As canetas emagrecedoras com princípios ativos agonistas de GLP-1 somam 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica sob apuração da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em Brasília. A condição clínica atinge os vasos que irrigam o nervo óptico e pode provocar perda súbita e irreversível da visão.
Os registros envolvem pacientes que relataram o uso de remédios à base de semaglutida e tirzepatida. A agência reguladora federal ressaltou que os episódios recebidos no sistema de farmacovigilância são tratados como suspeitas, sem comprovação de relação direta de causa e efeito entre a aplicação dos fármacos e o diagnóstico oftalmológico.
Distribuição das notificações na Anvisa por medicamento
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica decorre da interrupção do fluxo sanguíneo em pequenos vasos que atendem o nervo óptico, processo comparado a um infarto vascular que impede o envio de estímulos ao cérebro. O conjunto de 13 comunicações reunidas pela autoridade sanitária abrange cinco apresentações comerciais distintas:
- Ozempic: 5 registros cadastrados
- Wegovy: 3 registros cadastrados
- Wegovy FlexTouch: 2 registros cadastrados
- Rybelsus: 2 registros cadastrados
- Mounjaro: 1 registro cadastrado
Ao todo, o painel contabiliza 12 ocorrências ligadas a formulações com semaglutida e uma referente à tirzepatida. Além da neuropatia, o sistema da Anvisa reúne 74 registros de outros transtornos visuais em usuários dessas canetas, liderados por 37 queixas de visão turva e 29 relatos de comprometimento visual geral.
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A regra da Anvisa de 2025 e o histórico de dados
Em 1 de junho de 2025, a Anvisa determinou a inclusão obrigatória da neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica nas bulas de todos os remédios com semaglutida comercializados no Brasil, com a classificação de reação adversa muito rara. No histórico mantido pelo órgão federal desde 2018, existem 24 suspeitas cadastradas sob o termo geral de neuropatia isquêmica óptica, grupo que também inclui pacientes medicados com quimioterápicos, imunomoduladores e outros compostos.
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O alerta ganhou repercussão internacional a partir de um estudo observacional divulgado na publicação JAMA Ophthalmology, que examinou mais de 1,6 mil prontuários médicos e apontou um risco relativo de quatro a sete vezes maior de neuropatia entre usuários de semaglutida em relação a pacientes tratados com outras classes terapêuticas. O tema também avançou para ações judiciais movidas por pacientes nos Estados Unidos contra a fabricante Novo Nordisk, conforme divulgado pelo jornal The Wall Street Journal.
Quem usa canetas emagrecedoras deve interromper o tratamento?
O médico oftalmologista Rubens Belfort Neto, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, afirmou que pacientes com diagnóstico comprovado de obesidade, diabetes ou hipertensão não devem suspender a medicação por iniciativa própria. De acordo com o especialista, as comorbidades de base trazem perigos reais e documentados ao sistema circulatório, o que mantém a relação de benefício favorável para o uso orientado por prescrição.
“Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar”, declarou Rubens Belfort Neto. A recomendação de suspensão imediata é restrita a pessoas que apresentem perda súbita de visão ou que já tenham histórico da neuropatia, com orientação de exames periódicos de retina para pacientes diabéticos.
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Posicionamento dos laboratórios fabricantes
Em nota oficial, a fabricante Novo Nordisk declarou que ensaios clínicos controlados com semaglutida e liraglutida “não demonstrou um aumento na incidência de NAION em participantes que receberam semaglutida. As análises estatísticas sugeriram que a ocorrência de casos de NAION foi independente do fato de os pacientes terem recebido semaglutida ou placebo”, citando ainda mais de 49 milhões de pacientes/ano de exposição em dados pós-comercialização.
A farmacêutica Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, informou por meio de comunicado que acompanha as notificações recebidas. “Monitoramos, avaliamos e reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança relacionadas a todos os nossos medicamentos”, afirmou a empresa.
Ainda não está cientificamente comprovado se os medicamentos representam a causa primária da lesão no nervo óptico ou se as complicações decorrem de doenças vasculares preexistentes nos próprios pacientes avaliados.
