TikTok Shop vende US$ 1 bilhão em suplementos e FDA avalia regras para GLP-1

TikTok Shop - Azulblue / Shutterstock.com

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Pacientes que utilizam medicamentos da classe GLP-1, grupo de remédios voltados ao emagrecimento e controle metabólico como o Ozempic e o Wegovy, da farmacêutica Novo Nordisk, aumentaram a compra de suplementos alimentares nos Estados Unidos com o impulso de influenciadores no TikTok e na loja virtual TikTok Shop. O avanço desse consumo sem comprovação científica levou médicos a emitirem alertas sobre riscos à saúde e fez a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) avaliarem regras mais rígidas para o setor nesta terça-feira (20).

Os consumidores recorrem a produtos pouco regulamentados na tentativa de aliviar efeitos colaterais provocados pelas canetas emagrecedoras, entre eles náuseas, constipação, distúrbios gastrointestinais, unhas quebradiças e fadiga intensa. Pela legislação vigente nos Estados Unidos, vitaminas e compostos dietéticos chegam às prateleiras sem necessidade de aprovação prévia da FDA. “Se você não pode saber o que está tomando, é difícil saber a quais riscos está se submetendo”, afirmou Jonathan Bonnet, professor clínico associado na Universidade Stanford e diretor médico do Ardmore Institute of Health, em tradução livre.

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Como o TikTok Shop e os criadores de conteúdo impulsionam o consumo de GLP-1?

Foto: FDA – Tada Images / Shutterstock.com

Quase metade das pessoas em tratamento com medicamentos GLP-1 passou a consumir novas vitaminas e suplementos após o início do uso das doses, com procura concentrada em probióticos, proteínas e fibras, segundo pesquisa do Nutrition Business Journal. Erika Craft, analista de dados da instituição, declarou que o fenômeno está “trazendo novos consumidores e expandindo as rotinas de suplementos já existentes”. Já Ruth Winker, porta-voz da fabricante canadense Jamieson Wellness, afirmou que “à medida que as pessoas ficam mais saudáveis, elas tendem a tomar mais vitaminas e suplementos”.

Na ponta do consumo, pacientes utilizam a própria rede social para financiar os produtos que tomam no dia a dia. A enfermeira de pronto-socorro Allison Vecchio, de 42 anos, moradora de Fort Pierce, na Flórida, desembolsa entre US$ 200 e US$ 300 mensais em um coquetel de fibras, colágeno e eletrólitos para conter os efeitos adversos do medicamento. Com 25 mil seguidores no TikTok, ela mantém contrato fixo com três marcas e participa do programa HealthPro do TikTok Shop, voltado exclusivamente a profissionais de saúde licenciados. “Você realmente precisa assumir as rédeas”, disse Vecchio sobre o manejo dos sintomas.

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Em Pittsburg, no estado do Kansas, Terri Hart, de 52 anos, iniciou o tratamento com GLP-1 em 2023 e tem um gasto mensal de cerca de US$ 110, valor não coberto pelo seguro de saúde, na compra de magnésio, eletrólitos e vitamina B12 contra náusea, fadiga e constipação. Para ajudar a pagar as fórmulas, ela promove os itens para seus mais de 12 mil seguidores na plataforma em troca de comissões sobre as vendas.

A ausência de barreira sanitária prévia e a facilidade de promoção nas redes sociais preocupam executivos que atuam com testes laboratoriais no próprio setor de nutrição. Rob Fried, diretor-executivo (CEO) da empresa Niagen Bioscience, alertou que qualquer fabricante “pode contratar um influenciador, ou mesmo centenas de influenciadores no TikTok, para fazer quaisquer alegações que vendam”.

Números do mercado de suplementos e medicamentos GLP-1 nos Estados Unidos

O cruzamento entre a popularização das canetas emagrecedoras e o comércio eletrônico movimenta bilhões de dólares e altera o orçamento doméstico dos pacientes norte-americanos, conforme apontam levantamentos de consultorias e bancos de investimento divulgados até 20 de outubro de 2026:

  • Vendas totais de suplementos nos EUA em 2025: ultrapassaram o volume total de US$ 74 bilhões, após registrarem crescimento geral de 5% em 2024 e de 7% em 2025.
  • Faturamento no TikTok Shop em 2025: US$ 1 bilhão gerado apenas com suplementos alimentares na plataforma, o que equivale a 5,4% de todas as vendas do setor no comércio eletrônico norte-americano.
  • Aumento no gasto por paciente: usuários de GLP-1 desembolsam cerca de 20% a mais em proteínas, fibras e colágeno em comparação ao período anterior ao uso dos remédios, aponta pesquisa de 2026 do Boston Consulting Group.
  • Público consumidor de GLP-1: cerca de 10 milhões de norte-americanos usaram os medicamentos em 2025, com projeção do banco JPMorgan de alcançar 25 milhões de pessoas nos Estados Unidos até 2030.
  • Receita corporativa: a fabricante Niagen Bioscience registrou US$ 129 milhões em vendas ao longo de 2025.

