Especialistas do Museu Nacional da Escócia e de universidades internacionais revelaram na segunda-feira (19) a reconstrução facial digital de um homem que morreu há quase 2.000 anos no assentamento fronteiriço romano de Inveresk, próximo a Edimburgo, no Reino Unido. O crânio original e o retrato recriado por computador serão exibidos ao público a partir de 14 de novembro de 2026 na capital escocesa.
O modelo digital foi elaborado pelo especialista Chris Rynn, que estimou a fisionomia do indivíduo com olhos castanhos e cabelos escuros grisalhos. O curador principal de pré-história e arqueologia romana nos Museus Nacionais da Escócia (NMS, na sigla em inglês), Fraser Hunter, avaliou o resultado do projeto científico e disse que trabalha na região do forte romano de Inveresk há anos. “Finalmente me dá uma ideia de como era a aparência de um de seus habitantes”, afirmou Hunter. “Não podemos saber exatamente qual era sua aparência, mas acreditamos que sua família e amigos teriam reconhecido a semelhança.”
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Análise de DNA e ferimentos do homem de Inveresk
Para determinar a origem e a composição genética do indivíduo, o projeto reuniu diferentes frentes de investigação laboratorial. A equipe combinou uma avaliação osteoarqueológica — estudo de ossos humanos antigos — conduzida no próprio Museu Nacional da Escócia com análises de isótopos químicos lideradas por pesquisadores da Universidade de Durham. Já o mapeamento de DNA antigo ficou sob a responsabilidade do Departamento de Arqueologia da Universidade de York e da Escola de Medicina de Harvard (Harvard Medical School).
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Os exames científicos apontaram que o homem nasceu no sul da Grã-Bretanha e viajou centenas de milhas em direção ao norte até chegar à costa do estuário Firth of Forth. Ele tinha pouco mais de 50 anos de idade quando morreu em Inveresk, no período estimado entre 140 e 165 d.C.
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A inspeção física do esqueleto indicou uma rotina fisicamente exigente, marcada por múltiplos traumatismos ao longo da vida. O indivíduo tinha um nariz quebrado já cicatrizado e um extenso crescimento ósseo ao redor da articulação do cotovelo direito, quadro provocado provavelmente por uma artrite séptica, que é uma infecção grave na articulação.
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Essa condição clínica causou mobilidade reduzida no braço direito. A limitação física levou os cientistas à conclusão de que o homem não atuava como soldado na época da morte, uma vez que não tinha condições mecânicas de empunhar uma espada. O esqueleto apresentava ainda desgaste acentuado nos dentes frontais, indício de que ele usava a própria dentição para segurar objetos e compensar a perda de movimento do membro superior.
Decapitação em Inveresk intriga arqueólogos
Os restos mortais pertenciam a um grupo de seis homens adultos enterrados nas proximidades do forte romano de Inveresk. Quatro desses indivíduos, incluindo o que teve as feições reconstruídas digitalmente, passaram por decapitação post-mortem, termo técnico para o corte da cabeça realizado após a morte.
Esses sepultamentos representam os primeiros exemplos conhecidos de decapitação post-mortem registrados na Escócia e figuram entre os mais antigos já descobertos em toda a Grã-Bretanha. O motivo exato pelo qual quatro dos seis homens enterrados no local sofreram essa prática permanece incerto para os arqueólogos, que consideram hipóteses ligadas a punição, crenças sobre as circunstâncias da morte ou preocupações sobrenaturais.
A curadora de osteoarqueologia nos Museus Nacionais da Escócia, Jess Thompson, explicou que os sepultamentos em Inveresk são registros raros da Escócia romana e que a abordagem interdisciplinar na análise dos restos humanos permite compreender os atributos físicos e as histórias de vida desses indivíduos. Segundo a especialista, o método possibilita investigar de onde os homens viajaram para chegar à fronteira, o que faziam no local e o que aconteceu com eles, unindo ciência de ponta e visão artística na reconstrução feita por Chris Rynn.
Forte de Inveresk e a fronteira na Muralha de Antonino
O assentamento de Inveresk, localizado na região de East Lothian, integrava a rede de fortificações erguida no século II d.C. para proteger o limite norte do domínio romano. Na época, a Muralha de Antonino (Antonine Wall) foi construída na faixa territorial mais estreita da Escócia, entre os estuários Forth e Clyde, amparada por fortes adicionais distribuídos pelas costas leste e oeste. Inveresk era uma dessas posições costeiras e cresceu até se transformar em um grande centro populacional.
O crânio e o retrato digital farão parte da mostra intitulada “Roman Scotland: Life on the Edge of Empire” (Escócia Romana: Vida à Beira do Império). Ao lado da reconstrução facial, a exibição terá como peças centrais dois altares de pedra recém-conservados retirados do Mitreu do forte de Inveresk. O espaço religioso, dedicado ao culto do deus Mitra, é considerado o templo desse tipo localizado mais ao norte em toda a extensão do Império Romano.
Datas e local da exposição no Museu Nacional da Escócia
O público poderá visitar o crânio, a reconstrução facial e os altares romanos na sede da instituição na Escócia, conforme o cronograma oficial divulgado para a mostra:
- Evento: exposição “Roman Scotland: Life on the Edge of Empire” (Escócia Romana: Vida à Beira do Império).
- Local: Museu Nacional da Escócia (National Museum of Scotland), em Edimburgo, Escócia, Reino Unido.
- Pré-estreia exclusiva para membros (Member Preview Day): 13 de novembro de 2026, das 8h30 às 17h (horário local de Edimburgo).
- Abertura geral ao público: 14 de novembro de 2026.
- Encerramento da temporada: 18 de abril de 2027.
