Arqueólogos do Museu Regional de História de Stara Zagora descobriram o túmulo de uma criança romana em Stara Zagora, na Bulgária, contendo objetos raros de metal preservados. A sepultura tem cerca de 1.750 anos e faz parte de uma antiga necrópole onde 135 estruturas funerárias foram identificadas e catalogadas pelas equipes de pesquisa.
O trabalho ocorreu durante escavações preventivas de resgate em um terreno urbano destinado à construção de um edifício residencial com garagens e estacionamento. Esse tipo de operação arqueológica tem a função de documentar e retirar vestígios históricos em áreas que passarão por alterações estruturais permanentes devido a obras civis modernas.
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Moeda de Aureliano e joias no túmulo de Stara Zagora
Os restos mortais da criança foram depositados na cova com uma orientação específica no sentido oeste-leste, mantendo a cabeça voltada para o oeste e os pés direcionados para o leste. Junto ao esqueleto, os pesquisadores registraram exclusivamente dois brincos de ouro confeccionados em formato poliédrico e uma única moeda romana feita de bronze, sem a presença de cerâmicas, vasos ou outros adornos comuns em enterros do mesmo período histórico.
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O exemplar monetário resgatado na sepultura infantil foi classificado pelos especialistas como um antoniniano, uma denominação romana que originalmente possuía maior valor comercial, mas que sofreu sucessivas alterações na sua composição metálica e no seu uso cotidiano ao longo do século 3 d.C., passando a ser fabricada em bronze. A análise da inscrição indicou que a peça foi emitida sob o governo do imperador romano Aureliano, cujo reinado durou de 270 a 275 d.C. e ficou marcado por esforços políticos e militares para reunificar territórios fragmentados do império.
A cunhagem específica dessa moeda de bronze ocorreu entre os anos de 274 e 275 d.C. na antiga cidade de Serdica, território que corresponde à atual Sófia, capital da Bulgária. Como exemplares desse tipo geralmente não permaneciam em circulação por longos períodos antes de serem depositados em contextos funerários, o artefato serve como referência cronológica para situar o sepultamento da criança naquele intervalo de anos ou pouco tempo depois.
Apesar dessa estimativa baseada no governo de Aureliano, os arqueólogos apontam que a data de fabricação do dinheiro não determina o dia nem o ano exato do falecimento, uma vez que as peças podiam continuar circulando no comércio local por algum tempo. Da mesma forma, o bom estado de conservação dos brincos de ouro não basta para comprovar que a família da criança integrava a elite econômica da cidade romana.
O mito de Caronte e as práticas na necrópole búlgara
A localização de uma moeda dentro da sepultura em Stara Zagora remete os historiadores e arqueólogos à tradição funerária greco-romana conhecida como óbolo de Caronte, um pagamento simbólico destinado ao barqueiro mitológico encarregado de transportar as almas dos recém-falecidos através do rio Estige, que dividia o mundo dos vivos do reino subterrâneo dos mortos. Em diversas práticas antigas documentadas na região mediterrânea e balcânica, o objeto metálico costumava ser inserido diretamente na boca do cadáver ou posicionado ao lado do corpo pelos familiares, funcionando como uma tentativa de garantir proteção e passagem segura na jornada que os vivos imaginavam existir após a morte.
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No caso do enterro infantil búlgaro, a peça de bronze aparece entre os itens depositados na cova, o que pode configurar uma variação local desse costume religioso incorporado pelos romanos. Ainda assim, os pesquisadores responsáveis pela escavação ressaltam que a simples presença do objeto monetário não prova, de forma definitiva, que ele tinha essa finalidade espiritual específica.
Para confirmar a função ritual de um artefato, a equipe precisa cruzar a posição exata do item com as demais características arquitetônicas da necrópole. No conjunto dos 135 túmulos descobertos no terreno, quatro apresentavam vestígios de cremação, enquanto os outros 131 correspondiam a enterros por inumação (sepultamento direto do corpo), divididos entre covas simples sem cobertura e estruturas fechadas com lajes de pedra, tijolos ou telhas romanas chamadas de tegulae.
Dados da escavação arqueológica em Stara Zagora
O levantamento técnico do sítio arqueológico reúne referências geográficas, quantidades e limites cronológicos registrados pelo museu local durante a intervenção urbana:
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- Instituição responsável: Museu Regional de História de Stara Zagora.
- Data da divulgação internacional: sexta-feira, 16 de outubro de 2026, em comunicado conjunto com a Agência de Notícias Búlgara (BTA).
- Endereço do sítio: Rua Czar Ivan Asen II, número 91, fora das antigas muralhas a sudoeste da cidade histórica.
- Período de uso da necrópole: do final do século 2 d.C. até o século 5 d.C., abrangendo quase três séculos de práticas funerárias contínuas.
De assentamento de 8.000 anos à província de Augusta Traiana
A área onde nesta quarta-feira (21) se localiza Stara Zagora concentra vestígios de assentamentos humanos que remontam a 8.000 anos. A primeira estrutura urbana organizada no local foi fundada pelo rei Filipe II da Macedônia entre os séculos 5 e 4 a.C., séculos antes da expansão militar romana pelos Bálcãs.
O Império Romano anexou a região da Trácia no ano 46 d.C., transformando o território em província. Mais tarde, o núcleo urbano situado sob a moderna cidade búlgara foi batizado de Ulpia Augusta Traiana, nome adotado em homenagem ao imperador romano Trajano, que governou de 98 a 117 d.C.
Entre os séculos 2 e 3 d.C., Ulpia Augusta Traiana consolidou-se como um centro administrativo e econômico de grande porte na região, chegando a receber autorização imperial para cunhar suas próprias moedas. Além do cemitério romano desse período, as atuais escavações na Rua Czar Ivan Asen II revelaram camadas de ocupação contínua que atravessam os séculos 17 e 18 e alcançam o final dos séculos 19 e 20.
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Mesmo com a recuperação intacta dos dois brincos poliédricos e da moeda de Serdica, a identidade da criança, a sua idade exata ao morrer e a causa da morte permanecem desconhecidas. Os arqueólogos do Museu Regional de História de Stara Zagora seguem avaliando os elementos materiais dos 135 túmulos para tentar estabelecer padrões de sepultamento e compreender a rotina dos antigos moradores da Trácia romana.
