Anvisa investiga 13 casos de perda de visão com Ozempic e Wegovy

Canetas emagrecedoras, Ozempic, fita métricaCanetas emagrecedoras, Ozempic, fita métrica

Canetas emagrecedoras, Ozempic, fita métrica - Varlay/ Istockphoto.com

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abriu investigação sobre 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia), uma lesão rara no nervo óptico que pode acarretar perda permanente da visão, em pacientes tratados com medicamentos agonistas do receptor de GLP-1. O monitoramento envolve remédios como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro, receitados originalmente para controle do diabetes tipo 2 e tratamento do sobrepeso ou da obesidade.

Do total de relatos em averiguação pela agência reguladora, 12 casos estão ligados ao princípio ativo semaglutida e um caso está associado à tirzepatida. A autarquia federal destacou que os registros são tratados preliminarmente como suspeitas clínicas e que a ocorrência simultânea da administração do produto com o diagnóstico ocular não comprova uma relação direta de causa e efeito.

Leia também: Anvisa autoriza emissão eletrônica de receitas azul e amarela

Distribuição das 13 notificações de Noia por medicamento na Anvisa

O sistema oficial de farmacovigilância da Anvisa registra o desmembramento das suspeitas conforme as marcas comerciais informadas pelos notificadores. A soma por produto pode divergir ligeiramente do total de 13 pacientes porque um mesmo usuário pode ter feito uso combinado ou sequencial de diferentes apresentações farmacêuticas ao longo do tratamento:

Continue lendo: Setembro Amarelo amplia busca por apoio psicológico e faz interesse pelo CVV subir 31.037%

  • Ozempic: 5 notificações
  • Wegovy: 3 notificações
  • Wegovy FlexTouch: 2 notificações
  • Rybelsus: 2 notificações
  • Mounjaro: 1 notificação

O conjunto dessas 13 notificações integra uma base histórica mantida pela agência reguladora desde 2018, período em que o painel de farmacovigilância reuniu 24 registros de suspeitas de neuropatia isquêmica óptica. As outras ocorrências verificadas ao longo dos últimos anos abrangeram classes terapêuticas distintas, como medicamentos oncológicos, imunomoduladores, remédios oftalmológicos e outros tipos de antidiabéticos.

Saiba mais: Molécula sintética da cúrcuma inibe fungo causador de micoses

Como a Noia atua no olho e o impacto de doenças vasculares

A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica atua de forma parecida com a de um infarto vascular dentro do nervo responsável por transmitir as informações visuais captadas pela retina diretamente ao cérebro. A interrupção súbita no fluxo sanguíneo dos pequenos vasos que irrigam a estrutura dianteira do nervo óptico priva as células nervosas de oxigênio e nutrientes vitais, provocando a morte celular localizada e uma deterioração rápida da visão em um dos olhos, muitas vezes de modo indolor e sem reversão integral do quadro.

Veja também: Casos de demência são raros entre indígenas da Amazônia, revela pesquisa

O médico oftalmologista Rubens Belfort Neto, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pontua que a presença de comorbidades prévias torna a avaliação clínica consideravelmente complexa. O diabetes compromete a camada interna dos vasos sanguíneos ao longo do tempo, tornando o tecido nervoso naturalmente mais frágil e propenso a eventos isquêmicos.

Confira também: Sono de seis a oito horas reduz incidência de 83 doenças em adultos

“Essa é uma doença rara, mas que a gente tem em alguns pacientes com doenças preexistentes como é o caso da diabetes. Esse tipo de paciente já tem a doença atacando seus vasos, trazendo mais risco. Com isso, fica difícil saber se esse paciente já teria a doença pelo quadro dele ou se ele tem porque está usando o medicamento”, declarou Rubens Belfort Neto.

