Pesquisadores reconstruíram um eclipse solar total observado na China Antiga em 17 de julho de 709 a.C. a partir de registros da corte do Estado de Lu. A análise, publicada na revista The Astrophysical Journal Letters, ajustou a localização da antiga capital Qufu em cerca de oito quilômetros e estabeleceu um intervalo de 20.264 a 21.204 segundos para o parâmetro delta T (ΔT), que mede a diferença entre o tempo uniforme e a rotação real da Terra naquela época.
O estudo, liderado por Hisashi Hayakawa, professor da Universidade de Nagoya, combinou astronomia, arqueologia e geografia histórica. A correção das coordenadas de Qufu para N35°36′ E116°59′ permitiu colocar a cidade dentro da faixa de totalidade do eclipse, algo que cálculos anteriores não conseguiam. “Essa correção nos permitiu medir com precisão a rotação da Terra durante o eclipse total, calcular a orientação do eixo de rotação do Sol e simular a aparência da coroa solar”, afirmou Hayakawa em comunicado da universidade.
Anais da Primavera e Outono registram o eclipse total de 709 a.C.
Astrônomos da corte do Ducado de Lu observaram o fenômeno e o anotaram nos Anais da Primavera e do Outono, crônica compilada entre 200 e 300 anos depois. O texto registra que “o Sol ficou totalmente eclipsado”. Tentativas modernas de simular o evento com modelos de rotação terrestre anteriores indicavam que a totalidade não deveria ser visível da posição então atribuída a Qufu. A revisão de relatórios de escavações arqueológicas mostrou que as coordenadas usadas em estudos anteriores estavam deslocadas cerca de oito quilômetros em relação ao sítio real da capital.
Com a localização ajustada, a equipe calculou a orientação do disco solar no momento do eclipse, inclinado aproximadamente 58° em relação ao zênite local. Isso permitiu posicionar possíveis cinturões de streamers da coroa solar em latitudes heliográficas de cerca de +32° ± 45° e −32° ± 45°. O resultado concorda de forma ampla com reconstruções baseadas em dados de radiocarbono de anéis de árvores para o primeiro milênio a.C.
Delta T de 20.264 a 21.204 segundos indica Terra mais rápida
A Terra girava um pouco mais rápido há 2.700 anos do que hoje. O atrito das marés oceânicas, impulsionado pela atração gravitacional da Lua, desacelera gradualmente a rotação do planeta ao longo de milênios. O delta T quantifica essa variação em relação a uma escala de tempo uniforme. Para o eclipse de 709 a.C., o intervalo de 20.264 a 21.204 segundos revisa restrições anteriores derivadas de outros eclipses dos séculos 8 e 6 a.C. e corrige erros de coordenadas que afetavam modelos anteriores.
Mitsuru Sôma, coautor do Observatório Astronômico Nacional do Japão, destacou que o novo conjunto de dados corrige erros de coordenadas em estudos prévios da rotação terrestre e melhora a precisão de datações de eventos astronômicos históricos. A medida ajuda a calibrar a duração dos dias no passado e a reconstruir outros fenômenos observados por civilizações antigas.
Descrição no Hanshu sugere coroa solar após mínimo de Homero
Um adendo posterior no Hanshu, ou Livro de Han, compilado cerca de sete séculos após o eclipse, cita uma descrição do Sol eclipsado como “completamente amarelo acima e abaixo”. A equipe associa essa frase, com ressalvas, à coroa solar, a camada externa da atmosfera do Sol visível a olho nu apenas durante a totalidade. Se a interpretação se confirmar, seria uma das menções escritas mais antigas da coroa que chegaram aos dias atuais. Os autores alertam que o relato não tem proveniência filológica clara e não constitui prova definitiva.
O eclipse ocorreu poucos anos depois do Grande Mínimo Neoassírio, ou Grande Mínimo de Homero, período de baixa atividade solar entre aproximadamente 808 e 717 a.C., marcado por poucas manchas solares e redução da atividade magnética. A morfologia sugerida pela descrição é compatível com a retomada de ciclos regulares de cerca de 11 anos e possível proximidade do pico de atividade. Mathew Owens, professor da Universidade de Reading, afirmou que o adendo histórico fornece uma referência pontual para reconstruções da atividade solar baseadas em anéis de árvores e núcleos de gelo.
Registros antigos ainda informam a ciência moderna
Meng Jin, coautor do Laboratório de Astrofísica e Física Solar da Lockheed Martin, observou que “alguns de nossos ancestrais eram observadores muito habilidosos”. A combinação de documentos chineses com métodos computacionais atuais e evidências arqueológicas recupera dados sobre a Terra e o Sol de milênios atrás. O estudo não resolve todas as incertezas sobre a descrição da coroa, mas reforça o valor dos anais chineses como fonte para calibrar modelos de rotação planetária e atividade solar no século 8 a.C. Os resultados ampliam o conjunto de restrições de delta T para o período e oferecem apoio independente às reconstruções baseadas em isótopos cosmogênicos.