Proposta de Robert F. Kennedy Jr. e da FDA divide fabricantes de suplementos

Para conter a venda de compostos sem verificação, o secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., propôs regulamentações mais rígidas para a indústria, enquanto a FDA intensificou ao longo de 2026 a supervisão sobre novos ingredientes dietéticos e emitiu diretrizes atualizadas sobre os dados exigidos nos pedidos de revisão. O ponto central da regra proposta pelo governo norte-americano é o fim de uma brecha regulatória conhecida pela sigla em inglês GRAS (geralmente reconhecido como seguro), mecanismo que nesta terça-feira (20) autoriza as próprias empresas a autodeclararem a segurança de seus ingredientes e iniciarem a comercialização sem notificar previamente a agência federal.

Em comunicado oficial sobre as medidas em estudo, um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos informou que a FDA avalia oportunidades “para modernizar sua abordagem regulatória a fim de acompanhar a evolução do mercado”, com o objetivo de garantir a segurança dos itens disponíveis nas prateleiras sem retirar o poder de escolha do consumidor.

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A possibilidade de revisão obrigatória abriu uma divisão direta entre os fabricantes. Empresas recém-criadas, como a startup de vitaminas Body of Work, apoiam a exigência de análise governamental para barrar concorrentes que adulteram fórmulas ou aplicam quantidades mínimas de princípios ativos. “No mínimo, um processo de revisão deveria ocorrer antes do lançamento”, declarou Jacqueline Maslan, CEO da Body of Work.

Por outro lado, a associação comercial Council for Responsible Nutrition (CRN) e a fabricante Thorne argumentam que a exigência criaria um acúmulo de processos e meses de atraso na agência reguladora. Colin Watts, CEO da Thorne, afirmou ser improvável que a FDA disponha de mão de obra suficiente para avaliar novos ingredientes “na velocidade necessária para acompanhar a inovação”.

Lei de 1994, regras do TikTok em 2026 e fusões bilionárias no setor

A atual estrutura de fiscalização nos Estados Unidos baseia-se na Lei de Saúde e Educação sobre Suplementos Dietéticos, aprovada em 1994 (Dietary Supplement Health and Education Act). A legislação estabeleceu há mais de três décadas que suplementos não precisam comprovar segurança ou eficácia à FDA antes da venda ao público, restando ao órgão federal intervir apenas depois que o produto já está em circulação no mercado. No ambiente digital, o próprio TikTok Shop ajustou suas normas nos Estados Unidos em setembro de 2026: a plataforma manteve o veto a itens anunciados diretamente para emagrecimento ou que utilizem a sigla GLP-1 no título como redutores de peso, mas abriu uma exceção expressa para autorizar mercadorias rotuladas como “produtos de suporte para indivíduos que usam medicamentos GLP-1”.

Com a demanda aquecida, grandes redes varejistas e grupos multinacionais ampliaram investimentos no segmento. A rede Target expandiu suas prateleiras de suplementos, enquanto a varejista especializada The Vitamin Shoppe, que tem Jack Gayton como vice-presidente sênior de merchandising, contabilizou crescimento percentual de dois dígitos em 2026 nas vendas de creatina e fibras. No mercado financeiro, a Procter & Gamble prepara a aquisição da fabricante Thorne, e o grupo japonês Kirin Holdings anunciou em agosto de 2026 a compra da canadense Jamieson Wellness, dona da marca norte-americana youtheory — empresa que havia lançado uma linha específica para usuários de GLP-1 no início de 2025.

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O avanço nas negociações corporativas aparece nos relatórios da consultoria PitchBook sobre fusões e aquisições globais na indústria de suplementos:

  • Ano de 2024: 115 negócios fechados, somando um volume global de US$ 7,3 bilhões.
  • Ano de 2025: 95 operações registradas, que movimentaram o total de US$ 16,9 bilhões.
  • Acumulado de 2026 (até terça-feira, 6 de outubro de 2026): 68 negócios concluídos, atingindo a marca de US$ 14,6 bilhões.

Apesar das diretrizes emitidas neste ano, ainda não há data definida pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos ou pela FDA para a aprovação final e a entrada em vigor da regra que extingue a autoafirmação de segurança de ingredientes pelo mecanismo GRAS.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.