Febrasgo e Anvisa detalham eficácia do DIU e nova validade de até oito anos

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Cerca de 55% das mães enfrentam uma gravidez não planejada no país, segundo levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizado com 24 mil mulheres. Para reduzir esse índice e garantir o planejamento reprodutivo, médicos ginecologistas defendem que a paciente tenha autonomia para escolher livremente o seu método anticoncepcional, independentemente do desejo de ter filhos no futuro. Essa decisão depende do acesso a dados claros sobre o funcionamento de cada opção disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e na rede privada, incluindo as taxas de falha, os efeitos colaterais e a atualização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que em julho de 2025 ampliou para até oito anos o prazo de uso contraceptivo do dispositivo intrauterino (DIU) hormonal de 52 miligramas.

Entre as opções disponíveis nos consultórios, o comprimido oral permanece como a escolha mais frequente das pacientes. Dados da pesquisa global “Think About Needs in Contraception” (TANCO, ou Pense nas Necessidades em Contracepção, em tradução livre), conduzida pela farmacêutica Bayer com o suporte da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), mostram que 33% das 1.113 entrevistadas no levantamento utilizam a pílula regularmente.

A adaptação ao medicamento diário, contudo, varia conforme o organismo e leva parte das usuárias a interromper o tratamento. A assistente de pesquisa e informações Janine Oliveira, de 23 anos, utilizava o comprimido desde os 18 anos e decidiu suspender a medicação devido às reações adversas. “Eu estava insatisfeita, tomo desde os 18 anos. Eu tinha o humor muito depressivo, não tinha lubrificação nem desejo sexual. Para piorar, minha terapeuta e eu chegamos ao consenso de que ele potencializava minhas crises de depressão”, afirmou Janine.

Depois de passar mais de 12 meses buscando alternativas livres de compostos sintéticos, a assistente optou pela inserção do DIU revestido com cobre. Posicionado diretamente dentro da cavidade uterina pelo médico, o metal gera uma reação local que impede o espermatozoide de encontrar o óvulo e realizar a fecundação. Como pertence à categoria dos contraceptivos reversíveis de longa duração (conhecidos pela sigla técnica LARC), o acessório elimina a exigência de lembrar da proteção diariamente, rotina obrigatória para quem depende das cartelas orais.

A programadora musical Juliana Mezzaroba, de 33 anos, também escolheu o dispositivo intrauterino, mas preferiu a versão hormonal justamente para controlar os sintomas do ciclo, como as cólicas severas e o volume intenso de sangramento. Três anos depois do procedimento em consultório, ela relatou que os espasmos abdominais continuam ocorrendo em menor intensidade e cedem com medicação simples. “Hoje sou uma pessoa normal. Antes, incontáveis vezes tive de ir ao pronto-socorro para tomar remédio na veia porque desmaiava”, disse a programadora.

A experiência positiva de ambas as pacientes com o artefato intrauterino não anula a indicação dos comprimidos para outras perfis de usuárias. A orientação clínica estabelece que a mulher que se adapta bem ao anticoncepcional oral e prefere evitar o desconforto da inserção uterina pode manter sua rotina com segurança, desde que conheça todas as vantagens e limitações da alternativa escolhida.

Ação local no útero e ampliação do prazo de validade pela Anvisa

O dispositivo intrauterino atua de maneira restrita ao ambiente do útero e divide-se em dois grupos principais: os modelos não hormonais e os hormonais. A versão de cobre, ofertada gratuitamente nas unidades do SUS, mantém sua capacidade de proteção por até dez anos. Já o modelo com hormônio libera levonorgestrel (um derivado da progesterona) e passou por uma atualização regulatória no país. Em 26 de junho de 2025, com publicação em julho de 2025, a Anvisa aprovou a ampliação da validade do sistema de 52 miligramas (comercializado como Mirena) de cinco para até oito anos quando utilizado exclusivamente para evitar a gravidez. No estudo clínico que embasou a decisão sobre os anos seis, sete e oito de uso, foram registradas apenas duas gestações em 10.216 ciclos avaliados, o que representa uma taxa cumulativa de falha de 0,68%. Para o controle de sangramento uterino anormal, proteção do endométrio em reposição hormonal ou no caso do dispositivo de menor dosagem (Kyleena, de 19,5 miligramas), o prazo de troca permanece de cinco anos. Em qualquer uma das modalidades, a eficácia supera 99%, e a paciente pode solicitar a remoção a qualquer instante, embora o uso de preservativo continue indispensável por não haver barreira contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Casos de falha, embora ganhem repercussão quando bebês nascem próximos ao equipamento, representam exceções estatísticas na prática médica. De acordo com a ginecologista Ilza Monteiro, integrante da diretoria da Febrasgo e uma das autoras do levantamento TANCO, a proporção de gravidez é de apenas três ocorrências para cada grupo de mil mulheres ao longo de um ano de utilização do método.

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Outro mito recorrente nos consultórios envolve o receio de perda definitiva da capacidade reprodutiva após o uso prolongado da peça em formato de T. A especialista da Febrasgo esclarece que o retorno à fertilidade é imediato assim que o médico retira a haste do canal uterino. “Depois de usar, a mulher vai engravidar tão fácil quanto se não tivesse usado o DIU. Ele não traz risco a mais”, declarou Ilza Monteiro.

