Dentes antigos perto de Stonehenge revelam migração de 100 km

6 min de leitura
Modelo de dente humano (crânio) - greenleaf123/ istockphoto.com Foto: Modelo de dente humano (crânio) - greenleaf123/ istockphoto.com

O British Geological Survey (BGS), serviço de pesquisa geológica do Reino Unido, e a unidade britânica de serviços arqueológicos Wessex Archaeology comprovaram, por meio de análises químicas em dentes de pessoas enterradas perto de Stonehenge, em Wiltshire, na Inglaterra, que diversos indivíduos da Idade do Bronze passaram a infância em territórios distantes antes de se deslocarem para o entorno do monumento. As avaliações laboratoriais dos isótopos de estrôncio e oxigênio preservados no esmalte dentário demonstram que jovens sepultados na área percorreram distâncias mínimas de 100 quilômetros desde suas regiões de origem, que incluem o País de Gales, a Bretanha, na França, e a área dos Alpes, na Europa Central.

A identificação do local de nascimento ocorre porque os elementos químicos absorvidos nos primeiros anos de vida ficam gravados na dentição. “O estrôncio e o oxigênio ficam retidos no esmalte dentário quando os dentes se mineralizam na infância e permanecem inalterados ao longo da vida. Como o esmalte dentário é resistente a alterações, essa assinatura também é preservada durante todo o sepultamento”, informou o British Geological Survey, em tradução livre.

Saiba mais: Culinária da Idade do Bronze tinha tempero de resina em Hama

Como o estrôncio e o oxigênio funcionam nos dentes de Stonehenge

O esmalte dentário atua como um arquivo biológico permanente das condições ambientais vividas durante o crescimento humano. Enquanto o oxigênio retido na estrutura do dente deriva diretamente da água potável consumida na infância cuja composição isotópica varia de acordo com o clima, o índice de chuvas, a latitude, a altitude e a distância do oceano, o estrôncio tem origem geológica. Quimicamente semelhante ao cálcio, o estrôncio se desprende pela decomposição das rochas no solo e ingressa na cadeia alimentar através das plantas cultivadas e dos animais, refletindo a idade e o tipo exato da rocha subjacente do território onde a criança se alimentou.

A equipe de arqueologia britânica Cotswold Archaeology detalhou a aplicação conjunta desses dois marcadores químicos nos exames laboratoriais. “Usando amostras de esmalte dentário que se desenvolveram durante a infância, os dados da proporção de isótopos de oxigênio também são usados em conjunto com as proporções de estrôncio para examinar de onde veio a água potável ingerida durante os anos de formação de um indivíduo”, explicou a instituição, em tradução livre.

Diferentemente do tecido ósseo, que passa por um processo contínuo de remodelação ao longo da vida adulta, o esmalte dos dentes não se renova após sua formação. Na bioarqueologia, as análises dos elementos carbono e nitrogênio extraídos do colágeno dos ossos são destinadas a investigar a dieta de anos posteriores, medindo os níveis de ingestão de proteína animal, plantas e peixes marinhos, ao passo que os dentes preservam exclusivamente o registro geográfico infantil sem sofrer contaminação do solo do cemitério.

Veja também: Pesquisa revela estrutura de 5 mil anos na Inglaterra com possível ligação a Stonehenge

Dados técnicos e cronologia das análises isotópicas em Stonehenge

Os exames conduzidos pelos pesquisadores utilizam equipamentos de precisão capazes de extrair informações de frações microscópicas de vestígios arqueológicos e contam com uma cronologia documentada de publicações científicas sobre a região de Wiltshire:

Confira também: Sítio de 5 mil anos na Inglaterra pode ser protótipo do Stonehenge

  • Tamanho mínimo de amostra: 5 microgramas de carbonato (como o esmalte dentário) é o volume mínimo que os instrumentos do laboratório de isótopos estáveis do British Geological Survey conseguem analisar.
  • 2002 e 2003: realização das escavações originais pela Wessex Archaeology e publicação, em 2003, do mapa de referência do BGS sobre a variação de isótopos de oxigênio na água subterrânea e sobre os domínios de estrôncio, enxofre e chumbo na biosfera da Grã-Bretanha (Biosphere Isotope Domains GB).
  • 1 de maio de 2006: publicação do artigo científico de Jane Evans, pesquisadora associada honorária do BGS, Carolyn Chenery, pesquisadora do BGS, e Andrew Fitzpatrick na revista científica Archaeometry sobre a migração infantil na Idade do Bronze perto de Stonehenge.
  • 2 de agosto de 2018: publicação de estudo com análise de isótopos de estrôncio em restos humanos cremados de Stonehenge, reforçando os vínculos migratórios com o oeste do País de Gales.
  • 20 de agosto de 2025: divulgação pelo British Geological Survey de estudo isotópico no dente de um bovino neolítico encontrado no sítio arqueológico.

O Arqueiro de Amesbury e os Arqueiros de Boscombe na Idade do Bronze

O estudo histórico publicado em 1 de maio de 2006 pelas pesquisadoras Jane Evans e Carolyn Chenery, em coautoria com Andrew Fitzpatrick, concentrou-se em dois sepultamentos emblemáticos do início da Idade do Bronze, no período conhecido como Campaniforme (Beaker). O primeiro caso é o do Arqueiro de Amesbury (Amesbury Archer), um homem sepultado por volta de 2300 a.C. que morreu com idade estimada entre 35 e 45 anos. A composição química do seu esmalte dentário provou que ele não cresceu na Grã-Bretanha, mas passou a infância em uma região de clima mais frio na Europa Central, na área dos Alpes.

O túmulo do Arqueiro de Amesbury reunia artefatos ligados ao comércio continental e à metalurgia, incluindo facas de cobre, uma pedra de almofada empregada para trabalhar metais e ornamentos de ouro que figuram entre os objetos metálicos mais antigos já localizados no Reino Unido. A busca por minérios como o cobre e o estanho durante a Idade do Bronze motivava o deslocamento de grupos e o transporte terrestre e marítimo entre diferentes pontos da Europa.

O segundo caso analisado a partir das escavações de 2002 e 2003 foi o sepultamento coletivo denominado Arqueiros de Boscombe (Boscombe Bowmen), também localizado nas imediações de Stonehenge. As assinaturas de estrôncio e oxigênio nos dentes desses indivíduos revelaram que eles migraram durante a infância a partir de regiões formadas por rochas paleozoicas situadas a pelo menos 100 quilômetros de distância do local onde foram enterrados, apontando como origem provável o País de Gales ou a região da Bretanha, em território francês.

Expansão dos testes para o período Neolítico em 2025

A mesma metodologia de rastreamento geográfico foi estendida para vestígios animais mais antigos do monumento megalítico. Em 20 de agosto de 2025, cientistas do British Geological Survey, da Universidade de Cardiff e da University College London (UCL) instituição na qual atua o professor e pesquisador de mobilidade pré-histórica em Stonehenge Michael Parker Pearson divulgaram os resultados da análise combinada de isótopos de carbono, oxigênio, estrôncio e chumbo aplicada ao terceiro molar de uma vaca do período Neolítico, datada entre 2995 a.C. e 2900 a.C., comprovando que o animal encontrado em Stonehenge também teve origem no País de Gales.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas