A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, agência americana de monitoramento climático) elevou para 83% a probabilidade de consolidação de um Super El Niño entre outubro e dezembro de 2026. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, já provoca alterações severas no regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do território nacional e tem 100% de chance de permanecer ativo até o início de 2027, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
De acordo com o boletim diagnóstico divulgado pela NOAA em 8 de outubro de 2026, as anomalias na temperatura da superfície do mar já ultrapassam a marca de 4°C acima da média em porções do Pacífico Equatorial Leste. Os cientistas apontam que a força do evento pode configurar o episódio mais intenso dos últimos 150 anos, superando as marcas históricas registradas desde o início das medições regulares em 1950.
Velocidade de formação no Pacífico supera marcas históricas de 1982 e 1997
A principal diferença do evento de 2026 em relação a episódios anteriores de grande magnitude, como os de 1982, 1997, 2015 e 2023, está na rapidez com que o oceano aqueceu. Enquanto nos anos passados a anomalia de +2°C só era atingida nos últimos meses do calendário, em 2026 esse patamar foi alcançado ainda na metade do ano, após a confirmação oficial do fenômeno em junho.
O monitoramento divulgado pelo Inmet na terça-feira (13) confirma essa aceleração nas diferentes faixas de medição do oceano:
- Região Niño 3.4 (área central do Pacífico Equatorial usada como referência principal): registrou anomalia média de 2,08°C em setembro de 2026, o segundo maior valor para o mês desde 1950, atrás apenas dos 2,15°C de setembro de 1997, e subiu para 2,4°C na medição semanal de outubro.
- Região Niño 1+2 (faixa costeira da América do Sul): atingiu índice de +3,9°C no consolidado da NOAA e chegou a picos de 4,5°C no fim de setembro, marca apenas 0,1°C abaixo do recorde absoluto observado em 1983.
- Subsuperfície do Pacífico: águas mais profundas entre as longitudes 180° e 100° Oeste mantêm temperaturas mais de 10°C acima da média, o que sustenta a alimentação de calor para os meses de novembro e dezembro.
Previsão do Inmet divide o país entre cheias no Sul e calor de 40°C no Centro-Norte
O Painel El Niño 2026-2027 — documento elaborado em conjunto por Inmet, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) — detalha que o trimestre de outubro a dezembro concentra o ápice das alterações atmosféricas.
No Sul do país, os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná permanecem sob alerta para volumes de chuva muito acima da média climatológica. Em território gaúcho, os primeiros reflexos surgiram ainda em 22 de julho de 2026, quando precipitações equivalentes ao dobro da média mensal provocaram a elevação de rios acima da calha em vales e municípios do centro e do norte do estado. Para o bimestre de novembro e dezembro, projeções meteorológicas apontam que os acumulados mensais podem atingir entre 500 mm e 700 mm em localidades do Rio Grande do Sul, além de chuvas expressivas em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e sudeste de Minas Gerais.
Na faixa centro-norte, o bloqueio atmosférico gerado pelo aquecimento do Pacífico atua na direção oposta. Estados do Norte, do Nordeste e de grande parte do Centro-Oeste enfrentam redução das precipitações, baixa umidade do solo e risco elevado de incêndios florestais. Em Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e no centro-norte de Mato Grosso do Sul, a previsão para outubro inclui sequências de dias com termômetros em 40°C ou mais, o que atrasa o plantio da safra de verão de soja e milho e afeta a florada do café arábica em Minas Gerais, com retorno regular das chuvas previsto apenas a partir de novembro.
Risco de vendavais, granizo e comparação com as enchentes de 2024
Além do volume acumulado de água nos rios e do encharcamento do solo que prejudica a colheita do trigo no Sul, a circulação de ventos associada ao Super El Niño aumenta a frequência de tempestades severas de curta duração. A atmosfera mais aquecida e úmida favorece a queda de granizo, vendavais e a formação de fenômenos localizados como microexplosões atmosféricas e tornados.
Os meteorologistas esclarecem, contudo, que a intensidade recorde no Oceano Pacífico não determina de forma automática a repetição exata das enchentes registradas no Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024. Tragédias hidrológicas de grande escala dependem da combinação de fatores de curto prazo, como a posição de frentes frias e a temperatura do Oceano Atlântico Sul. O próximo boletim oficial de acompanhamento da NOAA para atualizar a evolução do pico do fenômeno está agendado para 12 de novembro de 2026.