Notificações de visão turva e alterações visuais na base da Anvisa

Paralelamente às suspeitas de Noia, a base de farmacovigilância da Anvisa contabiliza 74 notificações relativas a outros distúrbios oftalmológicos reportados por indivíduos que utilizavam agonistas de GLP-1. Os registros apontam 22 relatos vinculados ao Rybelsus, 19 relacionados ao Wegovy, 17 ao Mounjaro e 16 associados ao Ozempic. Entre as queixas inseridas no sistema, constam a redução da acuidade visual, defeitos no campo visual, perda súbita da visão e perda da visão central.

A queixa mais recorrente nos registros encaminhados à Anvisa é a visão turva, que soma 37 apontamentos, acompanhada por casos de comprometimento visual, com 29 notificações formais. Belfort Neto esclarece que esses sintomas são frequentes na rotina dos consultórios oftalmológicos e decorrem de causas variadas, inexistindo até o momento pesquisa que conecte diretamente tais queixas às canetas injetáveis.

Estudos da JAMA Ophthalmology e processos judiciais no exterior

O debate internacional sobre a segurança ocular dos análogos de GLP-1 ganhou força a partir de ações judiciais movidas por pacientes nos Estados Unidos contra a farmacêutica Novo Nordisk sob a alegação de danos permanentes decorrentes de Noia, caso revelado pelo periódico The Wall Street Journal. O tema também foi objeto de análise em um estudo observacional veiculado pela publicação científica JAMA Ophthalmology, que examinou mais de 1,6 mil prontuários médicos e identificou um risco relativo entre quatro e sete vezes maior de aparecimento da neuropatia entre indivíduos sob prescrição de semaglutida em comparação com pacientes medicados com outros fármacos.

Apesar da correlação estatística verificada na amostragem observacional, os pesquisadores da JAMA Ophthalmology ressaltaram que o desenho do estudo não permite estabelecer um nexo causal categórico, em virtude da coexistência de fatores vasculares como hipertensão arterial e diabetes entre os participantes avaliados. No Brasil, a Noia passou a figurar obrigatoriamente como reação adversa muito rara na bula dos remédios formulados com semaglutida desde 1 de junho de 2025, após determinação da Anvisa.

Posicionamento das farmacêuticas e orientações sobre a semaglutida

Em manifestação sobre o tema, a farmacêutica Novo Nordisk comunicou que a análise conjunta de seus ensaios clínicos randomizados não evidenciou aumento na incidência de Noia com semaglutida e que o balanço entre benefícios e riscos continua favorável. A fabricante salientou que os dados pós-comercialização acumulam mais de 49 milhões de pacientes-ano de exposição ao composto e que a ocorrência nos testes foi similar entre voluntários medicados e o grupo submetido a placebo.

A farmacêutica Eli Lilly, responsável pela fabricação do Mounjaro, informou que mantém monitoramento ativo e contínuo sobre dados de segurança de seus medicamentos, incluindo ocorrências de natureza oftalmológica. A empresa declarou que mantém discussões contínuas com autoridades regulatórias e aconselha os pacientes a buscarem orientação profissional caso desenvolvam efeitos colaterais.

Sociedades médicas e especialistas reforçam que pessoas que utilizam os medicamentos com indicação médica para o controle de diabetes ou obesidade não devem interromper o tratamento por conta própria. Contudo, recomenda-se a suspensão do uso aos indivíduos que já tenham apresentado episódio prévio de Noia ou que desenvolvam perda súbita de visão, além da realização periódica de exames de retina por parte de pacientes diabéticos.

O oftalmologista Rubens Belfort Neto chama a atenção para o risco desnecessário assumido por quem recorre a essas substâncias sem necessidade terapêutica. “Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar”, afirmou. O médico acrescentou: “É nesse grupo que a conta entre risco e benefício deixa de fechar: quem não tem uma doença a tratar assume os efeitos adversos do remédio, ainda que raros, sem ganho equivalente para a saúde”.

Apuração científica em andamento sobre o nexo de causalidade

Até o momento, a comunidade científica e as autoridades sanitárias não confirmaram a existência de um nexo de causalidade direto que comprove que a semaglutida ou a tirzepatida causem a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica. A Anvisa mantém o acompanhamento contínuo dos dados de farmacovigilância no Brasil para identificar alterações no perfil de risco desses produtos.