Sangue tipo B eleva em 28% o risco médio de diabetes tipo 2, diz estudo

Tubos com sangue - New Africa / shutterstock.com

Tubos com sangue - New Africa / shutterstock.com

Indivíduos com sangue tipo B apresentam um risco médio 28% maior de desenvolver diabetes mellitus tipo 2 em comparação com pessoas de outros grupos sanguíneos, segundo uma revisão científica conduzida no Hospital Shengjing da Universidade Médica da China, em Shenyang. A conclusão faz parte de um levantamento publicado na revista científica BMC Medicine que avaliou centenas de correlações entre características sanguíneas e problemas de saúde, mas os próprios pesquisadores alertam que o grupo sanguíneo não causa a doença isoladamente e tem peso inferior a fatores como dieta e sedentarismo.

O trabalho foi liderado pela epidemiologista e pesquisadora principal Fang-Hua Liu, vinculada ao Departamento de Epidemiologia Clínica e ao Centro de Pesquisa Clínica da instituição chinesa, em parceria com os coautores Qi-Jun Wu e Ting-Ting Gong. “Nós revisamos cada associação e encontramos apenas um exemplo de evidência convincente de uma associação entre o sangue tipo B e o risco de diabetes mellitus tipo 2 em comparação com tipos sanguíneos não-B”, afirmou Fang-Hua Liu, em tradução livre.

Veja também: Anvisa apreende dois lotes falsos do remédio para câncer Keytruda

Revisão na BMC Medicine analisou 270 associações com tipos sanguíneos

Para chegar a esse índice, a equipe realizou uma revisão guarda-chuva — modelo de pesquisa que reúne e avalia revisões sistemáticas e meta-análises já publicadas para identificar padrões amplos que estudos isolados não conseguem captar. Os cientistas vasculharam bases de dados médicas internacionais e regionais, incluindo PubMed, Web of Science, Embase, Scopus e Cochrane Library, considerando todos os artigos registrados desde o início de cada arquivo até fevereiro de 2024. Nessa triagem, os autores checaram a consistência das conclusões anteriores, o volume de participantes em cada amostragem e a existência de falhas metodológicas ou distorções estatísticas que pudessem invalidar os achados em investigações futuras.

Foto: sangue – spawns/Istock.com

A maioria das correlações testadas não atingiu o grau de confiabilidade exigido pelos critérios do grupo. “Até o momento, a associação entre esses grupos sanguíneos e os resultados de saúde humana permanece controversa”, escreveram os pesquisadores no documento original, que recebeu uma nota de correção dos autores na mesma revista em 11 de julho de 2024. Veja os números centrais da triagem realizada em Shenyang:

  • 51 revisões sistemáticas com meta-análises foram selecionadas e avaliadas no trabalho.
  • 270 associações aproximadas entre o sistema sanguíneo ABO, o fator Rh e diferentes desfechos clínicos passaram por verificação.
  • 1 única relação — entre o sangue tipo B, positivo ou negativo, e o diabetes tipo 2 — apresentou evidência classificada como convincente.
  • 20 de maio de 2024 foi a data de publicação do artigo original no volume 22, artigo 206, da BMC Medicine.

Veja também: AMUCC e Floripa Shopping trocam doação de cabelo por perucas

Mecanismos biológicos do sistema ABO e hipótese sobre o intestino

A classificação do sangue humano em oito grupos principais decorre da combinação entre o sistema ABO e o fator Rh, que são definidos pela presença ou ausência de antígenos específicos — moléculas formadas por açúcares e proteínas localizadas na superfície dos glóbulos vermelhos que podem acionar respostas do sistema imunológico. A variação dessas moléculas determina se o indivíduo pertence aos grupos A, B, AB ou O, enquanto o fator Rh estabelece a condição positiva ou negativa. Embora a ciência investigue há décadas se essas diferenças celulares geram predisposição a enfermidades, os autores da revisão de 2024 afirmam que os caminhos biológicos exatos que ligam o antígeno B ao distúrbio metabólico da glicose ainda não estão estabelecidos.

Uma investigação posterior, de 2025, levantou a hipótese de que a composição do microbioma intestinal — o conjunto de microrganismos que habitam o trato digestivo humano — pode ser um dos elos envolvidos nessa diferença estatística, atuando em conjunto com a reação dos antígenos sobre a imunidade e sobre processos inflamatórios do corpo. Essa possibilidade, contudo, não foi demonstrada na revisão do Hospital Shengjing e depende de confirmação em testes clínicos específicos.

Carne processada e sedentarismo superam impacto do sangue tipo B no diabetes

Na prática médica, a alteração de 28% no risco médio associada ao sangue tipo B é considerada pequena diante do impacto provocado por hábitos cotidianos e condições corporais modificáveis. O consumo diário de 50 gramas de carne processada, por exemplo, está associado a uma elevação de 37% no risco de desenvolver o diabetes tipo 2, superando isoladamente a influência genética do grupo sanguíneo. Além da alimentação e do excesso de peso — apontado como um dos fatores mais fortes para o surgimento da condição —, a falta de atividade física exerce pressão superior sobre o metabolismo.

Há uma divergência nos registros sobre o tamanho exato do impacto da inatividade física: dados compilados a partir do material de referência apontam que o sedentarismo pode elevar o risco da doença em 112%, enquanto análises paralelas indicam, de forma geral, que um estilo de vida inativo pode dobrar a probabilidade de diagnóstico.

Os especialistas destacam que esses percentuais estatísticos medem tendências populacionais e não funcionam como previsão individual de adoecimento, nem permitem somar ou comparar os riscos de forma direta em qualquer paciente. A identificação do sangue tipo B não substitui a avaliação médica de rotina, e o controle de peso aliado à alimentação equilibrada e aos exercícios físicos permanece como a medida recomendada para prevenir o diabetes tipo 2. Novas pesquisas ainda são necessárias para esclarecer por que o grupo B aparece vinculado à doença e qual a utilidade clínica desse dado no acompanhamento de pacientes.

Confira também: Carne vermelha e embutidos aumentam o risco de câncer colorretal e exigem limite semanal de 500 gramas

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol