Smart Sampa sofre vazamento de dados que expôs 58 mil câmeras em SP; gestão Ricardo Nunes afasta agente

Central de monitoramento do Smart Sampa - Reprodução/Prefeitura de São Paulo

Central de monitoramento do Smart Sampa - Reprodução/Prefeitura de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo confirmou o vazamento de dados sigilosos do sistema de monitoramento e reconhecimento facial Smart Sampa nesta terça-feira (20). As informações ficaram expostas em um repositório público na internet por cerca de 11 meses, o que permitia o acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras espalhadas pela capital paulista.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) negou a existência de falha técnica de segurança na plataforma e atribuiu o episódio a um ato criminoso cometido por um funcionário com acesso autorizado. “O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana”, afirmou a administração municipal em nota oficial.

Credenciais expostas e vulnerabilidades no sistema Smart Sampa

Os arquivos disponibilizados na rede abrangiam câmeras instaladas em vias públicas, escolas, creches, hospitais e centros de atendimento a dependentes químicos. O material reunia dados de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções para reproduzir a interface do programa em computadores e celulares. Enquanto a apuração que revelou o caso apontou a presença de 181 logins e senhas de usuários autorizados no repositório, a prefeitura declarou que o diretório retirado do ar não continha menção a senhas de acesso.

As credenciais permitiam ingressar na plataforma operada pela empresa Sentinelx sem a exigência de autenticação em duas etapas, possibilitando consultas a nomes, números de CPF (Cadastro de Pessoa Física), placas de veículos, boletins de ocorrência e localização de viaturas. Especialistas em tecnologia também identificaram interfaces vulneráveis no ambiente digital que poderiam viabilizar a inserção de dados e registros falsos de reconhecimento facial e de placas automotivas sem a checagem adequada de identidade. A identidade e o cargo exato do servidor público afastado sob acusação de vazar os dados não foram divulgados pela Prefeitura de São Paulo.

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Reforço na proteção do Smart Sampa e contrato de R$ 588 milhões

Após a identificação do repositório público, a administração municipal informou que o conteúdo foi retirado do ar e que a plataforma recebeu novos mecanismos de proteção. O sistema passou a exigir senhas exclusivas, autenticação em dois fatores e envio de código por SMS para a criação de novas credenciais. A prefeitura sustenta que não houve uso indevido da ferramenta durante o período de exposição e que o contrato prevê auditorias periódicas e testes de segurança.

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O programa é gerido pelo Consórcio Smart City SP, detentor de um contrato total de R$ 588 milhões com o município. Em 1 de janeiro de 2026, a empresa Sentinelx passou a integrar o consórcio por meio de um aditivo contratual, em substituição à empresa Camerite. As cláusulas contratuais determinam que a contratada responda pela segurança dos sistemas, mantenha profissionais experientes em segurança da informação e comunique ocorrências anormais em até 24 horas, sob pena de multas. Apesar disso, a prefeitura informou não ter acesso ao código-fonte nem aos modelos de inteligência artificial empregados no reconhecimento facial, além de admitir que não realiza auditorias independentes nesses algoritmos.

Números, custos e estrutura do programa Smart Sampa

  • Volume de equipamentos afetados: mais de 58 mil câmeras conectadas à plataforma ficaram sujeitas a acesso indevido.
  • Tempo de exposição: cerca de 11 meses em um repositório público na internet.
  • Universo de operadores: mais de 7.500 agentes de segurança possuem acesso autorizado ao sistema, dos quais mais de 6 mil tiveram dados expostos.
  • Custos operacionais: investimento estimado em R$ 10 milhões por mês, dentro de um contrato global de R$ 588 milhões.
  • Adições recentes: contratação de helicóptero de monitoramento anunciada em junho de 2026 ao custo estimado de R$ 2 milhões por mês.
  • Fiscalização institucional: acompanhamento pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), consultoria em privacidade de dados e envio de relatórios semestrais ao Ministério Público.
  • Balanço oficial da prefeitura: captura de 3.628 foragidos da Justiça e localização de 284 pessoas desaparecidas desde o início da operação.

Estudos sobre eficácia e histórico do Smart Sampa em São Paulo

Inaugurada em julho de 2024, a central de monitoramento do Smart Sampa funciona 24 horas por dia utilizando inteligência artificial para cruzar imagens de câmeras públicas e privadas com bancos de dados de procurados pela Justiça, desaparecidos e veículos com restrições. Em junho de 2026, o município ampliou o escopo do projeto com o lançamento do aplicativo Smart Sampa Cidadão, voltado para que moradores ajudem a identificar carros roubados ou clonados usando a câmera do celular. O modelo paulistano também serviu de base para a proposta chamada Smart Brasil, do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que prevê a instalação de mais de 1 milhão de câmeras no país.

Apesar dos números apresentados pela gestão municipal, um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), intitulado “Smart Sampa vigia, mas não protege”, analisou indicadores entre março de 2024 e abril de 2025 e concluiu que o programa não gerou redução estatisticamente significativa nas taxas de furtos, roubos e homicídios na capital, nem aumentou a produtividade policial em prisões em flagrante. O levantamento do CESeC também registrou falhas e viés racial nos algoritmos nos primeiros meses de 2025, citando os casos de um policial militar fardado confundido com um foragido, de um jardineiro voluntário de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) preso injustamente e de uma mulher grávida que teve parto prematuro após uma abordagem policial motivada pelo sistema.

A pesquisa mencionou ainda um levantamento de 2018 do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, segundo o qual sistemas de reconhecimento facial apresentavam taxa de erro de até 34% na identificação de mulheres negras, contra 1% em homens brancos. A Prefeitura de São Paulo contestou a metodologia do CESeC, sob o argumento de que a entidade fez comparações inadequadas com municípios de características sociais e criminais distintas. Na região de Pinheiros, na Zona Oeste da capital, dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) registraram 2.156 celulares roubados ou furtados no primeiro trimestre de 2026, uma média de 24 aparelhos por dia, mesmo com a presença das câmeras integradas. O caso do vazamento segue agora sob apuração interna da Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.

Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.