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Auxiliar do Santos serve como ponto de equilíbrio de Sampaoli

Diretoria e Sampaoli 'fazem as pazes' após desentendimentos por reforços

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Não há ambiente em que Jorge Sampaoli fique mais agitado do que dentro de uma partida de futebol. Durante os 90 minutos mais acréscimos, o argentino caminha de um lado para o outro, impaciente. Grita, esperneia com os atletas.

Seu auxiliar técnico, Pablo Fernández, não é diferente. Na vitória sobre o São Paulo por 2 a 0, pelo Paulista, foi expulso pouco depois do segundo gol santista por reclamação. Ambos trabalham em permanente combustão.

Mas há um homem na comissão técnica –também careca como os outros dois– cuja capacidade não está apenas no trabalho com os atletas, mas também no equilíbrio entre a loucura de Sampaoli e a racionalidade que a tomada de decisões por vezes pede. Trata-se do preparador físico Jorge Desio, que trabalha com Sampaoli há 25 anos.

Com seu jeito tranquilo, o argentino nascido na província de Córdoba entrega aos times comandados pelo treinador alguma dose de tranquilidade, servindo de elo entre Sampaoli e o grupo de atletas.

“Me parece que Desio é um pouco mais equilibrado, mais sociável, um pouco mais afável. Ele busca que as decisões, as determinações que fazem não sejam tão drásticas. É mais conciliador. [Ele e Sampaoli] são como o ying e o yang, a dupla que conduz”, diz à Folha o jornalista Pablo Paván, autor de “No Escucho y Sigo”, biografia de Sampaoli.

O zagueiro José Rojas era o capitão da Universidad de Chile campeã da Copa Sul-Americana de 2011, trabalho que projetou Sampaoli para o futebol internacional. Seu relato sobre a experiência com a comissão técnica condiz com a visão de que um serve de complemento ao outro.

“[Desio] foi sempre uma espécie de cabo que ligava Sampaoli à terra. É quem põe a calma, a relação entre os jogadores. Eles têm um vínculo de amizade tremendo e um respeito mútuo que os levou a lugares que até então eram impensáveis”, conta Rojas.

Sampaoli e Desio se conheceram em 1994, no Renato Cesarini, clube de Rosário.

Após não conseguir fazer carreira como jogador profissional, Jorge Sampaoli passou a perseguir a carreira de treinador. Desio, que também perambulou por ligas amadoras e não vingou como atleta, queria ser preparador físico.

A vontade dos dois fez com que se juntassem pela primeira vez para trabalharem no Alumni de Casilda, time da cidade natal de Sampaoli.

Após quase uma década nas ligas menores da Argentina, iniciaram a trajetória profissional no Peru, passando por Chile e Equador antes do grande trabalho na Universidad de Chile, que catapultou Sampaoli e sua comissão aos trabalhos nas seleções de Chile, Argentina e no Sevilla (ESP).

Confundidos constantemente em razão da semelhança física, se diferem bastante na maneira como colocam seus conceitos em prática.

Ao contrário do empirismo de Sampaoli, que aprendeu sobre futebol sobretudo com a vivência do campo e da bola, Jorge Desio tem formação muito mais acadêmica.

Quem acompanha de perto o trabalho da comissão no Santos se surpreende com a organização do preparador físico, responsável por grande parte do planejamento de treinos e execução dos exercícios, funcionando quase como mais um auxiliar do chefe. Já era assim no Sevilla.

“O Desio é um cara exemplar, o braço direito do Sampaoli. Os jogadores que tinham dúvida de treino, e até de assuntos extra campo, primeiramente passavam por ele para depois chegar ao Sampaoli”, afirma o lateral direito Mariano, que trabalhou com a dupla no clube espanhol.

Interessado em expandir o conhecimento para além do esporte, Desio se apoiou durante sua formação em quatro figuras históricas que até hoje servem de referência para o seu trabalho e sua vida: Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King e Nelson Mandela.

Um time de personalidades icônicas que, de certa forma, o ajuda a domar o espírito inquieto de Sampaoli.

“São pessoas que têm uma página mais que vitoriosa no livro mundial. Principalmente porque entregaram tudo em prol dos outros. Conseguiram através da não violência a repercussão mundial. O triunfo dos ideais”, diz Desio à Folha de S.Paulo.

Ele reconhece que vive em uma rotação mais baixa que os colegas e afirma que o sucesso é resultado da mistura.

“O que estou seguro é que necessitamos dessa explosão de Pablo [Fernández] e Jorge [Sampaoli] para poder triunfar em alguns momentos”, diz.

Jorge Desio já teve ofertas para trabalhar em outras comissões técnicas, mas sempre recusou. A dobradinha com o colega e amigo Jorge Sampaoli o seduz mais até do que iniciar uma carreira solo.

Bom para o Santos e para Sampaoli, cujos rompantes de fúria encontrarão sempre o equilíbrio em Desio.

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