Uso do celular à mesa reduz prazer em refeições com amigos

Mulher com celular - FreshSplash/istockphoto.com

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Manter o celular disponível sobre a mesa durante uma refeição com amigos ou familiares aumenta a distração e reduz o prazer do encontro presencial. Estudos da psicologia conduzidos por pesquisadores do Canadá, dos Estados Unidos e da Áustria comprovam que o hábito, além de prejudicar o aproveitamento de quem está reunido, diminui a qualidade e a adequação da conversa na avaliação de terceiros que apenas observam a cena.

Na literatura científica, o ato de ignorar um parceiro de conversa presencialmente para usar o telefone é denominado phubbing, termo formado pela união das palavras em inglês phone (telefone) e snubbing (esnobar). “Provavelmente não arruinará sua vida social se você usar o telefone ocasionalmente no jantar, mas o uso frequente do telefone durante essas interações sociais pode corroer seu bem-estar ao longo do tempo”, afirmou Ryan Dwyer, em tradução livre, autor principal de um experimento realizado no Canadá e pesquisador de psicologia pela University of British Columbia (UBC).

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Como o celular sobre a mesa afetou 304 pessoas em Vancouver?

Foto: Refeição em família, homem com celular – Komuso and Colorsandia/ shutterstock.com

Para medir o efeito real do aparelho em encontros cotidianos, Ryan Dwyer, a professora de psicologia da University of British Columbia Elizabeth Dunn e o pesquisador Kostadin Kushlev — vinculado à University of Virginia na época do levantamento e professor na Georgetown University — conduziram um experimento de campo em um café em Vancouver, no Canadá. O trabalho, intitulado Smartphone use undermines enjoyment of face-to-face social interactions, reuniu 304 participantes divididos em grupos de 3 a 5 amigos ou familiares, que comeram juntos sem saber que o objetivo real da avaliação era monitorar o impacto dos smartphones.

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Para manipular o uso dos equipamentos durante o encontro, os cientistas dividiram as mesas em duas condições experimentais distintas logo no início do atendimento. Metade dos grupos recebeu a instrução de manter o aparelho sobre a mesa, ajustado no modo vibratório ou com som, sob o pretexto de que precisariam responder a uma pergunta enviada por mensagem de texto após fazerem o pedido da refeição, enquanto a outra metade dos voluntários precisou guardar o telefone no modo silencioso dentro de bolsas ou bolsos. Ao final do encontro, os participantes que deixaram os dispositivos visíveis e acessíveis relataram índices maiores de distração e menor aproveitamento da companhia de amigos e parentes em comparação com aqueles que mantiveram os aparelhos guardados.

O estudo em Vancouver comparou o comportamento coletivo dos grupos, sem isolar o efeito exato de cada mensagem individual recebida. A palavra phubbing descreve o gesto físico de desviar a atenção para a tela, mas não mede a intenção do usuário, que pode consultar o dispositivo por hábito, curiosidade ou para atender a uma urgência legítima.

Avaliação de observadores em estudo da BMC Psychology em 2025

Enquanto o levantamento canadense focou na experiência direta de quem está à mesa, uma pesquisa publicada em 27 de fevereiro de 2025 na revista científica BMC Psychology investigou o fenômeno sob o ponto de vista de quem assiste à cena de fora. O estudo foi conduzido por Anja Stevic, pesquisadora vinculada à Universidade de Viena e à Universidade Stanford, em parceria com a pesquisadora Hanna Liftinger e o professor do Departamento de Comunicação Jörg Matthes, ambos da Universidade de Viena, na Áustria.

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Utilizando um modelo experimental entre sujeitos para testar diferentes cenários de diálogo, os autores descobriram que testemunhar alguém mexendo no telefone durante uma interação presencial reduz a percepção de conexão entre as pessoas, sem diferença significativa entre conversas sobre temas casuais ou assuntos sérios. “Observar o phubbing está relacionado à percepção de (a) baixa qualidade da conversa, (b) menor conexão entre os parceiros de conversa e (c) baixos níveis de adequação”, declararam Anja Stevic, Hanna Liftinger e Jörg Matthes, em tradução livre, no texto publicado no periódico.

A investigação austríaca também registrou um recorte de gênero nas avaliações e uma exceção importante relacionada ao modo como o aparelho é inserido no diálogo. Mulheres que assistiram ao comportamento de phubbing nos vídeos do teste atribuíram uma nota menor para a qualidade da conversa entre as interlocutoras do que os observadores homens, resultado que se alinha ao chamado modelo de ameaça às necessidades (need-threat model, estrutura teórica da psicologia que aponta maior sensibilidade feminina a sinais de exclusão social). Por outro lado, os cientistas constataram que, quando o smartphone é usado de maneira integrativa — ou seja, quando o conteúdo da tela é compartilhado e passa a fazer parte do próprio assunto entre os presentes —, não ocorre impacto negativo relevante na percepção sobre a qualidade do encontro.

Mais de 1.200 episódios analisados e o efeito da aprendizagem social

Os impactos da tecnologia nas relações interpessoais não se restringem ao ambiente de bares e restaurantes. Além do teste com os 304 voluntários em Vancouver, o artigo de 2018 de Dwyer, Kushlev e Dunn incluiu um segundo levantamento com estudantes nos Estados Unidos, acompanhados por método de amostragem de experiência ao longo de uma semana inteira. No registro de mais de 1.200 episódios de socialização presencial no dia a dia, o uso do celular esteve diretamente associado a quedas no bem-estar e no aproveitamento do momento em múltiplos contextos cotidianos.

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Já os pesquisadores da Universidade de Viena acrescentam que a exposição repetida ao hábito alheio tem efeito multiplicador. Com base na teoria da aprendizagem social (conceito que explica como indivíduos adquirem novos comportamentos ao observar outras pessoas), o artigo de 2025 aponta que presenciar terceiros praticando phubbing com frequência faz com que o observador passe a enxergar a interrupção digital como uma prática social comum, o que acaba legitimando a reprodução do mesmo gesto no futuro, ainda que a pessoa o avalie de forma negativa.

Dados técnicos e cronologia das pesquisas sobre o uso do celular

  • Amostra em Vancouver: 304 participantes com idades entre 19 e 69 anos (média de 29,9 anos), sendo 64% mulheres, divididos entre 34% de estudantes universitários e 66% de adultos da comunidade local.
  • Apresentação inicial dos dados do restaurante: 27 de fevereiro de 2018, durante a convenção anual da Society for Personality and Social Psychology (SPSP).
  • Publicação impressa do estudo canadense: 1 de setembro de 2018, no volume 78, páginas 233 a 239, do periódico Journal of Experimental Social Psychology.
  • Publicação do estudo sobre observadores: 27 de fevereiro de 2025, no volume 13, artigo 170, da revista científica BMC Psychology.

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As conclusões dos dois artigos científicos demonstram que o prejuízo na interação social decorre da quebra contínua de foco provocada por notificações visíveis, mas apontam que o compartilhamento do aparelho com o grupo e avisos breves em casos de necessidade evitam a queda na qualidade da conversa.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.
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