deficiência de ferro no organismo, apontada como uma das causas secundárias mais comuns;
- Doenças associadas, incluindo insuficiência renal, diabetes, artrite reumatoide e neuropatias periféricas (lesões nos nervos periféricos);
- Consumo excessivo de bebidas alcoólicas ou produtos com cafeína, a exemplo de café e energéticos;
- Uso de medicamentos específicos, como antialérgicos, antidepressivos e fármacos contra enjoo.
Etapas do tratamento para a Síndrome das Pernas Inquietas
O controle dos sintomas começa pela mudança de rotina e pela eliminação de fatores agravantes, com a suspensão do álcool e da cafeína no período noturno e a reposição de ferro nos pacientes com déficit confirmado desse mineral. “Nos casos mais leves, há alternativas não farmacológicas, sempre individualizadas, como massagens, alongamentos, exercícios aeróbicos e cuidados com higiene do sono”, explicou o reumatologista Marcelo Cruz Rezende.
Quando os ajustes no estilo de vida não são suficientes para restabelecer o descanso noturno, o protocolo médico recorre a medicamentos que atuam no sistema nervoso. De acordo com o consenso do GBE-SPI para a forma primária da doença, os fármacos de primeira escolha são os agentes dopaminérgicos, grupo que atua na regulação do neurotransmissor dopamina e inclui os agonistas dopaminérgicos e a levodopa. Na segunda linha de prescrição estão a gabapentina e a oxicodona, enquanto a terceira opção terapêutica abrange o uso de clonazepam ou de ácido valproico de liberação lenta.
