Emissões pós-Acordo de Paris agravam ondas de calor na Europa

Tocha de gás de fogo, refinaria - IZZ HAZEL/ shutterstock.com

Tocha de gás de fogo, refinaria - IZZ HAZEL/ shutterstock.com

Cientistas liderados pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, comprovaram que as emissões globais de gases de efeito estufa lançadas desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, intensificaram as recentes ondas de calor na Europa. O estudo, publicado aponta uma probabilidade superior a 95% de que a poluição atmosférica da última década tenha elevado os extremos de temperatura no verão europeu desde 2021.

De acordo com os pesquisadores, a ação humana acumulada após o pacto climático também aumentou a intensidade da semana mais quente do ano e a quantidade de dias de calor extremo no continente entre 2022 e 2025. Na severa onda de calor registrada em junho de 2025, há mais de 99% de probabilidade de que a temperatura média regional teria sido menor sem os gases liberados depois de 2015. “Encontramos fortes evidências de que, se a onda de calor da Europa no verão de 2025 tivesse ocorrido sem as emissões desde 2015, muito provavelmente teria sido mais amena”, afirmou, em tradução livre, Jared T. Trok, autor principal do estudo e doutorando em Ciência do Sistema Terrestre na Stanford Doerr School of Sustainability.

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Dados da publicação científica e instituições envolvidas no estudo de Stanford

Foto: Calor extremo, termômetro, onde calor, temperaturas altas – Dragoncello/ Istockphoto.com

O levantamento contou com a colaboração internacional de especialistas de três universidades e apoio financeiro institucional nos Estados Unidos. Os dados técnicos da publicação reúnem as seguintes especificações:

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  • Título original do artigo: Global Emissions Since the Paris Agreement Have Intensified Europe’s Recent Heatwaves.
  • Periódico científico: revista Geophysical Research Letters (identificador digital DOI: 10.1029/2026GL125079).
  • Data de publicação: 22 de setembro de 2026.
  • Instituição líder e financiamento: Universidade Stanford, com recursos próprios e da National Science Foundation (NSF), agência governamental norte-americana de fomento à pesquisa.
  • Instituições coautoras: Universidade Estadual do Colorado (Estados Unidos) e Universidade de Auckland (Nova Zelândia).
  • Equipe de autoria: Jared T. Trok, Noah S. Diffenbaugh, Emily M. Gordon, Elizabeth A. Barnes e Frances V. Davenport.

Onda de calor na Europa em 2025 teve acréscimo de 0,36 °C na média diária

A análise detalhada do evento climático de junho de 2025 demonstra que os gases acumulados na atmosfera após 2015 elevaram as temperaturas médias diárias regionais na Europa em cerca de um terço de grau Celsius, com uma estimativa mediana exata de 0,36 °C. As ondas de calor consecutivas que quebraram recordes térmicos no continente europeu estão associadas a pelo menos 35.000 mortes em excesso mencionadas no escopo de divulgação da pesquisa, sendo que os episódios de junho e julho de 2025 antecederam novas marcas extremas registradas em 2026.

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Embora relatos de divulgações anteriores tenham mencionado que as temperaturas do ar à superfície teriam chegado especificamente aos 46 °C na Espanha e em Portugal, esse dado exato não consta nos resumos científicos do artigo nem nos comunicados oficiais das universidades responsáveis pelo levantamento. O que o trabalho confirma de maneira direta é que o efeito do aquecimento recente se repete de forma sistemática nos registros anuais. Segundo declarou Jared T. Trok, esse resultado não é exclusivo da onda de calor de 2025, mas também vale para a semana mais quente da Europa em cada ano individual desde pelo menos 2021.

Como a inteligência artificial isolou o efeito das emissões pós-Acordo de Paris?

Para separar o impacto de frações específicas de emissões históricas em eventos meteorológicos individuais, a equipe desenvolveu um modelo generativo de inteligência artificial baseado em aprendizado de máquina por difusão. Os cientistas combinaram dados meteorológicos de reanálise ERA5, um conjunto global de reconstrução climática, com simulações de 10 modelos climáticos globais do projeto CMIP6 (Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que coordena projeções climáticas mundiais), cobrindo o intervalo de 1850 a 2100 para projetar o comportamento da temperatura diária à superfície sob diferentes volumes de carbono acumulado.

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O coordenador Pep Canadell, diretor-executivo do Global Carbon Project e pesquisador sênior no CSIRO Climate Science Centre, na Austrália, foi um dos especialistas que avaliaram a publicação ao lado de outros cientistas independentes. As análises externas indicam que o uso de inteligência artificial acelera o processo de atribuição de eventos extremos em comparação aos modelos climáticos tradicionais, mas o método ainda apresenta limitações técnicas importantes, como uma menor robustez estatística para pequenas escalas espaciais de cerca de 250 quilômetros em relação à média regional de aproximadamente 2.500 quilômetros, além de excluir a influência de aerossóis e de mudanças no uso do solo.

Europa aquece acima do dobro da média global desde o tratado de 2015

O estudo ganhou relevância histórica ao demonstrar que quase um quinto (20%) de todas as emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis na história da humanidade sobretudo petróleo, gás natural e carvão foi lançado na atmosfera apenas na década posterior à adoção do Acordo de Paris. Assinado em dezembro de 2015 por quase 200 países, o tratado internacional juridicamente vinculativo estabeleceu a meta de manter o aquecimento global abaixo de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para limitá-lo a 1,5 °C, mas estimativas otimistas baseadas nas políticas atuais já projetam um pico de aquecimento de 1,8 °C.

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Nesse ritmo de elevação térmica, a Europa aquece a uma taxa superior ao dobro da média global, o que torna o continente especialmente vulnerável a episódios severos de verão. Para a coautora Emily M. Gordon, professora no Departamento de Física da Universidade de Auckland, a capacidade técnica de usar inteligência artificial para vincular frações exatas de emissões a eventos extremos individuais pode embasar ações de litígio climático na Justiça para responsabilizar empresas ou países por danos ambientais. A pesquisadora afirmou que mesmo as emissões desde o Acordo de Paris em 2015 aumentaram de forma tangível a magnitude dos eventos de calor.

Os autores ressaltam que a estabilização da temperatura global exigirá a redução das emissões ao patamar de zero líquido, ponto em que os gases lançados na atmosfera são equilibrados por mecanismos naturais ou tecnologias de remoção, exigindo preparo imediato para novos extremos térmicos. Noah S. Diffenbaugh, coautor do estudo, professor e membro sênior na Stanford Doerr School of Sustainability, disse que, mesmo nos cronogramas mais otimistas para a redução de emissões, ainda haverá mais emissões no futuro do que houve na última década desde o Acordo de Paris.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.