Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) sobre benefícios sociais e previdenciários aponta que o congelamento do valor real desses repasses em municípios fora das capitais e regiões metropolitanas levaria 2,7 milhões de pessoas à pobreza. Do total de atingidos no interior do país, 2,4 milhões cairiam na extrema pobreza, enquanto a renda agregada dessas localidades sofreria redução entre 6,8% e 10,8% até 2029.
Os cálculos integram a Nota de Política Econômica nº 90, publicada na terça-feira, 13 de outubro de 2026, pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP). O levantamento avalia os efeitos de travar os reajustes de aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC, auxílio pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) e Bolsa Família. “Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirmou Luiza Nassif Pires, economista, co-diretora do Made-USP e coautora do estudo.
Proposta de ajuste fiscal de R$ 250 bilhões no PL motivou cálculo sobre benefícios sociais
A simulação dos economistas Luiza Nassif Pires, Clara Zanon Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo foi motivada por propostas em debate na equipe econômica do candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro. O plano em discussão prevê um ajuste fiscal de aproximadamente R$ 250 bilhões nas despesas públicas, valor equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país), e inclui a desvinculação dos benefícios sociais dos ganhos reais do salário mínimo, além de mudanças nas regras para gastos com saúde e educação.
Para dimensionar o impacto sobre as famílias, os pesquisadores aplicaram um exercício contrafactual (simulação que estima o que teria ocorrido sob regras diferentes) ao período de 2022 a 2025 nas cidades situadas fora das regiões metropolitanas. Caso os repasses tivessem ficado sem ganho acima da inflação nesses anos, o acréscimo de 2,4 milhões de moradores na extrema pobreza representaria uma alta de 24,5% sobre o contingente de extremamente pobres registrado em 2025. Se a regra adotada no período fosse o padrão de reajuste do governo de Jair Bolsonaro (2019 a 2022), o número de pessoas abaixo da linha de pobreza nessas mesmas cidades teria subido em 1,8 milhão.
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Como o freio nos benefícios sociais afeta o comércio de 4 mil municípios até 2029?
Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil ficam fora das capitais e de suas regiões metropolitanas. Nessas cidades, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Anual de 2025 utilizados pelo Made-USP, o peso das transferências públicas na economia chega a ser o dobro do observado nos grandes centros urbanos e compõe quase metade do orçamento das famílias mais pobres, aquelas com renda mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa. No Ceará, por exemplo, os benefícios sociais e previdenciários respondem por 40% da renda agregada das cidades do interior, contra 22% na capital e região metropolitana.
Ao projetar o comportamento da economia entre 2027 e 2029 sem a valorização real dos repasses, o estudo aponta que a renda total dos municípios do interior ficaria de 6,8% a 10,8% abaixo da trajetória de referência, sendo a perda de 10,8% correspondente ao cenário de congelamento total. “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, declarou Luiza Nassif Pires.
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Na Nota de Política Econômica nº 90, os quatro autores destacam que o baque atinge moradores e comerciantes que não estão nos cadastros do governo. “Cerca de um terço dessa perda decorre do efeito indireto sobre o consumo e a atividade local, afetando inclusive quem não recebe diretamente os auxílios. As perdas são maiores nos interiores dos estados do Norte e do Nordeste, justamente aqueles em que o ganho relativo de votos foi maior”, escreveram os pesquisadores.
Queda de renda e aumento da pobreza por estado sem o reajuste real
O levantamento do Made-USP detalha como o congelamento dos repasses federais afetaria de forma desigual o interior das unidades da Federação, tanto no aumento absoluto de moradores pobres quanto na retração da renda municipal e na dependência atual das famílias vulneráveis:
- Bahia, São Paulo e Minas Gerais: teriam os maiores aumentos absolutos de pessoas na pobreza no interior com o congelamento, somando até 336 mil na Bahia, até 263 mil em São Paulo e até 251 mil em Minas Gerais, seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, com acréscimos acima de 200 mil pessoas cada.
- Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: registrariam as quedas mais severas na renda agregada do interior até 2029, com retrações entre 17% e 18%.
- Amazonas, Sergipe e Pernambuco: teriam perdas em torno de 15% na renda agregada dos municípios de fora das regiões metropolitanas.
- Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia: sofreriam recuos entre 10% e 13% na renda total de suas cidades do interior, enquanto São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul teriam perdas aproximadas de 6,5%.
- Peso no orçamento familiar: somados, aposentadorias, BPC e Bolsa Família representam 48% da renda das famílias vulneráveis no Piauí e no Ceará, 46% em Sergipe e no Rio Grande do Norte, 45% em Alagoas e no Maranhão, 21% em Mato Grosso do Sul e em São Paulo, e 18% em Mato Grosso e em Santa Catarina.
- Divisão por programa: isoladamente, o Bolsa Família compõe de 20% a 23% da renda dessas famílias no Piauí, Amazonas, Acre, Sergipe e Pernambuco; aposentadorias e pensões pesam de 18% a 26% no Sul e no Sudeste; e o BPC varia de 3% a 9% no país, chegando a 8% e 9% em Sergipe, Ceará e Alagoas.
Variação dos benefícios sociais desde 2019 e dados da extrema pobreza no Brasil
A trajetória de referência utilizada pelo Made-USP replica o crescimento real de 7,4% ao ano observado nos benefícios entre 2022 e 2025, período em que o ganho acumulado descontada a inflação atingiu 24,0%. No quadriênio anterior, de 2019 a 2022, o valor real dos mesmos benefícios recuou 1,1% ao ano (queda acumulada de 4,5% em quatro anos) quando desconsiderado o Auxílio Emergencial e o Auxílio Brasil pagos na pandemia, ou registrou variação positiva de 0,6% ao ano (alta de 2,5% no acumulado do período) com a inclusão do benefício extraordinário.
No recorte nacional citado a partir de levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o Brasil contabilizava 9,8 milhões de pessoas na extrema pobreza em 2025, o equivalente a 4,6% da população. Esse contingente representou um recuo de 58,3% na comparação com 2021, ano em que o país somava 23,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, ou 11,8% dos habitantes.
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Dados da Nota de Política Econômica nº 90 do Made-USP
- Documento oficial: Nota de Política Econômica nº 90, intitulada “Quanto perdem as economias locais quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”.
- Instituição responsável: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da FEA-USP, sediado em São Paulo (SP).
- Data de publicação: terça-feira, 13 de outubro de 2026.
- Autoria da pesquisa: economistas Luiza Nassif Pires, Clara Zanon Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo.
- Recorte territorial: cerca de 4 mil municípios situados fora das capitais e regiões metropolitanas, de um total de 5.569 cidades brasileiras.
Os pesquisadores do Made-USP registram no documento que as simulações comparam possibilidades sob hipóteses específicas e não devem ser lidas como previsões.
