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Gerard Piqué, ex-zagueiro do Barcelona e ícone do futebol espanhol, viveu um momento de forte emoção ao prestar depoimento na sexta-feira, 14 de março de 2025, em Majadahonda, perto de Madri. Convocado como investigado em um processo que apura possíveis irregularidades na transferência da Supercopa da Espanha para a Arábia Saudita, ele negou qualquer ilegalidade em sua atuação como intermediário no acordo. Aos prantos, Piqué afirmou que deveria ser celebrado por seu papel na negociação, que rendeu 320 milhões de euros à Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) ao longo de uma década. A investigação, conduzida pela juíza Delia Rodrigo, coloca em xeque os 4 milhões de euros anuais pagos à Kosmos, empresa do ex-jogador, enquanto ele ainda atuava como atleta do clube catalão, participante do torneio. O caso, que envolve também o ex-presidente da RFEF Luis Rubiales, ganhou contornos de escândalo após revelações de áudios e documentos em 2022.

O depoimento de Piqué durou quase duas horas e foi marcado por uma defesa enfática de sua conduta. Ele explicou que atuou como agente da empresa saudita Sela Sport, não da RFEF, e que o acordo foi inicialmente selado por um “pacto de cavalheiros” verbal, antes de ser formalizado. Segundo o ex-jogador, a Kosmos foi essencial para viabilizar a mudança da competição para o país árabe, garantindo um contrato lucrativo que beneficiou o futebol espanhol. Ele também lamentou o impacto na sua reputação, destacando que, em vez de críticas, merecia reconhecimento por trazer uma das maiores receitas da história da federação.

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A presença de Piqué no tribunal atraiu dezenas de jornalistas e curiosos, mas ele evitou falar com a imprensa ao chegar e sair do local. Vestido com um terno escuro, o ex-atleta entrou em silêncio, acompanhado de seus advogados, que entregaram documentos, incluindo faturas que somam mais de 10 milhões de euros cobrados do governo saudita. A investigação segue em fase preliminar, mas o caso já reacende debates sobre ética no esporte e os limites entre negócios e atuação profissional no futebol.

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Negociação sob suspeita: o papel da Kosmos no acordo

A transferência da Supercopa da Espanha para a Arábia Saudita, iniciada em 2020, marcou uma mudança radical na tradição do torneio, disputado desde 1982 em solo espanhol. O acordo, assinado em 2019 entre a RFEF, então presidida por Luis Rubiales, e a Sela Sport, previa 40 milhões de euros anuais à federação por dez anos, totalizando 400 milhões de euros até 2029, com possibilidade de extensão. A Kosmos, empresa fundada por Piqué em 2017, entrou como intermediária, garantindo uma comissão de 4 milhões de euros por edição – valor que, ao fim do contrato, chegaria a 40 milhões de euros. A polêmica surgiu porque, à época, Piqué ainda era jogador ativo do Barcelona, clube que competia no torneio, levantando suspeitas de conflito de interesses.

Documentos revelados em 2022 pelo site “El Confidencial” mostraram trocas de mensagens entre Piqué e Rubiales, sugerindo que o ex-zagueiro teve influência direta nas negociações. Em um dos áudios, Rubiales teria prometido ajudar Piqué a cobrar os valores devidos pelos sauditas, chegando a cogitar romper o contrato caso o pagamento não fosse honrado. Durante o depoimento, Piqué admitiu ter pedido auxílio a Rubiales para resolver atrasos nos repasses, mas negou qualquer pagamento à federação ou ao ex-dirigente. Ele reforçou que sua relação com a Sela era legítima e que a comissão de 10% alinhava-se aos padrões do mercado de intermediação esportiva.

A juíza Delia Rodrigo, responsável pelo caso, já havia apontado em maio de 2024 indícios de “possíveis ilegalidades com implicações criminais” na atuação da Kosmos. A investigação busca esclarecer se houve corrupção ou lavagem de dinheiro, especialmente porque o contrato incluiu uma cláusula considerada “essencial” pela RFEF para garantir os pagamentos à empresa de Piqué, mesmo sendo ela formalmente contratada pelos sauditas. A apuração também solicita informações bancárias de Piqué e Rubiales na Arábia Saudita, ampliando o escopo das diligências.

