Parlamentares reuniram entre 83 e 86 assinaturas até a noite de segunda-feira (19) no Congresso Nacional, em Brasília, para o requerimento de abertura de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) destinada a investigar a empresária e lobista Roberta Moreira Luchsinger e o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido superou o número mínimo exigido no Senado, mas ainda precisa alcançar o quórum necessário na Câmara dos Deputados para ser protocolado.
O documento é de autoria da deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) e conta com o apoio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF). O objetivo do requerimento é apurar suspeitas de tráfico de influência, corrupção, favorecimento indevido, conflitos de interesses e eventual uso da estrutura da administração pública federal para atender a interesses privados. “É preciso esclarecer quem participou, quem foi beneficiado e se a estrutura do governo federal foi utilizada para atender a interesses privados”, afirmou Damares Alves.
Apoios de parlamentares e articulação do governo na CPMI de Roberta Luchsinger
No início da noite de 19 de outubro de 2026, o requerimento contabilizava 83 assinaturas, divididas entre 54 deputados federais e 29 senadores. Mais tarde, na mesma noite, o total subiu para 86 adesões após a inclusão dos deputados federais Gustavo Gayer e Delegado da Cunha e do senador Plínio Valério na lista de apoiadores.
O governo federal, por meio do ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, José Guimarães (PT), e da líder do Governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), orientou a base aliada e a bancada do PT a assinarem o requerimento da comissão sobre Roberta Luchsinger. A medida busca demonstrar transparência e neutralizar o desgaste eleitoral às vésperas do segundo turno presidencial. “Informo que, como líder do Governo no Senado, assinarei o pedido de abertura de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar possíveis irregularidades envolvendo Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e eventuais agentes públicos em benefício de interesses privados”, declarou Teresa Leitão.
Entre os senadores que assinaram o pedido como coautores estão integrantes do governo, do PT e da oposição, como Ana Paula Lobato (PSB-MA), Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), Beto Faro (PT-PA), Camilo Santana (PT-CE), Dr. Hiran (PP-RR), Esperidião Amin (PP-SC), Fabiano Contarato (PT-ES), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Humberto Costa (PT-PE), Jaime Bagattoli (PL-RO), Jaques Wagner (PT-BA), Jorge Seif (PL-SC), Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Magno Malta (PL-ES).
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Na Câmara dos Deputados, assinaram como coautores nomes como Alceu Moreira (MDB-RS), Alfredinho (PT-SP), Capitão Augusto (PL-SP), Clarissa Tércio (PP-PE), Dimas Gadelha (PT-RJ), Dr. Flávio (PL-RJ), Helder Salomão (PT-ES), Jefferson Campos (PL-SP), Joaquim Passarinho (PL-PA), Junio Amaral (PL-MG), Luiz Lima (Novo-RJ), Mendonça Filho (PL-PE), Nicoletti (PL-RR), Nilto Tatto (PT-SP), Olival Marques (MDB-PA), Osmar Terra (PL-RS), Padre João (PT-MG), Ricardo Guidi (PL-SC), Rodolfo Nogueira (PL-MS), Rodrigo da Zaeli (PL-MT) e Sanderson (PL-RS). Também subscreveram o texto deputados como Ana Paula Leão (PP-MG), Bia Kicis (PL-DF), Bibo Nunes (PL-RS), Capitão Alden (PL-BA), Carlos Jordy (PL-RJ), Caroline de Toni (PL-SC), Coronel Assis (PL-MT), Coronel Ulysses (União-AC), Delegado Caveira (PL-PA), Dilceu Sperafico (PP-PR), Dr. Frederico (PRD-MG), Eros Biondini (PL-MG), Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), General Girão (PL-RN), Greyce Elias (Avante-MG), Helio Lopes (PL-RJ), Ismael (PL-SC), Itamar Paim (PL-PR), Lucio Mosquini (PL-RO), Luisa Canziani (PSD-PR) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).
