O Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), projeta que a interrupção de reajustes reais em benefícios sociais e previdenciários pode reduzir entre 6,8% e 10,8% a renda agregada de cerca de 4 mil municípios do interior brasileiro até 2029. Os dados constam na Nota de Política Econômica nº 90, repercutida em 17 de outubro de 2026.
Intitulado “Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”, o levantamento é assinado pelos pesquisadores Luiza Nassif Pires, Clara Zanon Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo. O documento avalia o peso das aposentadorias e pensões, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC, auxílio pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) nos municípios fora das capitais e de suas regiões metropolitanas (MFCRM). “Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, afirmou Luiza Nassif Pires, economista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e codiretora do Made-USP.
Como o congelamento dos benefícios sociais afeta o comércio de 4 mil municípios?
Dos 5.569 municípios brasileiros analisados pela equipe da USP, aproximadamente 4 mil estão fora das regiões metropolitanas, onde o peso das transferências públicas na economia chega ao dobro do registrado nos grandes centros urbanos. No Ceará, citado como exemplo no estudo, os benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada da capital e região metropolitana, mas alcançam 40% nas cidades do interior. Além disso, para famílias com renda por pessoa de até 1,5 salário mínimo, esses pagamentos representam até 50% do orçamento doméstico.
Cerca de um terço da perda estimada na renda agregada dessas localidades decorre do efeito indireto sobre o consumo e a atividade econômica, atingindo comerciantes, empresas e famílias que não recebem diretamente os auxílios. “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, explicou Luiza Nassif Pires. Segundo a pesquisadora, a trava nos reajustes atinge toda a cadeia produtiva da cidade: “Isso provocaria uma reação em cadeia na atividade econômica, afetando inclusive famílias que não dependem diretamente do socorro público”.
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Retração da renda agregada do interior por estado entre 2027 e 2029
A simulação do Made-USP indica que a perda de renda agregada no triênio de 2027 a 2029 varia conforme a dependência de cada unidade da Federação em relação aos pagamentos federais. O levantamento não apresenta um percentual específico para o estado do Paraná, o que impede atribuir aos municípios paranaenses uma taxa de retração equivalente à calculada para os demais estados. Nos locais com recorte divulgado, as retrações projetadas para a renda total do interior são as seguintes:
- Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: queda de 17% a 18% na renda total do interior;
- Amazonas, Sergipe e Pernambuco: perda em torno de 15% na renda agregada do interior;
- Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia: retração entre 10% e 13% na renda agregada do interior;
- São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina: perda estimada de 6,5% na renda agregada do interior.
Comparação entre os períodos de 2018 a 2022 e de 2022 a 2025 mostra impacto na pobreza
Para projetar o cenário de 2027 a 2029, o estudo tomou como referência histórica o período de 2022 a 2025, marcado pelo crescimento real das aposentadorias e do BPC atrelados à valorização do salário mínimo, contrapondo-o ao intervalo de 2018 e 2019 a 2022, quando não houve ganhos reais para o piso nacional. As simulações demonstram que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões diretamente para a extrema pobreza.
“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, declarou a codiretora do Made-USP. Em números absolutos, os maiores aumentos de pessoas na pobreza nesse cenário simulado ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas), em São Paulo (até 263 mil) e em Minas Gerais (até 251 mil), seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, que registrariam acréscimo superior a 200 mil pessoas cada.
Dados da Nota de Política Econômica nº 90 do Made-USP
Os resultados do estudo integram o debate sobre a trajetória das despesas públicas federais e a proteção das economias municipais. “Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, concluiu Luiza Nassif Pires. Os parâmetros técnicos da pesquisa estão resumidos abaixo:
- Documento oficial: Nota de Política Econômica nº 90;
- Instituição responsável: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, em São Paulo (SP);
- Autores: Luiza Nassif Pires, Clara Zanon Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo;
- Universo pesquisado: 5.569 municípios brasileiros, com foco em cerca de 4 mil cidades fora de regiões metropolitanas;
- Horizonte da projeção de renda: triênio de 2027 a 2029.
