Kylian Mbappé, atacante do Real Madrid e capitão da seleção francesa, perdeu contratos de patrocínio com ao menos três empresas chinesas e divulgou pedido de desculpas nesta terça-feira (27) após um vídeo em que ele ri de um meme com seu rosto sobreposto ao de um “ditador chinês”.
O clipe, de uma entrevista ao programa francês The Bridge, circulou com força nas redes sociais a partir da segunda-feira (26) e gerou reações imediatas na China, onde piadas sobre Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular e líder do país de 1949 a 1976, são consideradas tabu.
Empresas chinesas encerram parcerias com efeito imediato
Dongpeng (também conhecida como Eastroc), gigante de bebidas, Mengniu, maior produtora de laticínios do país, e Milkground, fabricante de queijos, anunciaram o fim de toda cooperação com o jogador de 27 anos.
As companhias usaram linguagem semelhante nos comunicados. A Dongpeng afirmou ter “política de tolerância zero” com comportamentos que ofendem sentimentos nacionais e informou que encerra “toda cooperação com Kylian Mbappé com efeito imediato”. Mengniu declarou que “se opõe firmemente a quaisquer palavras ou ações que firam os sentimentos do povo chinês”.
Os anúncios vieram depois que o trecho da entrevista ganhou destaque no Weibo e em outras plataformas chinesas. Em um dos tópicos, o comunicado da Dongpeng chegou a liderar as tendências.
O que Mbappé disse sobre o meme no The Bridge
Na entrevista, perguntado sobre qual meme com sua imagem mais o faz rir, o atacante respondeu, sorrindo, que é o vídeo em que colocam seu rosto em “um ditador chinês” ou “um cara — acho que é um ditador chinês”. Ele acrescentou que usa bastante a montagem com os amigos, inclusive em jogos online.
Mbappé não citou o nome de Mao Tsé-Tung. O vídeo, porém, corta para uma montagem em que o rosto do jogador aparece sobreposto a uma imagem do ex-líder chinês de terno azul. O programa The Bridge, associado a Aurélien Tchouaméni, companheiro de Mbappé no Real Madrid, retirou o clipe de suas redes após a repercussão.
Memes que colocam o rosto do francês em figuras autoritárias circulam há meses na Europa e nas redes, em referência brincalhona à sua influência nos vestiários e nos clubes. Em entrevista anterior ao L’Équipe, o próprio Mbappé comentou que parte dessas montagens é inofensiva, mas outra demonstra “falta de consciência política e humana”.
Pedido de desculpas do jogador em três idiomas
Nesta terça-feira (27), Mbappé publicou comunicado em inglês, francês e chinês em suas redes sociais.
“Durante uma entrevista recente, reagi a uma imagem minha. Meu comentário foi imprudente, e agora compreendo que ele feriu muitas pessoas na China e em comunidades chinesas ao redor do mundo”, escreveu. “Peço desculpas a todos que se sentiram ofendidos pelas minhas palavras. Essa, de forma alguma, foi a minha intenção. Tenho profundo respeito pelo povo chinês e por sua história, e sinto muito, sinceramente.”
A China Football Association protestou junto ao Real Madrid e exigiu desculpas públicas do jogador e do clube. O Ministério das Relações Exteriores chinês também se manifestou, afirmando que palavras e ações que “ferem os sentimentos do povo chinês” enfrentarão oposição no país.
LaLiga se desmarca e pede desculpas em nome da competição
A LaLiga emitiu comunicado oficial em que lamenta “profundamente a ofensa que os recentes comentários de Kylian Mbappé causaram entre os torcedores chineses”.
A entidade reforçou que as falas foram feitas “a título pessoal e não representam a LaLiga”. “Na medida da nossa responsabilidade institucional, pedimos desculpas em nome da LaLiga e de todos os seus clubes”, afirmou. O texto destaca o respeito às culturas, valoriza o apoio de milhões de torcedores chineses e informa que a liga trabalha com parceiros no país para tratar da situação. Também anunciou a criação de um protocolo de sensibilização com clubes e jogadores.
Javier Tebas, presidente da LaLiga, publicou mensagem própria nas redes sociais. “Não podemos permitir que uma atitude individual comprometa essa relação nem prejudique os mais de 20 clubes de nossas competições profissionais e milhões de torcedores chineses”, escreveu. Ele reafirmou o compromisso com a China e disse que a entidade toma medidas e trabalha diretamente com interlocutores asiáticos para superar a crise.
Transmissões da LaLiga suspensas na China
A China Media Group, que controla a CCTV, suspendeu as transmissões de jogos da LaLiga e de partidas envolvendo Mbappé, além de retirar anúncios e vídeos com o jogador. A medida começou a valer a partir da segunda-feira (26), segundo relatos de veículos chineses como The Paper e confirmação posterior do próprio grupo.
A suspensão atinge o contrato de direitos de transmissão da competição espanhola para a temporada 2026-27, fechado em agosto. Plataformas digitais também revisaram material promocional.
Mbappé, que na segunda-feira (26) ficou em segundo no Ballon d’Or — atrás de Harry Kane —, mantém outros contratos internacionais, mas a perda dos patrocínios chineses representa impacto comercial relevante num mercado onde sua imagem aparecia em campanhas de metrô, elevadores e produtos de consumo. O Real Madrid não se pronunciou publicamente até o momento.
