O engenheiro biomédico Daniel Dahis se tornou o primeiro brasileiro a vencer o Eric and Wendy Schmidt Awards for Excellence in Science Communication. O prêmio, concedido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM) em parceria com a Schmidt Sciences, foi anunciado na segunda-feira (26). Ele recebe US$ 40 mil na categoria Research Scientist: Early Career.
A edição de 2026 reconheceu 24 profissionais em oito categorias, entre pesquisadores, jornalistas e comunicadores de ciência. Cada categoria tem um vencedor principal com US$ 40 mil e dois reconhecidos com US$ 20 mil cada, totalizando US$ 640 mil. Os vencedores serão homenageados de 17 a 20 de novembro de 2026 em Washington, nos Estados Unidos.
Daniel Dahis leva prêmio principal de US$ 40 mil
Dahis venceu na categoria voltada a pesquisadores em início de carreira. O reconhecimento destaca os vídeos que produz sobre vacinas, doenças, tratamentos e novas pesquisas. Ele reúne mais de 750 mil seguidores nas redes sociais e produz conteúdo principalmente em português, embora viva nos Estados Unidos. Entre os trabalhos reconhecidos está um vídeo feito com o Ministério da Saúde sobre possível ligação entre vacinas contra a Covid-19 e acidente vascular cerebral.
“Nunca imaginei que um dia receberia um reconhecimento internacional por levar esse conhecimento para fora dos laboratórios”, afirmou o pesquisador. Para ele, a premiação marca a importância da produção científica brasileira e da comunicação sobre ciência no país.
Formação na UFRJ e doutorado com colaboração de Harvard
Dahis se formou em engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde descobriu a engenharia biomédica. Depois fez mestrado e doutorado no Technion, instituto de tecnologia em Haifa, em Israel. Nesse período desenvolveu pesquisas em oncologia em colaboração com a Escola de Medicina de Harvard. A formação combinou engenharia e medicina aplicada.
Uma das frentes do doutorado investigou estratégia de vacina personalizada contra o melanoma, tipo de câncer de pele. A abordagem combinava imunoterapia, nanopartículas e ultrassom focalizado. O trabalho usou adesivos com microagulhas para coletar biomarcadores e acompanhar a resposta ao tratamento de forma pouco invasiva e quase em tempo real. Os testes pré-clínicos indicaram potencial para combater o tumor e monitorar a reação do sistema imunológico.
Pesquisas publicadas e trabalho em empresas de biotecnologia
Nos experimentos com animais a técnica aumentou em até 3,6 vezes a concentração de nanopartículas no cérebro, em estudo sobre a barreira hematoencefálica e o tratamento de tumores como o glioblastoma. As duas pesquisas saíram em 2023 nas revistas Advanced Functional Materials e Advanced NanoBiomed Research. A barreira protege o cérebro, mas dificulta a chegada de remédios ao órgão.
Na empresa BioDevek, em Boston, liderou testes pré-clínicos de gel adesivo em spray para proteger feridas no sistema digestivo após procedimentos de endoscopia, como a retirada de pólipos. Aplicado sobre o tecido lesionado, o material forma barreira protetora. Em testes com porcos permaneceu de três a sete dias, o que pode favorecer a cicatrização e reduzir sangramentos. O estudo foi publicado em 2024 na revista Advanced Materials.
Atualmente trabalha como cientista de desenvolvimento clínico na Philips Healthcare, com foco em tecnologias para monitorar pacientes internados e identificar precocemente sinais de piora clínica. Depois de anos em laboratório, o foco passou ao desenvolvimento de ferramentas para uso hospitalar.
Divulgação científica em português contra a desinformação
A produção de conteúdo começou em 2024, após visita a laboratório em que ouviu que a trajetória de um brasileiro fazendo ciência com Harvard poderia inspirar jovens interessados na carreira científica. O que era iniciativa pessoal passou a alcançar milhões de pessoas. Além dos vídeos ele mantém newsletter dedicada à ciência.
Dahis observa que as plataformas digitais são o espaço em que muitas pessoas buscam informações sobre alimentação, vacinas e tratamentos. Ao mesmo tempo a desinformação circula com aparência convincente, inclusive quando divulgada por profissionais de saúde. Uma pesquisa da revista Nature de 2021 mostrou que cerca de 15% de 321 cientistas que falaram publicamente sobre a Covid-19 relataram ter recebido ameaças de morte.
“Precisamos de cada vez mais pessoas com formação científica participando do debate público para fazer frente a esse movimento que coloca pessoas vulneráveis em risco. Recentemente, vi um vídeo em que alguém perguntava: ‘Por que os cientistas estão fingindo ser influenciadores?’ E pensei: talvez porque alguns influenciadores sem letramento científico estejam fingindo ser cientistas”, comentou.
Ele espera que o prêmio inspire outros cientistas e comunicadores brasileiros e reforce o valor da divulgação científica em português. A cerimônia de entrega dos prêmios ocorre entre 17 e 20 de novembro de 2026 em Washington. O comitê de seleção escolheu os vencedores entre mais de 750 inscrições de trabalhos publicados ou veiculados em 2025. Esta é a quinta edição dos prêmios, que já reconheceram 120 pessoas.
