Doença de Newcastle leva governo a decretar emergência em SC

6 min de leitura
Frango, Gripe Aviaria, galinhas Foto: China suspende compra de carne de frango por 60 dias após 1º caso de gripe aviária em granja comercial no Brasil — Foto: Arquivo/Agência Brasil

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) decretou estado de emergência zoossanitária pelo prazo de 60 dias após a confirmação da doença de Newcastle em uma granja comercial com cerca de 6 mil perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina. A medida abrange também os municípios vizinhos de Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim e visa conter a disseminação do vírus para outras criações.

A declaração oficial consta na Portaria nº 962, assinada pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e publicada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU) na segunda-feira, 19 de outubro de 2026. Na mesma data, durante coletiva de imprensa, o titular da pasta garantiu a segurança alimentar dos produtos inspecionados no país. “O consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas”, afirmou o ministro.

Interdição da granja em Nova Itaberaba e cronologia da doença de Newcastle

A propriedade onde o foco foi detectado permanece interditada com suspensão imediata da movimentação de animais. Apesar da confirmação da presença do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), os cerca de 6 mil perus alojados no local não apresentavam sinais clínicos da enfermidade, e nenhuma ave saiu da granja para abate ou consumo. Em comunicado oficial, o ministério detalhou as ações imediatas adotadas na unidade produtora. "O estabelecimento foi interditado pelo Serviço Veterinário Oficial, com suspensão da movimentação de aves. As medidas de controle, contenção e erradicação do foco serão executadas conforme as diretrizes do Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle".

Acompanhe: SESI/SC disponibiliza academias em 16 cidades de Santa Catarina

O protocolo sanitário estabelecido pelas autoridades prevê a eliminação (depopulação e sacrifício) da totalidade das aves da granja afetada, procedimento que será seguido pela limpeza e desinfecção completa das instalações. O trabalho de campo é conduzido pelo Ministério da Agricultura em conjunto com o Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina, que atua por meio da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc). A identificação do vírus ocorreu durante ações regulares de vigilância ativa e seguiu o cronograma abaixo:

  • 21 de setembro de 2026: início da coleta de amostras na granja de Nova Itaberaba pela Cidasc durante ação de vigilância ativa;
  • Quarta-feira (14): conclusão do período de coletas em campo e obtenção do resultado preliminar indicando possibilidade de infecção;
  • Domingo (18): confirmação laboratorial do foco pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), localizado em Campinas, unidade reconhecida pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como referência internacional para o diagnóstico da doença;
  • Segunda-feira (19): realização de coletiva de imprensa do Mapa, publicação da Portaria nº 962 no DOU e notificação oficial à OMSA e aos parceiros comerciais.

Monitoramento de 133 propriedades na área da doença de Newcastle e exportações

As equipes técnicas de defesa agropecuária delimitaram uma área de restrição sanitária com raio de aproximadamente 10 quilômetros ao redor do foco em Nova Itaberaba, perímetro que engloba o território dos quatro municípios em estado de emergência. Nessa zona, cerca de 133 propriedades com criação de aves passam por monitoramento direto, com visitas técnicas, avaliações clínicas dos plantéis e coletas de amostras enviadas para análise no LFDA-SP, visando verificar a eventual presença do vírus em outras unidades. Não há previsão, neste momento, de recolhimento de produtos nem de devolução de aves que já tenham saído de outras propriedades da região.

Leia também: BR-101 em Santa Catarina lidera ranking nacional de acidentes da PRF com 987 casos no primeiro trimestre

Em cumprimento aos acordos internacionais de transparência sanitária, o governo brasileiro, cuja pasta de relações comerciais tem Rafael Requião como secretário-substituto de Comércio e Relações Internacionais, notificou a OMSA e os países compradores. Como reflexo comercial imediato, na noite de segunda-feira (19), a Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do México anunciou a suspensão preventiva da importação de carne de frango, aves vivas e ovos férteis provenientes do Brasil em razão do foco catarinense. No mercado asiático, o país conta atualmente com 61 estabelecimentos, entre frigoríficos e entrepostos, habilitados a exportar carne de aves para a China.

Consumo seguro de aves e histórico da doença de Newcastle no Brasil

Para o mercado interno e os consumidores, o Ministério da Agricultura e entidades representativas do setor produtivo — a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e o Sindicarne-SC (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado de Santa Catarina) — informaram em nota conjunta que o episódio se restringe à sanidade animal. Os produtos avícolas e ovos submetidos à inspeção oficial, identificados pelos selos SIM (Serviço de Inspeção Municipal), SIE (Serviço de Inspeção Estadual) ou SIF (Serviço de Inspeção Federal), não oferecem risco à saúde humana. “O Mapa ressalta que, apesar da necessidade de adoção de medidas sanitárias para controlar a ocorrência, o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações”, declarou a pasta em nota oficial.

A doença de Newcastle é uma infecção viral contagiosa causada por cepas virulentas do vírus APMV-1, capaz de afetar mais de 200 espécies de aves domésticas e silvestres com problemas respiratórios, diarreia, alterações neurológicas e alta mortalidade. A transmissão entre os animais ocorre pelo contato direto com aves infectadas, secreções, fezes, água, alimentos e equipamentos contaminados; em seres humanos, a infecção é rara, restrita ao contato direto intenso com animais doentes e capaz de causar apenas conjuntivite leve e transitória. O registro anterior da enfermidade em aves comerciais no Brasil havia ocorrido em 17 de julho de 2024, em uma granja de frangos de corte em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, episódio que encerrou um período de 18 anos sem casos no país, desde os registros de 2006 em aves de subsistência no Amazonas, em Mato Grosso e no próprio Rio Grande do Sul. Naquele foco de julho de 2024, as suspensões temporárias de comércio atingiram ao menos 44 países importadores e cerca de 7% da produção nacional, mas o foco foi encerrado em 25 de julho de 2024, o fim da emergência zoossanitária foi decretado em 5 de agosto de 2024 pela Portaria MAPA nº 706 e o Brasil recuperou o status de livre da doença perante a OMSA em 23 de outubro de 2024.

A origem exata da contaminação pelo vírus da doença de Newcastle na granja de perus em Nova Itaberaba ainda é desconhecida e permanece sob investigação epidemiológica pelas equipes técnicas de defesa agropecuária.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

Notícias relacionadas