Índice chinês Star50 cai quase 40% com freio global na IA

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Bandeira da China e EUA, IA Inteligencia Artificial Foto: Bandeira da China e EUA, IA Inteligencia Artificial - QQMinh88/shutterstock.com

O índice chinês Star50, focado em empresas de tecnologia de forma similar ao norte-americano Nasdaq, acumulou queda de quase 40% no segundo semestre de 2026 e registrou o pior desempenho entre os principais indicadores do setor no mundo. O recuo reflete o enfraquecimento do entusiasmo global em torno da inteligência artificial e ameaça a estratégia do governo de Pequim de utilizar o mercado de capitais para financiar o avanço tecnológico doméstico.

A desvalorização atinge diretamente a capacidade de captação das companhias chinesas, que dependem da emissão de ações devido aos custos mais altos para lançar títulos de dívida no exterior. “Seria muito mais difícil para a China alcançar suas ambições em inteligência artificial se as ações de tecnologia continuassem sob pressão por um período prolongado. Se a fraqueza durar mais de seis meses, será difícil captar recursos e isso também indicará que o mercado não está impressionado com o progresso tecnológico alcançado”, disse Leonid Mironov, gestor de portfólio da Gavekal Capital.

Números da queda do Star50 e do setor de tecnologia na China

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Foto: inteligência artificial IA – Summit Art Creations/shutterstock.com

O movimento de venda de papéis no segundo semestre de 2026 espalhou-se por diferentes segmentos de hardware, semicondutores e robótica listados nas bolsas chinesas, além de provocar a retirada de capital externo e perdas em empresas recém-listadas.

  • Índice Star50: retração de quase 40% no segundo semestre de 2026, o pior resultado global entre os principais indicadores de tecnologia.
  • Índice ChiNext: queda acumulada de 36% no mesmo semestre no indicador igualmente concentrado em companhias de hardware na China.
  • Fabricantes de chips: a MetaX Integrated Circuits Shanghai Co. e a Moore Threads Technology Co. perderam cerca de 50% de seu valor de mercado no semestre.
  • Estreias recentes na bolsa: a fabricante de chips de memória CXMT Corp. (ChangXin Memory Technologies), listada em julho de 2026, recuou 27% desde o pico pós-abertura, enquanto a empresa de robótica Yushu Technology Co. caiu cerca de 50% em relação à máxima de agosto de 2026.
  • Fluxo estrangeiro: saída líquida de cerca de 90 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 13,5 bilhões) no terceiro trimestre de 2026 pelo canal de negociação com Hong Kong.

Saída de US$ 13,5 bilhões e impacto nos IPOs da China em 2026

A retirada líquida de cerca de 90 bilhões de yuans por investidores internacionais no terceiro trimestre de 2026 foi a maior registrada em um ano pelo mecanismo que conecta a bolsa de Hong Kong ao mercado continental chinês. Esse volume reverteu mais da metade dos fluxos financeiros que haviam ingressado no país entre abril e junho de 2026. Os analistas Jason Liao e Marvin Chen avaliaram o movimento das chamadas ações A, que são os papéis de empresas chinesas negociados no mercado doméstico. “A liquidação global de ações de hardware para inteligência artificial, que atingiu tanto o Nasdaq quanto a Coreia, afetou mais fortemente as ações A da China, depois que investidores estrangeiros concentraram seus investimentos no setor no segundo trimestre”, afirmaram.

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O esfriamento ocorre em um ano de forte atividade de aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês para ofertas públicas iniciais) no mercado interno chinês, que somaram US$ 37 bilhões em 2026, o maior patamar em três anos, sendo que as empresas de tecnologia responderam por mais de um terço desse montante. Como as startups e grandes companhias chinesas de inteligência artificial utilizam o mercado acionário como fonte padrão de financiamento no lugar do endividamento bancário ou da emissão de títulos globais, a queda nos preços das ações reduz o volume de dinheiro disponível para novos projetos.

Aceleração do Star50 no primeiro semestre de 2026 e perdas em fundos

O desempenho negativo do segundo semestre contrasta com a valorização registrada no segundo trimestre do ano. Entre abril e junho de 2026, o índice Star50 subiu cerca de 75%, superando o índice sul-coreano Kospi, impulsionado pelo apoio estatal de Pequim e pela expectativa em torno de avanços tecnológicos locais. Em 30 de junho de 2026, quando atingiu seu pico histórico recente, o indicador chegou a ser negociado a mais de 80 vezes o lucro projetado para os 12 meses seguintes.

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O otimismo do período também marcou a estreia da fabricante de chips de memória ChangXin Memory Technologies na bolsa de Xangai, em julho de 2026, quando os papéis chegaram a subir quase 500% no primeiro dia de negociação antes de iniciarem a trajetória de queda nos meses seguintes. A reversão do mercado a partir da metade do ano atingiu ainda os fundos quantitativos chineses — carteiras que operam por meio de algoritmos matemáticos —, que administram mais de 2,6 trilhões de yuans (US$ 385 bilhões) e mantinham alta exposição a companhias menores de tecnologia.

Reação dos reguladores em Pequim e avaliação de múltiplos do Star50

Diante da perda de valor das companhias, autoridades reguladoras do setor financeiro da China reuniram-se na quinta-feira (15) para discutir medidas de estabilização do mercado acionário. Na ocasião, os órgãos oficiais solicitaram que a chamada equipe nacional — grupo formado por fundos de investimento apoiados pelo Estado chinês — acelerasse a compra de ações para conter as quedas.

Para Leonid Mironov, da Gavekal Capital, a continuidade da baixa exigirá novas ações governamentais. “Se a queda se prolongar, haverá consequências, e Pequim talvez precise acelerar de forma mais proativa as reformas do setor financeiro e, possivelmente, mobilizar com mais vigor a equipe nacional”, declarou o gestor.

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Mesmo após a desvalorização acumulada no semestre, os papéis do setor na China continuam negociados a preços proporcionalmente mais altos em relação aos ganhos esperados do que os de mercados concorrentes. Em outubro de 2026, o índice Star50 registra um múltiplo de mais de 40 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, patamar superior às 21 vezes verificadas no índice norte-americano Nasdaq 100 e ao múltiplo inferior a 5 vezes do índice Kospi, da Coreia do Sul.

A diferença nos indicadores de preço sobre lucro mantém parte dos gestores cautelosa quanto à retomada imediata das compras antes da divulgação dos balanços corporativos do terceiro trimestre. “Os níveis atuais representam uma correção técnica, não uma oportunidade de investimento em ações subvalorizadas. Para muitas empresas de tecnologia com alto potencial, as grandes pechinchas só aparecerão depois que as ações caírem mais 30% a 50%”, afirmou Jian Shi Cortesi, gestora de fundos da Gam Investment Management.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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