Protestos na França contra custo de vida reúnem até 800 mil pessoas e terminam com 60 policiais feridos

Manifestação na França, Soldados - Adnan Farzat/NurPhoto via Getty Images

Manifestação na França, Soldados - Adnan Farzat/NurPhoto via Getty Images

Cerca de 550 mil pessoas saíram às ruas da França neste sábado (17) em protestos contra o alto custo de vida e a precarização do ensino e dos serviços públicos, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Os confrontos entre manifestantes e forças de segurança terminaram com aproximadamente 400 detidos em todo o país e 60 policiais feridos, dos quais dois foram levados ao hospital inconscientes.

Enquanto o Ministério do Interior contabilizou 550 mil participantes distribuídos em 110 atos declarados pelo território francês — sendo 110 mil apenas em Paris —, os organizadores da mobilização, que reúnem a central sindical CGT, entidades estudantis e integrantes do movimento dos coletes amarelos, estimaram o público total em 800 mil pessoas. De acordo com Laurent Nuñez, a maioria dos cerca de 400 detidos é composta por adultos sem vínculo com o movimento estudantil, e os ataques a prédios públicos foram provocados por grupos de extrema esquerda e por pessoas que promoveram saques em Paris, Rouen, Nantes, Toulouse e Marselha.

Invasões a prefeituras na França e impactos em Paris

Em Paris, manifestantes encapuzados lançaram pedras e fogos de artifício na Praça da República, além de incendiarem carros, bicicletas, lixeiras e um quiosque de jornais. A polícia utilizou gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar os grupos. Os atos alteraram o funcionamento do transporte e do turismo na capital francesa: a operadora RATP suspendeu temporariamente a circulação em mais de 10 linhas de metrô e fechou estações, o Museu do Louvre limitou a entrada de visitantes e o Museu de l’Orangerie passou a exigir reserva prévia.

No interior da França, prefeituras e sedes de governo regional (chamadas de préfectures) foram alvo de invasões ou tentativas de invasão em Angers, Marselha, Bordeaux, Lille e Calais. Em Angers, onde 10 mil pessoas marcharam, um grupo de 300 a 400 manifestantes invadiu a prefeitura e a sede do governo regional de Maine-et-Loire, local em que um princípio de incêndio na sala de correspondência foi apagado com um extintor por um funcionário. “A entrada da prefeitura foi alvo. Esses atos são inaceitáveis e eu os condeno com a maior firmeza”, declarou o prefeito de Angers, Christophe Béchu, em comunicado.

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Em Bordeaux, a residência da representante do Estado foi invadida e saqueada, o que exigiu a intervenção da RAID, unidade de elite da polícia nacional francesa. Na cidade de Lyon, um posto de turismo foi incendiado, enquanto em Marselha a fachada da prefeitura sofreu atos de vandalismo e o governo enviou reforços policiais.

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Intervenção policial às 16h30 no protesto de Toulouse

Em Toulouse, a manifestação reuniu 32 mil pessoas segundo o governo regional, ou 80 mil conforme a contagem dos sindicatos, com registro de barricadas e isolamento da Praça do Capitólio após um princípio de incêndio.

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  • 16h30 (horário local) — Forças de segurança tentam interromper a passeata em Toulouse; o confronto deixa quatro dirigentes sindicais feridas, que precisam ser retiradas do local.

Após a ação policial em Toulouse, o secretário-geral da união departamental da CGT no Alto Garona, Cédric Caubère, criticou o comando da operação. “Responsabilizamos diretamente o prefeito regional e seu chefe de gabinete, assim como o primeiro-ministro, pelas ordens dadas à polícia”, disse. Já o prefeito de Toulouse, Jean-Luc Moudenc, acusou na rede social X o partido França Insubmissa (LFI) e aliados na CGT de darem cobertura a depredadores.

Da origem dos coletes amarelos em 2018 aos atos de 17 de outubro de 2026

A atual onda de insatisfação soma-se a mobilizações anteriores na França e na Europa. Em 17 de outubro de 2026, também ocorreram marchas contra o custo de vida e da moradia em Lisboa, além de protestos com confrontos policiais em Milão, Bolonha e Bruxelas. Desde o início dos bloqueios estudantis franceses em setembro até a véspera dos atos nacionais, a polícia já havia registrado mais de 6,8 mil detenções no país, sendo 86% de menores de idade, e a corregedoria da polícia (IGPN, órgão que fiscaliza os agentes) investiga entre 24 e 36 denúncias de violência policial.

  • 2018 — Surge na França o movimento dos coletes amarelos, inicialmente contra o aumento de impostos sobre combustíveis no primeiro mandato de Emmanuel Macron.
  • Setembro de 2026 — Estudantes do ensino médio da periferia norte de Paris iniciam protestos contra a falta de professores e a precariedade das escolas, pauta que depois incorpora o poder de compra e o preço dos combustíveis.
  • 5 de outubro de 2026 — Um adolescente de 15 anos perde uma das mãos na explosão de uma granada policial durante bloqueio escolar em Lens, levando à suspensão temporária de granadas de efeito moral em atos estudantis.
  • 16 de outubro de 2026 — O presidente Emmanuel Macron pede calma na véspera das marchas, e o ministro Laurent Nuñez autoriza a retomada do uso de granadas de efeito moral em caso de violência urbana grave.
  • 17 de outubro de 2026 — Os 110 atos realizados na França reúnem entre 550 mil e 800 mil pessoas e terminam com cerca de 400 detidos e 60 policiais feridos.

Diante das depredações, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, acionou uma célula interministerial de crise no Ministério do Interior e trocou acusações com o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que responsabilizou o comando policial pelo caos em Paris. “As manifestações pacíficas têm todo o seu lugar em nossa República. Os incêndios, os saques e os ataques não têm nenhum”, afirmou Lecornu, em tradução livre. O presidente Emmanuel Macron também condenou a violência: “Vamos todos fazer bloco contra os semeadores do caos, que buscam apenas derrubar nossas instituições e impedir que aqueles que expressam pacificamente suas reivindicações o façam”, declarou no X, acrescentando que os autores de ataques e saques a prédios públicos serão identificados, processados e punidos.

Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
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