Fumaça em Manaus faz poluição superar em 80,9 vezes o limite da OMS

Fumaça cobre cidade de Manaus (AM) - Reprodução/Redes Sociais/val_amazon

Fumaça cobre cidade de Manaus (AM) - Reprodução/Redes Sociais/val_amazon

A fumaça provocada por queimadas levou Manaus a registrar a pior qualidade do ar do mundo na manhã deste sábado (17), alcançando o nível classificado como perigoso pela plataforma internacional de monitoramento IQAir. A concentração de material particulado fino (PM2.5), formado por partículas microscópicas suspensas no ar que penetram profundamente no sistema respiratório, atingiu 404,3 microgramas por metro cúbico (µg/m³) entre 8h40 e 9h, volume que representa 80,9 vezes a diretriz anual máxima de até 5 µg/m³ estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), mantido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também apontou degradação severa e classificou o ar como péssimo em todos os pontos monitorados da capital por volta das 6h55. No bairro Coroado, os sensores da universidade mediram 457,7 µg/m³ de partículas. O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana, alertou para a gravidade do quadro sanitário na capital amazonense. “Este é provavelmente, o pior dia do ano, em termos de fumaça tóxica. Quem puder fique em casa, com portas e janelas fechadas, espcialmente crianças, idosos, gestantes”, disse.

Índices da IQAir em Manaus superam metrópoles da Ásia

Os dados da plataforma IQAir mostram que o Índice de Qualidade do Ar (AQI+), métrica internacional que calcula o grau de pureza ou contaminação atmosférica em tempo real, subiu rapidamente ao longo do início da manhã em Manaus. A marcação passou de 441 pontos às 6h para picos situados na faixa de 637 a 693 pontos poucas horas depois, isolando o município no topo dos rankings nacional e global de poluição.

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Com essa pontuação, a capital do Amazonas registrou uma carga de poluentes quase três vezes superior à verificada no mesmo período em grandes centros urbanos asiáticos historicamente afetados pela poluição severa. Na mesma faixa de horário, Singapura marcava entre 222 e 226 pontos AQI+, enquanto as cidades indianas de Mumbai, Kolkata e Delhi apresentavam índices de 174, 163 e 163 pontos AQI+, respectivamente.

A camada densa de poluentes que encobre a região metropolitana tem origem em incêndios florestais ativos no interior do próprio Amazonas e em estados vizinhos, como Pará, Rondônia e Mato Grosso. As partículas liberadas pela queima da vegetação permanecem em suspensão por vários dias e são transportadas pelas correntes de vento por longas distâncias, quadro que se agrava pela falta de chuvas e pela forte estiagem que atinge a bacia amazônica.

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Recomendações da Fiocruz e monitoramento do Ministério da Saúde no Amazonas

Diante do índice perigoso de contaminação atmosférica em Manaus, especialistas da Fiocruz e o sistema de saúde da plataforma IQAir emitiram orientações diretas de proteção individual para reduzir a inalação de fumaça tóxica pela população, com foco redobrado em grupos vulneráveis como gestantes, idosos e crianças. A orientação para moradores que apresentarem sintomas de falta de ar ou agravamento de quadros respiratórios é procurar atendimento nas unidades da rede pública monitoradas pelas autoridades sanitárias. Para quem permanece na cidade, as medidas de prevenção imediata incluem:

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  • Evitar a realização de qualquer exercício físico ou atividade intensa ao ar livre.
  • Manter portas, janelas e frestas das residências fechadas para bloquear a entrada do ar externo contaminado.
  • Utilizar máscaras de proteção respiratória adequadas sempre que houver necessidade de sair às ruas.
  • Acionar purificadores de ar em ambientes internos, quando o equipamento estiver disponível.

Na rede hospitalar, o Ministério da Saúde e a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), grupo de resposta rápida do governo federal para emergências sanitárias, acompanham o impacto direto das queimadas sobre o atendimento médico. O levantamento técnico da pasta identificou que 12 municípios do Amazonas necessitam de suporte direto nos serviços de saúde devido à fumaça. As equipes federais também monitoram o consumo e o fornecimento de oxigênio medicinal tanto nas unidades de pronto atendimento municipais e estaduais quanto nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), unidades gestoras descentralizadas responsáveis pela atenção básica e logística de saúde em terras indígenas.

