O lobo-guará dispersa sementes pelo Cerrado e contribui para o surgimento de novas plantas. Pesquisadores confirmaram que sementes de cinco espécies vegetais germinaram após passar pelo sistema digestório do animal.
Em duas dessas espécies a passagem elevou tanto a taxa quanto a velocidade de germinação. O resultado aponta o mamífero como aliado na regeneração de áreas do bioma.
Lobo-guará e a germinação de cinco espécies vegetais
Um estudo publicado em 2023 na revista Biota Neotropica testou sementes retiradas de fezes de dois lobos-guará em cativeiro e comparou com sementes colhidas diretamente dos frutos. As espécies foram Genipa americana (jenipapo), Psidium guajava (goiaba), Psidium cattleianum (araçá), Plinia cauliflora (jabuticaba) e Ficus obtusifolia.
Todas germinaram. A passagem pelo trato digestivo favoreceu a germinação de Genipa americana e Psidium guajava, atrasou a de Psidium cattleianum e não alterou a de Plinia cauliflora e Ficus obtusifolia. Os autores concluíram que o canídeo apresenta elevado potencial de dispersão e pode auxiliar na restauração de ecossistemas do Cerrado e de zonas de contato com a Mata Atlântica.
Alimentação e deslocamento no bioma
O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo silvestre da América do Sul. Mede cerca de 70 a 90 centímetros na cernelha e pesa entre 20 e 30 quilos. Suas pernas longas facilitam a locomoção em áreas abertas de vegetação alta.
Apesar de pertencer à ordem dos carnívoros, a dieta inclui pequenos animais, insetos e frutos. Destaca-se o consumo da lobeira (Solanum lycocarpum), também chamada de fruta-do-lobo. Ao ingerir os frutos, o animal engole as sementes, que atravessam o sistema digestório e saem nas fezes em pontos distantes da planta-mãe.
Esse transporte amplia as chances de as sementes alcançarem locais com umidade, temperatura e luz adequadas à germinação. Nem toda semente vira planta, mas a dispersão aumenta as oportunidades de estabelecimento e reduz a competição junto à planta de origem.
Papel na renovação da vegetação do Cerrado
A dispersão realizada pelo lobo-guará conecta áreas da paisagem e favorece a renovação da vegetação. Plantas estabelecidas fornecem alimento e abrigo para insetos, aves e outros mamíferos. A presença do canídeo ajuda a manter processos ecológicos dos quais outras espécies dependem.
Pesquisas anteriores já registravam o animal como dispersor de lobeira e de outras espécies do Cerrado. O trabalho de 2023 acrescentou dados quantitativos sobre taxa e velocidade de germinação em espécies de Cerrado e Mata Atlântica. Outros estudos de campo indicam que a maioria das sementes encontradas nas fezes permanece viável.
Conservação do lobo-guará e do bioma
A espécie é classificada como quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza e como vulnerável no Brasil, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. As principais ameaças são a perda e a fragmentação de habitat pela expansão agropecuária, atropelamentos em rodovias, caça e transmissão de doenças por animais domésticos.
A redução das populações pode diminuir a capacidade de dispersão de sementes em trechos do Cerrado. Medidas como proteção de remanescentes de vegetação nativa, corredores ecológicos e redução de atropelamentos ajudam a manter o deslocamento do animal e a continuidade do processo. Proteger o lobo-guará também preserva interações que renovam a vegetação do bioma.
