Relatórios prospectivos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) fundamentaram a decisão do Ministério de Minas e Energia (MME) de descartar a retomada do horário de verão no ciclo entre o fim de 2026 e o início de 2027. Com o parecer técnico que atesta a segurança do abastecimento nas condições vigentes, os relógios permanecem sem alteração em todo o país, mantendo em vigor o Decreto nº 9.772, de 25 de abril de 2019, que suspendeu a mudança horária nacional.
A possibilidade de adiantar os ponteiros em uma hora havia entrado nas discussões do setor energético diante da demanda por maior flexibilidade operacional no começo da noite. Na transição do fim da tarde para o período noturno, o sistema enfrenta a chamada rampa de carga, intervalo em que a operação precisa compensar rapidamente a queda da geração solar e o aumento simultâneo do consumo residencial e comercial.
Embora análises preliminares apontassem que o adiantamento oficial dos relógios pudesse aliviar parte dessa pressão imediata no crepúsculo, os levantamentos mais recentes do ONS demonstraram que o suprimento está garantido sem a medida. Em nota oficial divulgada em 21 de setembro de 2026, a pasta reiterou que os estudos avaliados pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) “não indicam a pertinência da adoção da medida para o próximo período seco e de pico de carga”.
Avaliação do Tribunal de Contas da União e metas da agenda de 2026
O debate técnico ganhou impulso em novembro de 2025, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou uma análise antecipada sobre a conveniência de retomar o mecanismo. Na ocasião, o órgão de controle externo ressaltou que, mesmo sem mexer nos fusos, o setor precisava ampliar a disponibilidade de fontes despacháveis, que são usinas capazes de gerar energia sob comando imediato para cobrir os horários de ponta.
Para organizar essas medidas preventivas, o CMSE aprovou em sua 315ª reunião, realizada em 11 de fevereiro de 2026, a criação da Agenda Estratégica Eletroenergética 2026. Coordenado pela Secretaria Nacional de Energia Elétrica, o plano reuniu inicialmente 27 frentes de trabalho voltadas ao equilíbrio entre os picos de demanda, o controle da carga mínima e a segurança das linhas de transmissão.
Saiba mais: Horário de verão não volta em 2026 e Ministério de Minas e Energia mantém relógios sem alteração no país
A análise sobre a volta do horário de verão figurava como a Ação 10 desse cronograma, ao lado de diretrizes para ampliar a prontidão de termelétricas, estudar o despacho antecipado de usinas e importar eletricidade de países vizinhos. No relatório de acompanhamento do segundo trimestre, assinado em 31 de agosto de 2026, o ministério deu a Ação 10 como 100% concluída e arquivou a proposta por considerar que a troca de horário não representa uma solução estrutural para os requisitos de potência da rede.
Até o encerramento do segundo trimestre, o balanço oficial registrava a conclusão de 11 das 27 metas originais, atingindo 65% de execução global. Em agosto, o comitê acrescentou a 28ª frente técnica ao documento, direcionada especificamente à mitigação dos efeitos climáticos provocados pelo fenômeno El Niño no sistema interligado até o mês de dezembro.
Medidas operacionais, usinas térmicas e leilões de baterias
Além de encerrar a pauta sobre os relógios, o governo federal avançou em mecanismos de suporte físico à rede elétrica ao longo do ano. Entre as ações de geração, armazenamento e contratação previstas ou já executadas no plano estão:
Veja também: Ministério de Minas e Energia veta horário de verão para 2026
- Realização dos leilões de reserva de capacidade em março para empreendimentos novos e existentes.
- Prorrogação até abril de 2027 das diretrizes que permitem às termelétricas apresentarem ofertas adicionais de suporte de potência.
- Extensão até abril de 2027 da regra de oferta para usinas do tipo merchant, que são termelétricas operadas sem contratos de comercialização de longo prazo.
- Geração suplementar de 40.926 MWh pelas térmicas da região Sul e importação de 65.095 MWh de energia externa entre março e abril para preservar os reservatórios das hidrelétricas, operações suspensas após o ONS apontar que não havia necessidade de mantê-las.
- Transferência para o quarto trimestre da abertura de contratação de sistemas de armazenamento em baterias, com dois certames agendados para dezembro.
Outras etapas do planejamento tiveram os prazos ajustados no decorrer do segundo semestre. O comitê reprogramou para setembro a entrega do plano que amplia a geração das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio durante o período de estiagem, além de alocar no terceiro trimestre a divulgação das normas para antecipar contratos resultantes dos leilões de reserva.
Também entrou no cronograma de setembro a conclusão de um estudo conduzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) sobre soluções definitivas de suprimento de gás natural para abastecer o parque termelétrico da região Norte. Na frente de gestão do consumo, a agenda governamental estabelece o fortalecimento dos programas de resposta da demanda para grandes consumidores, a redistribuição de excedentes na rede e a criação de incentivos para que pequenas centrais hidrelétricas e térmicas ajustem sua produção às exigências do sistema.
