Cientistas detalham superaglomerado Vela a 800 milhões de anos-luz

central da Via Láctea

central da Via Láctea - Foto: ALMA(ESO/NAOJ/NRAO)/S. Longmore et al. Background: ESO/D. Minniti et al

Milhares de galáxias formam uma estrutura colossal posicionada atrás do disco da Via Láctea. Equipes internacionais de astronomia divulgaram o primeiro levantamento detalhado do superaglomerado Vela, situado a uma distância aproximada de 800 milhões de anos-luz da Terra.

Os dados do levantamento, publicados em formato de pré-impressão em 10 de março de 2026, colocam o objeto entre as maiores concentrações de matéria do universo próximo. Em volume e massa, a formação possui porte equivalente ao do já conhecido superaglomerado de Shapley.

Poeira e estrelas da Via Láctea bloqueiam até 20% do céu visível

A observação direta dessa região espacial sempre enfrentou o obstáculo natural imposto pelo plano galáctico da própria Via Láctea. Bilhões de estrelas e densas nuvens de poeira encobrem até 20% da abóbada celeste na faixa que os cientistas classificam como zona de evasão.

Por décadas, anomalias no deslocamento de galáxias vizinhas já apontavam a ação de um campo gravitacional intenso vindo daquela direção. Apesar dos indícios indiretos na vizinhança cósmica, o superaglomerado Vela seguia fora do alcance dos instrumentos ópticos convencionais.

  • Composição mínima de 20 aglomerados de galáxias na mesma estrutura.
  • Presença de centenas ou milhares de galáxias dentro de cada aglomerado individual.
  • Extensão linear estimada em cerca de 300 milhões de anos-luz.
  • Massa total calculada em aproximadamente 30 milhões de bilhões de sóis.

Telescópio MeerKAT e catálogo CosmicFlows viabilizaram a leitura

Para atravessar o bloqueio visual, a pesquisa reuniu mais de 65 mil medições de distância galáctica presentes no catálogo CosmicFlows. O banco de dados recebeu o reforço de mais de 8 mil novos registros de redshifts (desvios para o vermelho, que indicam a distância e a velocidade de afastamento de objetos celestes) coletados nas bordas do plano da Via Láctea.

A operação do radiotelescópio MeerKAT, instalado na África do Sul, garantiu a captação de nuvens de gás hidrogênio em galáxias onde a luz visível não penetra. O levantamento também incorporou observações feitas pelo Southern African Large Telescope (SALT).

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Ao cruzar os valores de redshifts com as chamadas velocidades peculiares das galáxias, o método híbrido reconstruiu o mapa da distribuição de massa total da região. O cálculo incluiu a parcela correspondente à matéria escura invisível e contornou as barreiras históricas de observação astronômica.

Centro da Via Láctea, uma galáxia com estrelas e poeira espacial – sripfoto/ Shutterstock.com

Fusão de dois núcleos e gravidade superior à do sistema Laniakea

A arquitetura interna do superaglomerado Vela exibe dois núcleos principais de alta densidade que se deslocam um na direção do outro. Esse movimento mútuo mantém a integridade física de todo o conjunto galáctico.

O puxão gravitacional exercido pelo sistema supera a força do superaglomerado Laniakea, estrutura da qual fazem parte o Grupo Local e a Via Láctea. O alcance do Vela altera o fluxo de matéria cósmica por centenas de milhões de anos-luz ao seu redor.

Entre os grupos de pesquisa da África do Sul, a estrutura ganhou o nome de Vela-Banzi. O termo vem do idioma isiXhosa, tem o significado de “revelar amplamente” e faz referência direta ao trabalho científico conduzido no país para expor o conjunto oculto.

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Grupo liderado por Renée Kraan-Korteweg aponta ajustes na cosmologia

A identificação precisa dessa massa altera o quadro sobre a distribuição de matéria em larga escala e esclarece a origem dos puxões gravitacionais registrados naquela faixa do espaço. Os dados obtidos pelo levantamento indicam a necessidade de ajustes nos modelos cosmológicos atuais sobre o universo local.

O artigo reúne especialistas da França, da Austrália, da Itália e da Universidade da Cidade do Cabo (UCT). À frente das buscas há mais de dez anos, a astrônoma da UCT Renée Kraan-Korteweg manifestou satisfação por comprovar uma hipótese trabalhada há décadas pela comunidade astronômica.

Novas etapas de observação com instrumentos de maior potência devem detalhar outras áreas do superaglomerado Vela que permanecem parcialmente cobertas pelo disco galáctico.

Luís Pereira: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.