O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu em 20 de outubro de 2026 uma Notícia de Fato procedimento preliminar instaurado pela secretaria da Promotoria para avaliar a abertura de inquérito civil sobre o vazamento de dados do programa Smart Sampa, na capital paulista. As informações sigilosas ficaram disponíveis em um repositório público na internet por cerca de 11 meses e permitiam o acesso a mais de 58 mil câmeras de monitoramento.
O caso foi encaminhado às Promotorias de Justiça do Patrimônio Público e Social. “O promotor para quem o caso foi sorteado vai analisá-lo e, posteriormente, decidir se cabe ou não instaurar o inquérito civil”, informou o MP-SP em nota oficial. O nome do promotor sorteado ainda não foi divulgado pelo órgão.
Quais dados e câmeras do Smart Sampa ficaram expostos?
Os arquivos localizados no repositório público reuniam dados cadastrais de mais de 6.000 agentes de segurança e instruções que permitiam reproduzir funções da plataforma em computadores ou celulares para consultar nomes, CPFs, mandados de prisão e placas de veículos, além de 181 combinações de logins e senhas, parte delas ligada à empresa fornecedora de software Sentinelx. Com o material vazado, foi possível acessar imagens ao vivo de câmeras em vias públicas, como no bairro Campos Elíseos, na região central de São Paulo, e no interior de 1.423 equipamentos municipais de saúde incluindo hospitais, Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), 11 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) infantis e 31 Caps infantojuvenis, além de 427 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs) e 396 Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEFs).
O professor de segurança pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), Rafael Alcadipani, avaliou que a falha exige revisão nos controles e monitoramento durante 24 horas sobre quem acessa a plataforma. “Um sequestrador poderia obter informações sobre a vítima que deseja sequestrar; um criminoso poderia saber onde estão as viaturas policiais no momento em que pretende cometer o crime; e alguém interessado em cometer um atentado contra uma autoridade poderia descobrir onde essa autoridade está”, disse Alcadipani.
Prefeitura de São Paulo investiga servidor da GCM e reforça senhas do Smart Sampa
A Prefeitura de São Paulo confirmou o vazamento, mas negou a existência de falha técnica ou uso indevido no Smart Sampa. A administração municipal atribuiu a divulgação a um servidor da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que ingressou pelo concurso de 2023 e atuava em setor com acesso a credenciais. A identidade do agente não foi divulgada pela gestão municipal.
“O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana”, declarou a Prefeitura de São Paulo em nota.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou nesta terça-feira (20) que a gestão já monitorava a conduta do servidor. “A prefeitura tinha conhecimento, vinha monitorando, numa espécie de isca, para saber se teria algum acesso ali irregular, para atuar de forma efetiva”, declarou Nunes. O repositório foi retirado do ar e o sistema passou a exigir senhas exclusivas, autenticação em dois fatores (2FA) e códigos enviados por SMS para novas credenciais.
Custos, contratos e apurações sobre o Smart Sampa em São Paulo
- Órgãos responsáveis pelas apurações: Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM).
- Custo mensal estimado da plataforma: cerca de R$ 10 milhões aos cofres municipais, além de R$ 2 milhões mensais previstos para o helicóptero de monitoramento anunciado em junho de 2026.
- Valor global do contrato: R$ 588 milhões firmados com o consórcio responsável pelo programa.
- Balanço oficial da Prefeitura de São Paulo: 3.628 foragidos da Justiça capturados e 284 pessoas desaparecidas localizadas desde o lançamento.
Estudo do CESeC, proposta eleitoral e pedido de CPI sobre o Smart Sampa
Inaugurada em 4 de julho de 2024, a central do Smart Sampa inspirou o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a incluir em seu plano de governo de 2026 o programa Smart Brasil, com previsão de mais de 1 milhão de câmeras no país. Na capital paulista, porém, o estudo “Smart Sampa vigia, mas não protege”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), analisou dados entre março de 2024 e abril de 2025 e concluiu que o sistema não gerou queda estatisticamente significativa em furtos, roubos e homicídios; no primeiro trimestre de 2026, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) registrou 2.156 celulares roubados ou furtados na área da delegacia de Pinheiros, média de 24 aparelhos por dia.
Na Câmara Municipal de São Paulo, a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) apresentou nesta terça-feira (20) um requerimento para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre as falhas de segurança, o contrato do consórcio e 268 conduções a delegacias por erros de reconhecimento facial que terminaram em liberação. O pedido depende de 19 assinaturas de vereadores para ser protocolado e prevê 7 integrantes com prazo de 120 dias de trabalho.
