Pancreatite soma 345.992 internações no SUS e alerta da Anvisa

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Pancreatite, câncer de pâncreas Foto: Pancreatite, câncer de pâncreas - sasirin pamai/ Istockphoto.com

A inflamação do pâncreas, conhecida clinicamente como pancreatite, compromete funções orgânicas essenciais como a produção do hormônio insulina, responsável pelo controle do açúcar no sangue, e a liberação de enzimas voltadas à digestão dos alimentos. Quando o tecido pancreático sofre esse processo inflamatório e os sinais clínicos iniciais deixam de receber assistência médica imediata, o quadro pode evoluir para a falência de múltiplos órgãos e resultar na morte do paciente. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), consolidados em levantamento epidemiológico publicado em 20 de março de 2026, mostram que a forma aguda da doença provocou 345.992 internações na rede pública entre 2015 e 2024, com letalidade hospitalar global de 4,92%.

Dividida pela medicina entre as apresentações aguda e crônica, a enfermidade costuma gerar manifestações físicas que os pacientes confundem com distúrbios gástricos passageiros ou dores musculares. Esse erro na interpretação dos primeiros desconfortos retarda a confirmação do diagnóstico nas unidades de saúde e adia o início da terapia adequada. O atraso no socorro hospitalar reduz a probabilidade de reabilitação total do órgão e eleva a chance de danos teciduais permanentes.

Anvisa - - Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Anvisa – – Valter Campanato/Agência Brasil

O monitoramento clínico sobre as inflamações pancreáticas ganhou reforço regulatório em 9 de fevereiro de 2026, data em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta de farmacovigilância sobre o uso inadequado de medicamentos agonistas do receptor GLP-1. Essa classe farmacológica imita a ação de um hormônio intestinal ligado à saciedade e ao controle glicêmico, englobando substâncias como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, comercializadas como canetas injetáveis para tratar diabetes tipo 2 e obesidade. Em organismos vulneráveis ou submetidos ao uso sem indicação aprovada em bula, esses fármacos podem alterar o metabolismo digestivo e precipitar episódios inflamatórios agudos no pâncreas.

A identificação rápida das alterações abdominais e o deslocamento imediato até um serviço de emergência médica definem a evolução clínica do paciente acometido pela doença. O reconhecimento precoce das dores características permite estancar a progressão da inflamação antes que as enzimas digestivas destruam as células do próprio órgão e atinjam a corrente sanguínea.

Dor abdominal em faixa e diferenças em relação ao mal-estar gástrico

Os sintomas provocados pela inflamação pancreática apresentam padrões anatômicos distintos das cólicas intestinais comuns ou da indigestão alimentar simples. A observação detalhada do local e da intensidade do incômodo serve como parâmetro inicial para separar uma indisposição passageira de uma urgência gastroenterológica.

O sinal clínico predominante da pancreatite consiste em uma dor intensa localizada na região superior do abdômen, descrita por pacientes como uma sensação contínua de aperto ou compressão profunda. Esse estímulo doloroso irradia da barriga diretamente para a coluna dorsal, formando uma linha de pressão em formato de faixa ao redor do tronco que indica a necessidade de avaliação hospitalar imediata.

Gatilhos da inflamação e dados da Anvisa sobre canetas injetáveis

A medicina classifica a doença em duas vertentes distintas de acordo com o tempo de instalação e a extensão das lesões celulares. Enquanto a pancreatite aguda se instala de maneira repentina e severa, exigindo intervenção de urgência, a versão crônica decorre de processos inflamatórios repetitivos e prolongados que causam fibrose e perda progressiva da capacidade funcional da glândula. O consumo elevado e frequente de bebidas alcoólicas figura entre as causas primárias de ambas as manifestações, uma vez que o etanol exerce efeito tóxico direto sobre as estruturas pancreáticas. Outro fator desencadeante clássico é a migração de cálculos biliares, popularmente chamados de pedras na vesícula, que entopem o ducto pancreático, represam o suco digestivo e forçam a ativação das enzimas dentro do próprio pâncreas. Taxas elevadas de triglicerídeos na circulação sanguínea, pancadas diretas na região do abdômen e infecções causadas por vírus completam a lista de origens documentadas na prática médica.

Além das causas metabólicas e obstrutivas tradicionais, o acompanhamento farmacológico passou a concentrar a atenção das autoridades sanitárias diante da utilização de análogos de GLP-1 fora das diretrizes médicas. Embora a Anvisa mantenha o parecer de que os benefícios terapêuticos superam os riscos quando o paciente segue a prescrição correta, o órgão contabilizou 145 notificações de suspeitas de eventos adversos ligados a esses medicamentos e seis casos suspeitos com evolução para óbito entre 2020 e 7 de dezembro de 2025. No exterior, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) reportou 1.296 registros de pancreatite associados à mesma classe de substâncias, com 19 mortes confirmadas no período de 2007 a outubro de 2025. Para coibir a automedicação voltada ao emagrecimento estético sem triagem clínica, vigora desde junho de 2025 a exigência da Anvisa, estabelecida pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 973/2025 e pela Instrução Normativa (IN) nº 360/2025, que obriga farmácias e drogarias a reterem a receita médica emitida em duas vias, com validade máxima de 90 dias a contar da assinatura. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, ressalta que o diagnóstico diante de um quadro inflamatório exige cautela investigativa. “As análises precisam excluir outras possibilidades”, afirmou o médico ao pontuar que a própria obesidade e os cálculos na vesícula biliar já representam fatores de risco independentes nos pacientes em tratamento.