Em contrapartida, o PT articula outro pedido de comissão mista, de autoria do líder do partido na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), para investigar o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O foco da iniciativa petista é apurar o financiamento do filme Dark Horse com cerca de R$ 61 milhões em recursos ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e suas relações com o advogado Willer Tomaz.
Declarações de Roberta Luchsinger e a defesa de Lulinha
A coleta de assinaturas começou no sábado (17), após Roberta Luchsinger anunciar a intenção de firmar um acordo de delação premiada — mecanismo legal em que o investigado colabora com a Justiça em troca de benefícios na pena — e relatar que Lulinha participou
de reuniões com ministros. “Não vou poupar filho de presidente, não vou poupar ninguém. Porque o que está em questão é a verdade, e a verdade tem que ser dita, doa a quem doer”, disse a empresária.Na condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Damares Alves assinou cinco ofícios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), à Polícia Federal (PF), à Procuradoria-Geral da República (PGR), ao Ministério da Justiça e ao Ministério dos Direitos Humanos solicitando medidas de proteção a Roberta Luchsinger e às suas duas filhas após relatos de ameaças de morte. “Se algo acontecer comigo ou com as minhas filhas, a culpa é do Lula”, declarou a lobista. No domingo (18), durante debate presidencial, Flávio Bolsonaro questionou Lula sobre o caso, e o presidente respondeu que o assunto cabe à Polícia Federal.
O advogado de Fábio Luís Lula da Silva e coordenador da campanha de reeleição de Lula, Marco Aurélio de Carvalho, afirmou nesta segunda-feira (19) que a relação do filho do presidente com ministros ocorria exclusivamente em âmbito social. “Ele [Lulinha] não esteve em gabinetes de ministros para despachar qualquer tema, de qualquer natureza. Ele tem convívio social. O Partido dos Trabalhadores foi construído no decorrer desses muitos anos, foi fundado enfim há 46 anos, o Fábio tem 50 e poucos anos e essas histórias se confundem. Ele conhece muitos ministros e convive com vários. Então, é natural que ele se relacione com esses ministros”, afirmou o defensor.
Operação Sem Desconto e a votação sobre Roberta Luchsinger em março de 2026
Roberta Luchsinger, de 41 anos, diretora da empresa RL Consultoria e Intermediações, e Fábio Luís Lula da Silva são investigados pela Polícia Federal em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça. As apurações derivam da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema bilionário de descontos associativos indevidos aplicados a aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre os anos de 2019 e 2024, além da ligação com o empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Nos meses anteriores a outubro de 2026, a empresária foi alvo de mandados de busca e apreensão, bloqueio de bens e determinação para uso de tornozeleira eletrônica no âmbito da operação policial. Antes disso, em 12 de março de 2026, a CPMI do INSS havia rejeitado, pelo placar de 16 votos contrários a 12 favoráveis, requerimentos para convocar Roberta Luchsinger para depor; na ocasião, os senadores petistas Jaques Wagner, Humberto Costa e Teresa Leitão votaram contra a convocação.
Regras e números para a instalação da CPMI no Congresso Nacional
- Exigência mínima regimental: 198 assinaturas no total, correspondentes a um terço de cada Casa legislativa (171 deputados federais e 27 senadores).
- Situação no Senado: quórum mínimo atingido e superado, com 29 a 30 senadores signatários.
- Situação na Câmara dos Deputados: 54 a 56 deputados signatários registrados até a noite de 19 de outubro de 2026, restando alcançar os 171 necessários.
- Trâmite de instalação: após atingir as 198 assinaturas, o requerimento depende da leitura em sessão do Congresso Nacional pelo presidente do Senado e do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP).
Até o momento, Roberta Luchsinger não apresentou provas documentais sobre o suposto envolvimento de Lula ou de Lulinha em atos ilícitos, e a manifestação de interesse em fazer delação premiada ainda não representa um acordo formalizado com a Polícia Federal ou com o Ministério Público. A articulação parlamentar ocorre na semana que antecede o segundo turno das eleições presidenciais entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, marcado para domingo (25).