Cronologia do caso: como a Supercopa chegou ao deserto

Entender a linha do tempo da transferência da Supercopa ajuda a contextualizar as acusações contra Piqué. O torneio, que tradicionalmente reunia o campeão da La Liga e da Copa do Rei, passou por uma reformulação em 2019, expandindo-se para quatro equipes e buscando novos mercados internacionais. Confira os principais marcos:

  • Setembro de 2019: RFEF, Sela Sport e Kosmos assinam o acordo inicial para levar a Supercopa à Arábia Saudita por seis anos, com opção de renovação por mais quatro.
  • Janeiro de 2020: A primeira edição no país árabe é realizada, com o Real Madrid como campeão, e Piqué ainda jogando pelo Barcelona.
  • Dezembro de 2020: O contrato é estendido até 2029, garantindo 320 milhões de euros à RFEF e 40 milhões à Kosmos.
  • 2021: Exceção à regra, a edição retorna à Espanha, na Andaluzia, devido à pandemia de Covid-19.
  • Abril de 2022: “El Confidencial” publica áudios e documentos que expõem a relação entre Piqué e Rubiales.
  • Maio de 2024: Piqué é formalmente indiciado pela juíza Delia Rodrigo.
  • Março de 2025: O ex-jogador depõe como investigado em Majadahonda.

A mudança para a Arábia Saudita trouxe benefícios financeiros, mas também críticas de torcedores e puristas do futebol, que viam o torneio perder sua essência local. O envolvimento de Piqué, então capitão do Barcelona, intensificou o debate sobre a ética de um atleta lucrar com uma competição na qual participava.

Piqué no banco dos réus: o que ele disse à juíza

No tribunal, Piqué apresentou uma narrativa detalhada sobre sua participação no acordo. Ele afirmou que as negociações começaram após um contato inicial com Fernando Soler, empresario do tênis, que o conectou à Sela Sport. Segundo o ex-zagueiro, o acerto com os sauditas foi verbal no início, baseado em confiança mútua, e só depois formalizado em contrato. Ele destacou que a Kosmos trabalhou para encontrar o melhor destino para a Supercopa, considerando opções como Estados Unidos, China e Japão, antes de fechar com a Arábia Saudita.

Chorando nos minutos finais do depoimento, Piqué expressou frustração com as acusações. Ele disse estar orgulhoso de ter negociado o que considera o “melhor contrato da história da RFEF” e lamentou o “dano reputacional” causado pela cobertura midiática nos últimos três anos. O ex-jogador negou ter pago qualquer quantia a Rubiales ou à federação, reforçando que sua remuneração veio exclusivamente da Sela Sport. Seus advogados entregaram faturas que comprovariam os serviços prestados ao governo saudita, totalizando mais de 10 milhões de euros até o momento.

A defesa de Piqué também rebateu a ideia de conflito de interesses, argumentando que ele não representava a RFEF nem influenciou decisões em favor do Barcelona. Ainda assim, a juíza segue analisando se a posição de Piqué como jogador ativo comprometeu a imparcialidade do processo, especialmente diante da cláusula que assegurava os pagamentos à Kosmos.

Luis Rubiales: o outro lado da investigação

Luis Rubiales, ex-presidente da RFEF, é uma figura central no caso. Sob seu comando, a federação assinou o acordo com a Arábia Saudita, mas sua gestão foi marcada por controvérsias, incluindo sua saída em 2023 após o escândalo do beijo forçado na jogadora Jenni Hermoso durante a premiação da Copa do Mundo Feminina. Na investigação da Supercopa, Rubiales é suspeito de ter facilitado os pagamentos à Kosmos em troca de benefícios pessoais, embora Piqué tenha negado qualquer repasse ao ex-dirigente.

