O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) revisou as previsões climáticas para o El Niño no Brasil e reduziu a estimativa de fortes ondas de calor até o fim de 2026. O diagnóstico, atualizado em outubro de 2026, mantém o alerta para cinco frentes de impacto no país até o início de 2027, incluindo o avanço da seca no Norte e no Nordeste e o maior risco de incêndios florestais na Amazônia e no Cerrado.
A nova avaliação altera o cenário traçado pelo próprio órgão no fim de agosto de 2026, quando os pesquisadores previam a ocorrência de pelo menos seis ondas de calor até dezembro. “Novos cálculos que fizemos mostram uma perspectiva de poucas ondas de calor”, afirmou o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo. O especialista ponderou que a transição de estações ainda exige acompanhamento: “Claro que ainda estamos na primavera, o verão nem começou, o que pode trazer mudanças”.
Seca no Norte e chuvas no Sul: os efeitos do El Niño no Brasil
Apesar da revisão para baixo nos picos de calor extremo, o levantamento científico aponta que o El Niño — fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial — já altera o regime de chuvas em diferentes regiões brasileiras. Na Amazônia e no Nordeste, a falta de precipitações prejudica a navegação e a captação de água, elevando a pressão sobre os reservatórios, enquanto a vegetação seca associada a temperaturas altas amplia o perigo de queimadas tanto na floresta amazônica quanto no Cerrado. Em sentido oposto, a Região Sul enfrenta chuvas persistentes e acima da média histórica, o que eleva o nível dos rios e o risco de cheias e alagamentos, criando um quadro que ameaça o agronegócio com perdas simultâneas por déficit hídrico no Centro-Norte e excesso de água no Sul.
Alerta da OMM em outubro de 2026 aponta recorde em quatro décadas
Nesta quarta-feira (21), a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) e sediada em Genebra, alertou que o El Niño em curso pode atingir intensidade sem precedentes nas últimas quatro décadas, com pico no fim de 2026 e desdobramentos até fevereiro de 2027. O aviso internacional acompanha análises de centros de pesquisa que monitoram a evolução do aquecimento oceânico e seus reflexos humanitários e ambientais em escala global, monitorados pela secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, e pelo subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher.
Em boletim divulgado na segunda-feira (19), o Instituto Internacional de Pesquisa para o Clima e a Sociedade (IRI), da Universidade Columbia, registrou que o aquecimento já alcançou elevação térmica de +3,3 °C em outubro na região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial. As projeções para a anomalia máxima de temperatura nas águas do Pacífico variam conforme a metodologia adotada por cada instituição científica, mas os dados consolidados pelas agências nacionais e internacionais detalham a dimensão do evento:
- Probabilidade de intensidade muito forte: 95% no trimestre de outubro a dezembro de 2026, segundo o Boletim nº 4 do Painel El Niño (Inmet/Inpe/Cemaden).
- Projeção de impacto na segurança alimentar: 50 milhões de pessoas no mundo podem enfrentar agravamento da fome devido aos extremos climáticos, segundo a ONU.
- Estimativa de mortalidade global: 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor extremo no mundo entre 2026 e fevereiro de 2027, segundo estudo da Universidade de Chicago.
- Alteração marinha medida pela Nasa: elevação do nível do mar em até 40 centímetros em áreas do Pacífico Equatorial e redução do fitoplâncton verde, deixando a água mais azulada, segundo dados de outubro de 2026 do satélite PACE.
Comparação com eventos de 2015 e 2023 e avanço da seca em 2026
A previsão anterior do Cemaden, que projetava seis ondas de calor para o segundo semestre de 2026, baseava-se no comportamento atmosférico observado durante os eventos fortes de 2015/2016 e de 2023/2024. As condições do atual episódio foram confirmadas oficialmente em junho de 2026 pelo Painel El Niño, grupo técnico formado por Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Cemaden, Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Dados parciais do Cemaden referentes a setembro de 2026 e divulgados pelo Inmet mostram que o número de municípios brasileiros em seca extrema subiu de 4 para 24 no intervalo de um mês, enquanto as cidades em seca severa passaram de 153 para 197, atingindo de forma grave 16% do território nordestino.