Sinais de emergência que exigem internação e perfil no SUS

A velocidade com que a inflamação pancreática pode se agravar torna o tempo de chegada ao pronto-socorro uma variável determinante para a sobrevivência do indivíduo. A tentativa de aliviar o desconforto em casa com analgésicos comuns mascara a evolução do quadro e amplia o risco de destruição irreversível do parênquima do pâncreas e de estruturas vizinhas.

A combinação da dor abdominal irradiada para as costas com quadros de febre alta ou episódios repetidos de vômito configura um cenário de emergência médica. Diante da presença simultânea desses sintomas, o paciente deve ser encaminhado imediatamente a uma unidade de pronto atendimento hospitalar.

No ambiente hospitalar, a equipe médica realiza a estabilização hemodinâmica do doente por meio de hidratação venosa, controle rigoroso da dor e monitoramento das funções vitais em regime de internação. O levantamento baseado no SIH/SUS entre 2015 e 2024 demonstra a dimensão dessa demanda hospitalar e o perfil demográfico mais atingido pela forma aguda da doença:

  • Total de hospitalizações na rede pública: 345.992 internações registradas no período de dez anos.
  • Divisão por sexo: 183.080 internações e 9.933 óbitos entre homens, contra 162.912 internações e 7.099 mortes entre mulheres.
  • Recorte etário predominante: adultos de 30 a 59 anos concentram a maioria dos atendimentos, com pico na faixa de 40 a 49 anos, que somou 68.973 hospitalizações.
  • Custo financeiro regionalizado: estudo paralelo com dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) de 2019 a 2024 aponta que somente as regiões Sudeste e Sul somaram R$ 120.972.449 em gastos hospitalares com a enfermidade.

Mudanças na alimentação e restrição ao álcool para preservar o órgão

A redução do risco de desenvolver processos inflamatórios no pâncreas depende diretamente do controle sobre fatores comportamentais e da adesão estrita aos protocolos de prescrição medicamentosa. A preservação das células responsáveis pela síntese de insulina e suco pancreático protege simultaneamente o equilíbrio metabólico e a absorção de nutrientes pelo trato gastrointestinal.

A interrupção ou restrição severa da ingestão de bebidas alcoólicas constitui a medida preventiva primária contra a agressão celular direta. Como o etanol desencadeia reações tóxicas cumulativas no tecido da glândula, a abstinência afasta uma das principais causas de crises agudas e da degeneração crônica.

O padrão alimentar diário exerce influência direta sobre o volume de trabalho exigido do sistema biliar e pancreático. O corte no consumo de gorduras saturadas e produtos ultraprocessados evita a sobrecarga na síntese de enzimas digestivas e diminui a formação de cálculos na vesícula. Cardápios compostos por vegetais, frutas frescas e cereais integrais estabilizam o trânsito digestivo e auxiliam no controle dos níveis de triglicerídeos no sangue.

No campo farmacológico, a utilização de qualquer substância voltada à redução de peso corporal requer avaliação laboratorial prévia e prescrição por médico habilitado. O acompanhamento clínico periódico durante o uso de agonistas de GLP-1 permite identificar precocemente alterações gastrointestinais ou elevações enzimáticas antes que evoluam para uma crise aguda.

Exames de amilase, lipase e imagens para evitar a necrose pancreática

A confirmação diagnóstica da pancreatite no pronto-socorro combina o exame físico do abdômen com a coleta de sangue para medir a concentração de duas enzimas específicas: a amilase e a lipase. Em quadros de inflamação aguda, os níveis sanguíneos dessas substâncias sofrem elevação acentuada, sinalizando o extravasamento enzimático para a circulação. Para visualizar o formato da glândula, identificar pedras nos canais biliares e medir a extensão do edema ou de lesões teciduais, os médicos recorrem a exames de imagem como ultrassonografia abdominal, tomografia computadorizada e ressonância magnética. Nos casos de investigação da forma crônica na rede pública, o Ministério da Saúde também dispõe de diretrizes técnicas avaliadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), como o relatório de recomendação nº 988 de 2025 sobre o uso da ultrassonografia endoscópica.

A ausência de diagnóstico rápido e de suporte hospitalar abre caminho para complicações locais e sistêmicas de alta letalidade. Entre os agravamentos diretos estão a formação de pseudocistos, que são bolsas de fluido inflamatório e enzimas acumuladas ao redor do órgão, as infecções bacterianas secundárias, a insuficiência respiratória aguda e a necrose pancreática, caracterizada pelo apodrecimento e morte do tecido da glândula. De acordo com parâmetros clínicos do Hospital Israelita Albert Einstein, de 20% a 30% dos pacientes hospitalizados com pancreatite aguda evoluem para a apresentação grave da doença. Enquanto a mortalidade geral do quadro agudo gira em torno de 5%, a taxa sobe para aproximadamente 10% quando ocorre necrose pancreática estéril e atinge até 30% nos casos em que a área necrosada sofre infecção secundária.

Acompanhamento médico após a alta hospitalar

A superação de um episódio agudo de inflamação no pâncreas não encerra a necessidade de vigilância clínica sobre o aparelho digestivo. Pacientes que receberam alta hospitalar, especialmente aqueles com histórico de cálculos biliares, alterações persistentes nas taxas de gordura no sangue ou danos estruturais prévios na glândula, precisam manter consultas periódicas com médicos gastroenterologistas ou endocrinologistas para monitorar a função exócrina e endócrina do órgão e impedir novas crises.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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