Fumaça impede voos do Ibama e suspende aulas em Manaus

A baixa visibilidade provocada pela cortina de fumaça na manhã de 17 de outubro de 2026 afetou diretamente as operações de combate ao fogo. Aeronaves mobilizadas para apagar incêndios florestais ficaram impedidas de decolar a partir dos aeroportos de Manaus. Em nota oficial, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) confirmou a paralisação temporária das saídas aéreas, mas informou que “a expectativa é de melhora ao longo do dia, possibilitando a retomada dos voos”.

Na área da educação, o avanço da poluição levou a Prefeitura de Manaus e a Universidade do Estado do Amazonas a suspenderem as aulas presenciais na sexta-feira (16), momento em que a capital já liderava o ranking brasileiro de poluição entre as capitais com 167 pontos no índice da IQAir às 6h. A interrupção das atividades escolares para proteger alunos e professores já vinha ocorrendo de maneira recorrente ao longo do mês, com suspensões registradas também nos dias 9, 13 e 14 de outubro.

Operação federal e investigação de incêndios criminosos no Amazonas

O governo federal apura a suspeita de uma ação criminosa coordenada por trás da multiplicação das queimadas no estado, em formato semelhante ao episódio conhecido como Dia do Fogo. As investigações reúnem agentes da Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Civil do Amazonas e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), sob acompanhamento local do vice-governador do Amazonas, Serafim Corrêa, e do secretário de Segurança Pública do Amazonas, Coronel Paiva. Até o momento, as forças de segurança instauraram ao menos 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs), que são registros formais de infrações penais de menor potencial ofensivo, além de procedimentos investigatórios criminais e da apuração de mais de cem denúncias anônimas recebidas pelo serviço telefônico Disque 181.

Em declaração feita em Brasília na sexta-feira (16), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que os focos na região têm origem humana e que as equipes de inteligência já mapearam os responsáveis. “Vamos iniciar uma ação forte de investigação para identificar quem está operando esse conjunto enorme de incêndios e verificar se há uma organização por trás disso. E vamos punir aqueles que forem identificados de forma exemplar para que não fique na região uma sensação de impunidade”, declarou o ministro. A legislação prevê multa administrativa de R$ 5 mil a R$ 10 mil por hectare ou fração para quem provoca incêndios florestais.

Capobianco também adiantou o andamento das diligências policiais na região amazônica. “Deveremos ter em breve notícias importantes já de prisão, porque vários desses criminosos foram identificados. Nós estamos em campo e a ideia é que nós possamos combater essa sensação de impunidade para que as pessoas de fato percebam o risco de usar criminosamente o incêndio”, afirmou. Apesar do anúncio de identificação dos envolvidos, o governo federal ainda não divulgou o número exato de suspeitos mapeados nem a data em que os mandados de prisão serão cumpridos pelas forças policiais.

Em paralelo às investigações, a força-tarefa de combate às chamas no Amazonas conta com a mobilização federal de 290 brigadistas, somados a 40 profissionais de reforço, e uma frota de 11 aeronaves, que inclui helicópteros, seis aviões modelo Air Tractor do Ibama e cargueiros KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB) com capacidade de lançamento de 12 mil litros de água por saída. O governo estadual também dispõe de R$ 45 milhões contratados junto ao Fundo Amazônia para o projeto ProAmazon, destinado a reforçar a estrutura de combate a incêndios do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. A escalada da crise ambiental ao longo da última semana soma os seguintes registros oficiais:

  • Sábado (10): Governo do Amazonas decreta situação de emergência em 36 municípios, data em que o estado atinge o pico de 494 focos ativos de incêndio.
  • Quarta-feira (14): Ministro João Paulo Capobianco realiza reunião em Manaus com autoridades estaduais e anuncia a abertura dos 120 procedimentos investigatórios com participação da Abin.
  • Sexta-feira (16): Estado contabiliza 188 focos ativos de incêndio, aulas são suspensas na capital e governo federal anuncia em Brasília a identificação de suspeitos.
Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração