Longyearbyen proíbe consumo de água da torneira após degelo

Longyearbyen - Avatar_023 / shutterstock.com

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A contaminação por metais pesados no reservatório de Isdammen, principal fonte hídrica de Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard, mantém suspensa a permissão para o consumo de água da torneira na localidade em outubro de 2026. O problema decorre do derretimento acelerado do permafrost somado à oxidação de rochas locais, o que levou o prefeito Terje Aunevik, líder do conselho comunitário Longyearbyen lokalstyre, a avaliar nesta segunda-feira (19) a construção de um sistema de abastecimento inteiramente novo.

Com a restrição mantida pelas autoridades municipais, a população local precisa buscar água potável em um ponto de distribuição temporário. “Na Noruega, onde sempre consideramos natural poder beber água da torneira, é difícil começar a pensar que precisamos carregar água como fazemos agora”, afirmou Terje Aunevik sobre a rotina alterada na cidade ártica.

Como o degelo do permafrost em Svalbard libera metais na água

A deterioração da qualidade da água em Longyearbyen resulta da interação direta entre o aumento das temperaturas e a formação geológica da região, que apresenta um substrato rochoso de xisto rico em pirita, um mineral composto por sulfeto de ferro conhecido popularmente como ouro dos tolos. À medida que o permafrost — a camada de solo que permanece congelada durante todo o ano, com exceção da faixa superficial ativa que descongela nos meses de verão — derrete de forma mais profunda, rochas antes isoladas pelo gelo passam a ter contato direto com a água em circulação e com o oxigênio do ar.

Foto: Mudanças climáticas, calota de gelo em derretimento, aquecimento global – Wirestock Creators/Shutterstock.com

Esse contato desencadeia um processo químico de oxidação da pirita, gerando acidez no solo. A água ácida atua dissolvendo e arrastando metais pesados contidos nas rochas recém-expostas diretamente para os cursos d’água que abastecem o lago represado de Isdammen, cujo nome significa lago de gelo.

Marjolaine Verret, especialista em permafrost e professora associada de geologia do Ártico no Centro Universitário em Svalbard (University Centre in Svalbard – UNIS), detalhou o mecanismo químico identificado na bacia hidrográfica. “A combinação do degelo do permafrost e do substrato rochoso de xisto, que contém um mineral chamado pirita, ou ouro dos tolos, está causando a contaminação do seu suprimento de água”, explicou a pesquisadora, em tradução livre.

A cientista do Centro Universitário em Svalbard acrescentou que a alteração química afeta diferentes elementos presentes na formação geológica da ilha. “O ácido produzido pode agora lixiviar metais pesados dessas rochas para os cursos d’água. O problema que temos tido aqui em Longyearbyen é o manganês, mas outros contaminantes podem ser lixiviados das rochas”, declarou Verret.

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Limites de manganês e distribuição de água em Longyearbyen

O primeiro alerta oficial emitido pelo conselho comunitário Longyearbyen lokalstyre, órgão municipal responsável pela infraestrutura e pelos serviços públicos da cidade, ocorreu em setembro de 2025. Na ocasião, análises laboratoriais apontaram que a concentração de manganês na rede de abastecimento havia atingido um volume 25 vezes superior ao limite máximo de segurança estabelecido pelo Instituto Norueguês de Saúde Pública. A ingestão prolongada de água com índices elevados de manganês apresenta risco de provocar danos neurológicos, afetando sobretudo bebês e crianças.

Embora as medições realizadas ao longo de 2026 tenham indicado uma redução nos níveis de manganês desde o pico registrado no ano anterior, novas baterias de testes identificaram concentrações de níquel e de sulfato acima dos padrões recomendados para o consumo humano. O resultado obrigou a administração municipal a manter a proibição do uso da água da torneira para beber.

Para garantir o suprimento básico da comunidade durante a restrição, a prefeitura adotou uma operação provisória de abastecimento no comércio local e monitora os índices geográficos e populacionais da crise:

  • Limite de segurança para o manganês: 50 microgramas por litro, conforme recomendação do Instituto Norueguês de Saúde Pública.
  • Extensão do reservatório afetado: o lago represado de Isdammen possui 2,5 quilômetros (1,5 milha) de comprimento.
  • Distância geográfica: Longyearbyen está localizada a aproximadamente 1.300 quilômetros (800 milhas) do Polo Norte.
  • População atingida: a cidade possui entre 2.400 e 2.600 habitantes submetidos à restrição hídrica.
  • Abastecimento emergencial: um tanque central com distribuição gratuita de água purificada, tratada pela cervejaria local Svalbard Brewery, foi instalado no supermercado da cidade para que os moradores reabasteçam seus próprios recipientes.

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Mineração no século XX e o ritmo de aquecimento em Svalbard

A presença acentuada de minerais expostos no solo tem relação com a própria formação econômica de Longyearbyen, que foi fundada e expandida ao longo do século XX como um núcleo de mineração de carvão no Ártico, antes de converter a sua base econômica para o turismo e a pesquisa científica nas décadas seguintes. O território do arquipélago registra um ritmo de aquecimento entre cinco e sete vezes mais rápido do que a média global, com as temperaturas de outono em Longyearbyen subindo a uma taxa de até 4 °C por década, o que acelera a perda de gelo perene em áreas de antiga atividade extrativista e em encostas naturais.

Para Marjolaine Verret, o quadro registrado na ilha norueguesa antecipa um problema que pode atingir outras comunidades isoladas do hemisfério norte que dependem de lagos e rios naturais. “Esses ingredientes e o degelo do permafrost estão presentes em outras partes do Ártico, então este pode ser um primeiro exemplo de como a mudança climática pode impactar a água doce, por exemplo, no norte do Canadá e no Alasca”, afirmou a geóloga.

Alternativas de engenharia para o reservatório de Isdammen

Diante da contaminação contínua da bacia hidrográfica, o prefeito Terje Aunevik encomendou uma investigação técnica aprofundada sobre a qualidade da água em Longyearbyen. O chefe do executivo local estuda duas alternativas principais para substituir ou reformular a rede atual: a instalação de um complexo de filtragem diretamente no reservatório de Isdammen ou a construção de uma usina de dessalinização para converter a água do mar em água potável.

A execução de qualquer um dos projetos enfrenta barreiras de engenharia impostas pelo clima do arquipélago de Svalbard, onde a temperatura da água permanece frequentemente próxima ou abaixo de zero grau Celsius, exigindo aquecimento e manutenção contínua das tubulações. O custo financeiro exato estimado para a implantação do sistema de filtragem em Isdammen ou da usina de dessalinização ainda não foi divulgado pelas autoridades municipais, que aguardam a conclusão dos estudos técnicos para definir qual modelo de abastecimento será construído na cidade.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol