Brasileiro de 15 anos e seu pai morreram em bombardeio no Líbano, enquanto trabalhavam em sua fábrica familiar no Vale do Bekaa. A morte de Ali Kamal Abdallah, de 15 anos, e seu pai, Kamal Hussein Abdallah, de 64, chocou a comunidade brasileira após um foguete atingir a cidade de Kelya, no Vale do Bekaa, no Líbano.
Ambos estavam trabalhando em uma pequena fábrica de produtos de limpeza quando foram atingidos pelo ataque. Esse foi o primeiro caso registrado pelo Itamaraty de brasileiros mortos no conflito atual no Líbano, que vem se intensificando com bombardeios e ataques nos últimos dias.
Ataques no Líbano deixam marcas profundas
Ali Kamal, nascido em Foz do Iguaçu, e seu pai Kamal, de origem libanesa e naturalizado paraguaio, morreram na segunda-feira, dia 23, devido aos ferimentos causados por um foguete. A cidade de Kelya, onde a família residia, foi uma das áreas afetadas pelos bombardeios recentes que fazem parte de uma nova ofensiva militar. Esse ataque em particular atingiu a fábrica em que eles trabalhavam, levando à trágica morte de pai e filho.
Segundo a irmã de Ali, Hanan Abdallah, a família vivia no Líbano há quatro anos após deixar Foz do Iguaçu, no Paraná. “Eles morreram trabalhando na fábrica da nossa família. Foi tudo muito rápido e devastador”, contou Hanan em uma declaração emocionada.
Conflito intensificado na região
O bombardeio que tirou a vida de Kamal e Ali faz parte de uma série de ataques realizados no Vale do Bekaa, uma região que tem sido alvo constante nos últimos meses. Apenas na segunda-feira, mais de 560 pessoas morreram e cerca de 1.800 ficaram feridas em ataques que envolvem o grupo extremista Hezbollah e o exército israelense. Esse episódio marca o dia mais mortal desde o fim da guerra do Líbano, em 2006.
A família Abdallah, após morar mais de dez anos no Brasil, retornou ao Líbano buscando novas oportunidades de trabalho. No entanto, a escalada da violência no país tornou o local inseguro, como aponta Hanan: “Meu pai estava muito preocupado. Ele tentava conseguir passagens para os filhos voltarem ao Brasil. Já havia um clima de medo.” Essa tentativa de retorno ao Brasil infelizmente não aconteceu a tempo.
Outras vítimas e sobreviventes do ataque
Além de Ali e Kamal, outros membros da família também estavam presentes na casa atingida pelo bombardeio. O irmão de Ali, de 16 anos, sobreviveu ao ataque, mas ficou ferido e está profundamente abalado com o que presenciou. Ele e sua irmã mais velha, de 21 anos, que também estava na casa no momento do ataque, conseguiram escapar com vida e já estão a caminho do Brasil, onde serão acolhidos por familiares.
Um pai angustiado e a tentativa de fuga
Em entrevista, Hanan relatou que conversou com seu pai na madrugada do ataque. Durante a ligação, ele expressou a preocupação crescente com a segurança de seus filhos no Líbano e a dificuldade de encontrar passagens para tirá-los do país em meio ao caos instaurado pela guerra. “Meu pai estava angustiado. Ele queria voltar ao Brasil, mas não deu tempo. A guerra avançou rápido demais”, lamentou.
O ataque que levou à morte de Kamal e Ali aconteceu em meio a uma ofensiva maior de Israel contra o Hezbollah, grupo extremista que atua no sul do Líbano e que mantém um histórico de conflitos com Israel. Desde 2006, a tensão na região permanece alta, com períodos intercalados de confrontos diretos e bombardeios esporádicos.
A intensificação dos bombardeios
O conflito entre Israel e o Hezbollah tem raízes antigas, mas foi intensificado no final de 2023, após uma série de ataques do grupo Hamas contra Israel, que incluiu sequestros e assassinatos de civis. O Hezbollah, aliado do Hamas, começou a lançar foguetes contra Israel como forma de apoio ao grupo e aos moradores da Faixa de Gaza, o que resultou em uma escalada rápida de violência.
Na última semana, a situação piorou quando dispositivos usados pelo Hezbollah explodiram em uma ação coordenada, o que levou Israel a retaliar com bombardeios ao sul do Líbano, alegando que estava atacando “infraestruturas do Hezbollah”.
Impacto sobre a comunidade brasileira
A morte de Ali Kamal Abdallah, um adolescente de 15 anos nascido no Brasil, sensibilizou a comunidade de Foz do Iguaçu, onde a família viveu por mais de uma década. A cidade paranaense tem uma das maiores comunidades libanesas do Brasil e muitas famílias ainda mantêm fortes laços com o Líbano.
A Embaixada do Brasil no Líbano, juntamente com o Itamaraty, já está em contato com os familiares das vítimas e prestando apoio, especialmente aos filhos sobreviventes que agora retornam ao Brasil. Hanan Abdallah destacou que toda a família já planejava sair do Líbano diante da violência crescente, mas as condições de segurança e as dificuldades financeiras tornaram isso impossível no momento em que o conflito se intensificou.
Guerra aberta e incerteza no futuro
A ofensiva militar de Israel contra o Hezbollah foi justificada como uma resposta direta aos ataques do grupo extremista. Na segunda-feira, quando ocorreu o bombardeio, um total de 569 pessoas perderam a vida e 1.835 ficaram feridas em confrontos e ataques aéreos, de acordo com dados do governo libanês.
Israel declarou que a operação militar em curso visa retomar o controle da fronteira com o Líbano e garantir que os israelenses que haviam evacuado a região possam retornar a suas casas. A escalada da violência, no entanto, levantou preocupações em todo o mundo sobre a possibilidade de um novo conflito de grandes proporções no Oriente Médio.
Consequências do conflito para civis
Para as famílias que vivem nas áreas atingidas pelos bombardeios, como a de Kamal e Ali, a situação se tornou insustentável. Muitos civis libaneses se veem encurralados entre os bombardeios israelenses e as ações do Hezbollah, sem um caminho claro para a segurança.
Os ataques recentes forçaram milhares de libaneses a deixarem suas casas e buscar abrigo em áreas mais afastadas dos bombardeios. No entanto, com a rápida deterioração da segurança no país, essas famílias enfrentam uma realidade difícil, sem garantia de que poderão voltar para suas residências ou continuar com suas vidas de forma segura.
Um cenário de incertezas
O desfecho desse conflito ainda é incerto, e a morte de Ali e Kamal Abdallah ilustra o impacto devastador que esses confrontos têm sobre as vidas de civis comuns. Com as tensões aumentando e as operações militares se intensificando, muitos no Líbano e em Israel temem que a situação possa se agravar ainda mais antes de qualquer resolução pacífica ser alcançada.
O retorno dos filhos sobreviventes de Kamal ao Brasil traz um pouco de alívio à família, mas a dor de perder dois entes queridos em um ataque brutal é irreparável. “Estamos tentando lidar com o choque, mas nada pode trazer meu pai e meu irmão de volta”, concluiu Hanan.

