Até 3 milhões de pessoas habitaram uma vasta rede de centros cerimoniais e urbanos no sudoeste da Amazônia ao longo de mais de mil anos, no período compreendido entre 600 a.C. e 850 d.C. Os dados fazem parte de um levantamento divulgado no fim de julho de 2026 que identificou centenas de construções ocultas sob a vegetação densa da floresta. A dimensão territorial e demográfica dessa sociedade pré-colombiana se equipara à de grandes impérios da antiguidade clássica da Europa, demonstrando a presença de aglomerados populacionais complexos na região.
Uma equipe internacional de pesquisadores utilizou a tecnologia de escaneamento aéreo a laser LiDAR (detecção e telemetria por luz, sistema que mapeia o relevo através das árvores) para revelar a topografia do terreno sem remover a cobertura florestal. Os números apurados mostram que a ocupação humana na bacia hidrográfica superava em larga escala as projeções científicas tradicionais. O resultado altera a compreensão histórica sobre como os povos originários se organizavam antes da chegada dos europeus no século XVI e descarta a tese de que o bioma constituía um vazio demográfico.
Denominada pelos cientistas como cultura Aquiry, essa sociedade modificou a paisagem amazônica de maneira contínua durante 15 séculos. As intervenções documentadas pelos pesquisadores abrangeram a construção de estruturas monumentais de terra batida e a abertura de estradas planejadas para conectar diferentes núcleos. Os habitantes também desenvolveram sistemas agrícolas avançados e realizaram o manejo direcionado de espécies vegetais nativas para sustentar a alta concentração de moradores.
Mapeamento localiza 432 estruturas em menos de 3% da bacia amazônica
O recorte geográfico inspecionado pelos equipamentos aéreos representa menos de 3% da superfície total da Grande Amazônia, concentrando-se na porção sudoeste do bioma. Mesmo restrito a essa fração do território, o rastreamento localizou 432 aterros e geoglifos (grandes desenhos e formas geométricas escavados no solo), sendo que 396 dessas estruturas eram inéditas para os registros arqueológicos. A partir do cruzamento dessas descobertas com bases de dados prévias, os autores calculam a existência de 24 mil a 30 mil construções semelhantes distribuídas por toda a zona de influência daquela população.
A área total ocupada por esses grupos alcançava aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados, extensão superior à de países europeus atuais como Portugal e Grécia. Dentro desse perímetro, o pico populacional ocorreu durante os primeiros séculos da era cristã, momento em que a região manteve uma população estimada entre 1,25 milhão e 3 milhões de moradores.
As edificações identificadas no solo seguem traçados geométricos exatos, compostos por quadrados e círculos interligados por estradas retas que cortavam o interior da mata. De acordo com a análise arqueológica, os recintos iam além da função habitacional e operavam como núcleos da vida comunitária. Os locais recebiam assembleias políticas, celebrações religiosas e grandes encontros sociais que integravam a população.
O nome escolhido para identificar a cultura Aquiry deriva do termo indígena original que designa o rio Acre, bacia hidrográfica central para o abastecimento e a circulação na área mapeada. Os responsáveis pelo estudo esclarecem que o modelo político adotado não correspondia a um império centralizado sob o comando de um único governante. A organização funcionava como uma rede descentralizada de cidades e aldeias que partilhavam tradições, práticas construtivas e modos de vida em toda a região hidrográfica.
As evidências colhidas em campo também refutam a ideia de que a floresta permaneceu intocada pela ação humana ao longo dos milênios, comprovando a aplicação de técnicas combinadas de agricultura e silvicultura (cultivo e manejo de árvores florestais) voltadas à produção de alimentos:
- Plantio regular de culturas ricas em carboidratos, com foco na mandioca e no milho.
- Cultivo sistemático de abóbora para complementar a alimentação diária das comunidades.
- Administração planejada de árvores de valor nutricional e econômico, como a castanheira-do-pará e diversas espécies frutíferas.
Segundo os autores da investigação, a domesticação de plantas em larga escala provocou alterações duradouras na composição botânica da floresta e interferiu na dinâmica histórica do ciclo de carbono local. Por causa dessa transformação ecológica antiga, a equipe científica orienta que futuras modelagens sobre mudanças climáticas passem a incluir os dados de ocupação pré-colombiana para avaliar o comportamento do bioma diante do aquecimento global.
Sensor acoplado a aviões identifica ruínas sem derrubar árvores
A identificação das estruturas subterrâneas e superficiais dependeu diretamente da aplicação dos sensores LiDAR acoplados a aeronaves de pesquisa. O aparelho emite feixes contínuos de laser capazes de atravessar as pequenas aberturas entre a folhagem das copas, registrando a distância até o chão para compor uma maquete digital em três dimensões da superfície terrestre. Esse método permite mapear muralhas, valas e estradas antigas com precisão milimétrica sem a necessidade de desmatar ou escavar previamente o ecossistema.
Coordenador principal do levantamento, o antropólogo e arqueólogo Martti Pärssinen, pesquisador da Universidade de Helsinque, na Finlândia, afirmou que o volume de dados coletados alterou as bases de estudo sobre a demografia antiga da região. As evidências materiais substituíram as hipóteses de baixa densidade populacional por um quadro de ocupação estruturada e numerosa em plena floresta tropical.
Ao avaliar as estatísticas consolidadas do mapeamento aéreo, o coordenador registrou surpresa diante da quantidade de monumentos preservados sob a cobertura vegetal. Martti Pärssinen declarou que o total de geoglifos e aterros ocultos na floresta pode chegar a um número até dez vezes maior do que as estimativas mais altas que ele próprio havia formulado em pesquisas anteriores.
Para o arqueólogo da Universidade de Helsinque, a presença de centenas de construções concentradas em menos de 3% do bioma aponta que áreas vizinhas ainda não escaneadas guardam vestígios de porte semelhante. O pesquisador detalhou que a escala das obras de engenharia confirma que outras zonas da floresta amazônica também sustentaram populações numerosas e passaram por modificações ambientais intensas, em oposição direta às teorias clássicas de isolamento e escassez de habitantes.
Na reconstituição histórica apresentada pelo cientista finlandês, os grandes recintos cerimoniais ocupavam a posição central de extensos assentamentos interligados. Ao redor dessas praças geométricas, erguiam-se edificações estruturadas em madeira, ladeadas por lavouras ativas e por setores de floresta manejada que as famílias administravam de maneira contínua ao longo de várias gerações.
Esses centros arquitetônicos registravam intensa movimentação comunitária em datas determinadas pelo calendário das populações nativas. Segundo a descrição de Martti Pärssinen, os monumentos reuniam moradores de diferentes aldeias para a realização de debates públicos, cerimônias sagradas, apresentações de dança e música, além de competições esportivas que reforçavam os laços entre as comunidades.
Apesar do detalhamento inédito sobre a engenharia e a demografia da cultura Aquiry, a investigação mantém questões em aberto sobre a história social daqueles grupos. Os cientistas ainda desconhecem quais troncos linguísticos eram utilizados pelos habitantes, de que forma construíam sua identidade coletiva e quais eventos sociais, epidemiológicos ou climáticos levaram ao desaparecimento dessa rede urbana por volta de 850 d.C., temas que guiarão as próximas etapas de escavação arqueológica em solo amazônico.
