O Laboratório de Pesquisa em Fármacos (LPFar) da Universidade Federal do Amapá (Unifap) desenvolveu medicamentos à base de jucá, planta amazônica de nome científico Libidibia ferrea, para tratar feridas de pé diabético no Sistema Único de Saúde (SUS), em Macapá. As formulações incluem uma pomada já submetida à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e um spray com nanopartículas, que fazem parte de um projeto responsável pelo atendimento de mais de 100 pessoas no Hospital Universitário da instituição (HU-Unifap) até esta quarta-feira (21).
Coordenado pelo professor doutor José Carlos Tavares Carvalho, que também ocupa o cargo de gerente de Ensino e Pesquisa do HU-Unifap, o trabalho utiliza diferentes compostos para atuar em etapas específicas da cicatrização e reverter quadros graves que teriam indicação de amputação. “Conseguimos recuperar justamente com o spray que desenvolvemos, feito com nanopartículas a partir de uma resina de jucá, que atua sobre o biofilme. O grande problema no tratamento das feridas complexas são os biofilmes, devido à complexidade das bactérias existentes e de difícil tratamento”, afirmou Carvalho.
Ação do jucá e testes da Unifap contra o pé diabético
O pé diabético é uma complicação grave do diabetes que provoca feridas e infecções nos membros inferiores em razão de falhas na circulação sanguínea e da perda de sensibilidade local, quadro que pode evoluir para amputações sem acompanhamento adequado. As pesquisas conduzidas pela equipe da Unifap demonstraram que o jucá, também catalogado cientificamente como Caesalpinia ferrea, reúne propriedades anti-inflamatória, antimicrobiana e regenerativa, além de ampliar o fluxo de sangue sobre a área lesionada, o que irriga os tecidos e acelera o fechamento das úlceras.
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A criação de um medicamento passa por análises de qualidade, testes laboratoriais e ensaios clínicos em pacientes antes do pedido de registro sanitário. Iniciada em 2024, a pesquisa específica da pomada de jucá concluiu todas as etapas da fase pré-clínica exigidas em laboratório e foi encaminhada para a análise da Anvisa. O protocolo terapêutico adotado pelos pesquisadores combina múltiplos itens conforme o estágio da lesão. “Nunca se trata uma ferida com um produto só. Por isso, aqui desenvolvemos diversos produtos, mas cada um é indicado para uma ação”, disse José Carlos Tavares Carvalho.
Critérios de atendimento e estrutura do ambulatório no HU-Unifap
A parceria entre o LPFar e o HU-Unifap resultou na abertura de um ambulatório especializado em feridas complexas e acompanhamento de pacientes com pé diabético no Amapá. O serviço conta com aprovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio de empresas do setor de bioeconomia. Para ingressar no atendimento da unidade pública, o paciente precisa ter diagnóstico de diabetes e apresentar condições clínicas específicas ligadas à doença, passando por triagem, exames e consultas periódicas para monitorar a evolução das lesões.
Dentro do ambulatório do hospital universitário, a pesquisadora Samya Dias coordena o estudo clínico chamado Nanoplant Trial, que avalia a segurança e a eficácia de formulações nanotecnológicas de plantas medicinais em voluntários maiores de 18 anos. Segundo o chefe do laboratório e gerente do hospital, a estrutura une assistência pública e formação acadêmica. “O ambulatório ampliará as linhas de pesquisa que o Centro de Pesquisa Clínica do HU-Unifap vem desenvolvendo e, principalmente, fortalecerá a assistência e o ensino no âmbito do SUS no estado do Amapá”, declarou Carvalho.
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A chefe substituta da Unidade de Gestão da Pesquisa do HU-Unifap, Luana Silva, apontou o reflexo direto do serviço especializado na rede hospitalar estadual. “Esse tipo de atendimento contribui para reduzir complicações como infecções, amputações e reinternações, além de diminuir a demanda por leitos hospitalares e serviços de urgência”, afirmou.
- Local de atendimento: Ambulatório especializado do Hospital Universitário da Unifap (HU-Unifap), em Macapá (AP).
- Público-alvo do estudo Nanoplant Trial: Pacientes voluntários maiores de 18 anos diagnosticados com diabetes e feridas de pé diabético.
- Duração do monitoramento clínico: 14 semanas de acompanhamento multiprofissional por paciente no estudo.
- Especialidades integradas na assistência: Atendimento clínico, vascular, cardiológico, endocrinológico, nutricional, psicológico, fisioterapêutico e de enfermagem.
- Matérias-primas estudadas pelo LPFar: Jucá, óleos de copaíba, andiroba e pracaxi, camu-camu e açaí.
- Códigos dos produtos avaliados em úlceras plantares: Formulações registradas sob as siglas CCLF2023, GCLF2023 e NDLF2023.
Mais de 35 anos de pesquisa na Amazônia e histórico na Unifap
O acompanhamento de casos de pé diabético na unidade de saúde vinculada à Unifap ocorre há cerca de duas décadas, demanda que motivou a busca por terapias acessíveis dentro da própria região. O professor José Carlos Tavares Carvalho estuda espécies da biodiversidade amazônica há mais de 35 anos e fundou o Laboratório de Pesquisa em Fármacos da universidade em 2005. Ex-reitor da Unifap entre 2006 e 2014, o pesquisador ocupa a cadeira número 47 da Academia Nacional de Farmácia e integra tanto o Comitê Deliberativo da Farmacopeia Brasileira quanto a Câmara Técnica de Fitoterápicos da Anvisa (CATEF).
O interesse científico pelas propriedades curativas da flora regional teve origem na infância do coordenador, quando o acesso à saúde pública era restrito. “Eu vim de uma família extremamente pobre e, naquela época, não existia SUS. Nós resolvíamos nossos problemas com as plantas medicinais que tínhamos no quintal de casa ou que buscávamos em outros lugares. Na graduação trabalhei com plantas medicinais, no mestrado também, e no doutorado aprofundei ainda mais esses estudos. Minha vida toda foi dedicada a tentar comprovar cientificamente aquelas atividades que a população já conhecia”, declarou o pesquisador.
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Para viabilizar a distribuição gratuita na rede pública ou a produção em escala pela indústria farmacêutica, a equipe seleciona insumos de alta disponibilidade extrativista. “Nós só estudamos aquilo que é possível obter na natureza em toneladas. Para pensar em um produto destinado ao SUS ou à indústria farmacêutica, é necessário garantir matéria-prima em abundância. Por isso, nossos principais objetos de estudo são o jucá, os óleos de copaíba, andiroba e pracaxi, além do camu-camu e do açaí”, explicou Carvalho.
O extrato glicólico de Libidibia ferrea já faz parte das formulações reconhecidas como cicatrizantes e antissépticas no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, documento oficial que estabelece os padrões de manipulação de plantas medicinais no país. Os ensaios clínicos atuais do grupo amapaense estão cadastrados no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), plataforma pública nacional onde são documentados os estudos com seres humanos.
A divulgação do balanço com mais de 100 atendimentos no ambulatório e da submissão da pomada de jucá à agência reguladora ocorreu em 21 de outubro de 2026. Até o momento, não há confirmação sobre o prazo estimado pela Anvisa para concluir a avaliação regulatória do medicamento submetido pela Unifap, enquanto o recrutamento e o acompanhamento de pacientes pelo estudo Nanoplant Trial seguem em operação no HU-Unifap desde 8 de junho de 2026.