Áudios divulgados em 2022 mostram Rubiales prometendo apoio a Piqué para cobrar os sauditas, incluindo a ameaça de romper o contrato caso os pagamentos atrasassem. Em depoimentos anteriores, Rubiales defendeu a legalidade do acordo, afirmando que a Kosmos foi contratada pelos sauditas, não pela RFEF, e que os 40 milhões de euros anuais fortaleceram as finanças da federação. A investigação, porém, busca provas de que ele e Piqué possam ter agido em conluio, violando normas éticas do futebol espanhol.

A relação entre os dois, que já eram próximos antes do acordo, alimenta as suspeitas. Rubiales chegou a oferecer à Kosmos um “mandato de exclusividade” para buscar outros mercados para a Supercopa, mas a escolha final pela Arábia Saudita, com a empresa de Piqué como intermediária, levantou questionamentos sobre a transparência do processo.

Repercussão no futebol: o que dizem os críticos

A transferência da Supercopa para a Arábia Saudita gerou reações mistas desde o início. Enquanto a RFEF celebrou os ganhos financeiros, torcedores e analistas criticaram a perda de identidade do torneio e o envolvimento de Piqué como jogador e empresário. Para muitos, sua dupla função representou um claro conflito de interesses, especialmente porque o Barcelona, seu clube, se beneficiou diretamente da competição ao disputá-la em solo saudita.

Entre as principais críticas estão:

  • Falta de transparência: O acordo foi negociado sem ampla consulta aos clubes ou divulgação pública inicial.
  • Ética questionável: Piqué lucrou com um torneio no qual jogava, o que vai contra códigos de conduta de várias federações esportivas.
  • Precedente perigoso: A participação de atletas em negócios desse porte pode abrir brechas para abusos no futuro.

Apesar das controvérsias, o torneio segue sendo disputado na Arábia Saudita, com a edição de janeiro de 2025 marcada para Riad, envolvendo Real Madrid, Mallorca, Athletic Bilbao e Barcelona. A audiência do evento cresceu globalmente, mas o preço pago pela RFEF em termos de imagem ainda é debatido.

Impactos na carreira de Piqué: do campo aos negócios

Gerard Piqué, que se aposentou do futebol em novembro de 2022, construiu uma carreira sólida como jogador, com títulos como a Copa do Mundo de 2010 e cinco Ligas dos Campeões pelo Barcelona. Fora das quatro linhas, ele se destacou como empreendedor, fundando a Kosmos, que além da Supercopa, organiza a Kings League, uma competição alternativa de futebol 7 que ganhou popularidade. O caso da Supercopa, no entanto, lançou uma sombra sobre sua transição para o mundo dos negócios.

A investigação pode afetar sua credibilidade como empresário, especialmente em um momento em que ele busca expandir seus projetos esportivos. Durante o depoimento, Piqué deixou claro que vê o acordo como um marco positivo em sua trajetória, mas o desgaste público é inegável. Ele já enfrentou críticas por outras polêmicas, como sua separação de Shakira em 2022, e agora lida com um escrutínio ainda maior por parte da justiça e da opinião pública.

O ex-zagueiro também tem se mantido ativo socialmente. Recentemente, foi visto em São Paulo na festa de Rafaella Santos, irmã de Neymar, mostrando que sua vida pessoal segue em destaque enquanto o processo judicial avança. A combinação de sucesso empresarial e controvérsias mantém Piqué como uma figura polarizadora no esporte e além dele.

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O futuro do caso: próximos passos da investigação

A investigação da Supercopa está longe de terminar. Após o depoimento de Piqué, a juíza Delia Rodrigo deve analisar os documentos apresentados pela defesa e os dados bancários solicitados às autoridades sauditas. A expectativa é que o caso avance para uma decisão até o final de 2025, podendo resultar em acusações formais contra Piqué, Rubiales e outros envolvidos, como Francisco Javier Martín Alcaide, amigo de Rubiales, e membros do jurídico da RFEF.

Enquanto isso, a RFEF segue sob nova gestão, com Pedro Rocha no comando desde 2024, tentando restaurar a confiança no futebol espanhol. O acordo com a Arábia Saudita permanece em vigor, mas o escândalo reacendeu discussões sobre a necessidade de maior regulação em negócios esportivos. Para Piqué, o desfecho do processo será crucial para definir como sua passagem do gramado aos bastidores será lembrada.

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