Esquecimento da pílula e baixa adesão aos métodos de longo prazo

A independência da memória da paciente corrige uma das principais vulnerabilidades do planejamento familiar baseado em comprimidos. O estudo apoiado pela Febrasgo revelou que 47% das usuárias esquecem de ingerir a pílula ocasionalmente, e um terço das entrevistadas deixou de tomar uma ou duas doses no trimestre anterior à coleta dos dados. Enquanto o dispositivo intrauterino apresenta índice de insucesso inferior a 1%, métodos que dependem da disciplina diária ou do uso correto a cada relação, como pílulas e preservativos, registram taxas de falha entre 8% e 12% no uso típico cotidiano, segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

O perfil reprodutivo traçado pela pesquisa TANCO reforça a demanda por proteção estendida entre diferentes faixas etárias. No grupo de jovens de 18 a 29 anos, 37% afirmam que não pretendem ter filhos no futuro e 19% descartam a maternidade para os cinco anos seguintes. Entre as mulheres de 30 a 39 anos, os percentuais são ainda maiores: 39% não planejam engravidar em nenhum momento e 35% rejeitam a ideia de gestação num horizonte de cinco anos.

Apesar dessa preferência por adiar ou evitar a gravidez, o levantamento da Bayer apontou que somente 2% das participantes utilizavam o modelo de cobre e 6% tinham experiência com a opção hormonal. A baixa procura decorre diretamente da falta de orientação médica, uma vez que 70% das entrevistadas declararam que avaliariam a colocação de um método de longa duração caso recebessem explicações detalhadas de seus ginecologistas. Na rede pública, a ampliação do acesso tem avançado com a atuação de médicos e enfermeiros capacitados: dados do Ministério da Saúde mostram que as inserções em hospitais públicos subiram 44% em 2023, saltando de 114,5 mil procedimentos em 2022 para 164,4 mil, além de 23 mil atendimentos realizados por profissionais de enfermagem em 2024. Em 2025, a pasta também incorporou o DIU hormonal ao SUS para o tratamento de pacientes diagnosticadas com endometriose.

A recomendação clínica abrange desde adolescentes até mulheres maduras, independentemente de já terem passado por uma gestação. As restrições médicas limitam-se a quadros específicos que impedem a permanência segura da haste no órgão:

  • Infecções pélvicas ativas ou doença trofoblástica gestacional em tratamento;
  • Alterações anatômicas ou malformações congênitas da cavidade do útero;
  • Diagnóstico de câncer no colo do útero ou no endométrio;
  • Estreitamento severo (estenose) do canal cervical que impeça a passagem do aplicador;
  • Sangramento vaginal de causa ainda não identificada pelo médico.

Sensibilidade à dor e etapas da inserção em consultório

A percepção de desconforto durante a introdução da peça varia conforme o limiar de dor de cada paciente, indo desde um incômodo leve até espasmos intensos semelhantes a uma cólica menstrual aguda. Segundo parâmetros clínicos do Hospital Israelita Albert Einstein, menos de 5% das mulheres relatam dor moderada ou severa no momento da aplicação, e reações vagais como tontura ou desmaio ocorrem em no máximo 1% dos procedimentos. Para a programadora Juliana Mezzaroba, que ingeriu um analgésico preventivo antes da consulta, a experiência foi classificada como “muito dolorido”. “Senti três agulhadas no útero, cólica muito forte”, relatou.

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A assistente Janine Oliveira enfrentou desconforto semelhante tanto no dia do procedimento quanto no período de adaptação do organismo ao cobre. “Foi um processo doloroso e os primeiros meses também: sangramento quase ininterrupto, cólicas absurdas, ter de acostumar com meus próprios hormônios e não os sintéticos”, afirmou. De acordo com a diretora da Febrasgo, pacientes que já passaram por parto normal costumam apresentar menor sensibilidade durante a passagem do dispositivo pelo colo uterino.

A aplicação ocorre no próprio consultório ou em Unidades Básicas de Saúde (UBS) em poucos minutos. O profissional pode realizar o procedimento em qualquer dia do ciclo, desde que a hipótese de gravidez esteja totalmente descartada e não existam infecções. Muitos especialistas preferem agendar a colocação durante o período menstrual, fase em que o canal cervical encontra-se naturalmente mais dilatado, facilitando a passagem do tubo guia e reduzindo o incômodo.

Uma vez posicionado no fundo uterino, o modelo de cobre atua por até uma década liberando íons com ação espermicida, enquanto a versão hormonal de 52 miligramas protege contra a fecundação por até oito anos (ou cinco anos nas indicações terapêuticas para controle de fluxo e endometriose). Na rede suplementar, os planos de saúde têm obrigação regulamentada de cobrir tanto o fornecimento dos dispositivos de cobre e hormonais quanto os custos médicos de implantação para planejamento familiar e tratamento de endometriose.

Ilza Monteiro destaca que a introdução ocorre sem dificuldades técnicas em 85% dos atendimentos. Embora clínicas ofereçam a opção de realizar o procedimento sob sedação venosa em ambiente hospitalar, a médica desencoraja essa prática rotineira. “É melhor colocar sem sedação, com controle da dor. Ansiedade e medo são os principais motivos para sentir dor. Se a mulher confia no médico, está tranquila na hora, não é nenhum bicho de sete cabeças”, explicou a ginecologista.

Trinta dias após a consulta de inserção, o protocolo clínico orienta a realização de uma ultrassonografia transvaginal para confirmar se a haste permanece ancorada na posição exata dentro da cavidade uterina. O primeiro mês concentra a maior probabilidade de o organismo expelir o aparato espontaneamente, evento classificado como raro pela especialista da Febrasgo.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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