A retatrutida, medicamento experimental desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, promoveu uma redução média de até 20,8% do peso corporal em adultos que convivem simultaneamente com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. A constatação integra os resultados do ensaio clínico de fase 3 TRIUMPH-2, divulgados em Milão, na Itália.
Os dados completos da pesquisa foram apresentados na terça-feira (29) durante a 62ª Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD) e publicados simultaneamente no periódico científico The Lancet. O estudo avaliou a eficácia e a segurança de diferentes dosagens semanais da molécula ao longo de 80 semanas de acompanhamento contínuo em centros médicos internacionais.
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Resultados de perda de peso da retatrutida no estudo TRIUMPH-2
O ensaio clínico envolveu 1.152 voluntários adultos distribuídos em 92 centros de pesquisa situados em oito países, relação que inclui unidades no Brasil. Todos os participantes tinham diagnóstico prévio de diabetes tipo 2 e apresentavam índice de massa corporal (IMC) compatível com faixas de sobrepeso ou obesidade no momento da triagem inicial. Eles foram divididos para receber injeções semanais de placebo ou de doses escalonadas da retatrutida em 4 mg, 9 mg e 12 mg.
No braço do estudo submetido à dosagem mais elevada de 12 mg semanais, a perda de peso média alcançou 22,5 quilos ao fim do cronograma de 80 semanas, valor correspondente ao recuo de 20,8% do peso corporal registrado na entrada do tratamento, diante de uma redução de 4,0% registrada no grupo placebo. Entre os pacientes que apresentavam quadros iniciais de obesidade severa, definidos por IMC igual ou superior a 35, a perda média com a mesma dose foi de 27,5 quilos, o que equivale a uma queda de 23,4% do peso. Ao término do ensaio, 59,5% das pessoas tratadas com a dose de 12 mg deixaram de atender aos critérios de diagnóstico clínico de obesidade.
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Os indicadores metabólicos e físicos aferidos no grupo de voluntários submetidos à dosagem de 12 mg da retatrutida apresentaram as seguintes variações médias:
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- Redução de 39,5% na concentração de triglicerídeos sanguíneos
- Queda de 19,6% nos índices de colesterol não HDL
- Diminuição de 10,8 mmHg na pressão arterial sistólica
- Encolhimento de 16,9 centímetros na medida da circunferência da cintura
- Redução de 58,3% na proteína C-reativa de alta sensibilidade (PCR-as), exame associado a marcadores inflamatórios
- Queda ponderal média de 20,6 quilos (19,1%) entre os participantes do braço tratado com 9 mg
- Redução ponderal média de 13,5 quilos (12,7%) entre os pacientes que receberam a aplicação de 4 mg
Controle glicêmico promovido pela retatrutida no The Lancet
Além das medições corporais, o artigo assinado pela médica endocrinologista Virginia Bellido, do Hospital Universitário Virgen del Rocío de Sevilha, como primeira autora no The Lancet, analisou o controle do açúcar no sangue por meio do teste de hemoglobina glicada (HbA1c). A dosagem de 4 mg proporcionou uma diminuição média de 1,4 ponto percentual na taxa de HbA1c, ao passo que a administração de 9 mg alcançou uma redução de 1,6 ponto percentual e a de 12 mg resultou em retração de 1,5 ponto percentual. Com esses resultados, até 40,0% dos indivíduos acompanhados atingiram níveis de glicemia enquadrados na faixa de normalidade clínica, caracterizada por índices de HbA1c abaixo de 5,7%.
O diretor médico e investigador principal do Los Angeles Institute for Metabolic Research, Juan Pablo Frías, coautor da investigação científica, analisou a relevância dos dados combinados para a prática terapêutica. “A grande maioria das pessoas com diabetes tipo 2 também vive com obesidade, e tratar as duas juntas sempre foi um desafio”, afirmou Frías, em tradução livre do comunicado sobre o estudo.
Mecanismo de triplo agonista da retatrutida frente ao Mounjaro
Historicamente, pacientes com diabetes tipo 2 exibem respostas de emagrecimento substancialmente inferiores às de indivíduos sem alterações glicêmicas quando utilizam terapias farmacológicas fundamentadas em incretinas, o que tornou inédito o alcance de perdas médias superiores a 20% nessa população clínica específica. A retatrutida atua por meio de um mecanismo biológico diferente das opções terapêuticas já aprovadas pelos órgãos sanitários globais, operando como um agonista triplo de receptores hormonais no organismo humano ao se ligar ao GLP-1, ao GIP e aos receptores de glucagon para influenciar simultaneamente o apetite, a secreção de insulina e o gasto energético celular.
Essa arquitetura química contrasta com a semaglutida, princípio ativo presente no Ozempic e no Wegovy, cuja ação atinge de forma seletiva apenas a via do GLP-1. Da mesma forma, difere da tirzepatida, comercializada sob a marca Mounjaro pela própria Eli Lilly, que funciona como um agonista duplo voltado aos receptores de GLP-1 e GIP. No programa clínico de fase 3 do Mounjaro para obesidade, as reduções médias observadas haviam sido de 19,5% com 10 mg e de 20,9% com 15 mg em voluntários com sobrepeso, enquanto os resultados de 20,8% da retatrutida foram documentados diretamente em uma amostra restrita a pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 2.
Próximos passos regulatórios e limites clínicos da retatrutida
Apesar da retração documentada nos parâmetros de pressão sistólica, lipídios e marcadores inflamatórios, a retatrutida ainda não comprovou eficácia formal na prevenção primária ou secundária de desfechos cardiovasculares graves, como a incidência de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Ensaios clínicos complementares permanecem em andamento para avaliar se a alteração desses biomarcadores gera proteção cardiovascular direta aos pacientes tratados.
O composto mantém status puramente experimental, sem autorização comercial emitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos ou por qualquer outra autoridade sanitária internacional. Pacientes interessados no tratamento não encontram o produto no circuito farmacêutico regular e o acesso à substância restringe-se exclusivamente aos voluntários integrados aos ensaios clínicos controlados. Após a veiculação prévia de dados preliminares em quinta-feira, 23 de julho de 2026, a Eli Lilly confirmou que planeja abrir a janela para protocolar o pedido de registro biológico (BLA) da retatrutida junto à FDA no primeiro trimestre de 2027, com início previsto a partir de 1 de janeiro de 2027.
