Pular para o conteúdo
Menu
Mix Vale

Uma prática perigosa conhecida como “desafio do desodorante” tem circulado no TikTok, levando crianças e adolescentes a inalar grandes quantidades de aerossol em busca de supostos efeitos alucinógenos ou para cumprir desafios virais. Essa tendência, que incentiva a inalação prolongada de produtos químicos tóxicos, já resultou em tragédias no Brasil e no mundo, com casos de paradas cardiorrespiratórias e mortes registradas. No Brasil, pelo menos duas crianças morreram em 2025 após participarem do desafio, reacendendo o debate sobre a segurança nas redes sociais e a exposição de menores a conteúdos de risco. A Polícia Civil de diferentes estados investiga como esses vídeos são disseminados e quem são os responsáveis por sua criação, enquanto pais e especialistas pedem maior controle sobre o que circula nas plataformas digitais.

O desafio consiste em inalar o gás de desodorantes em aerossol pelo maior tempo possível, muitas vezes com o objetivo de “vencer” uma competição entre amigos ou ganhar destaque nas redes. A prática, porém, é extremamente perigosa devido à composição química dos aerossóis, que contêm substâncias como etanol, butano e propano. Essas substâncias, ao chegarem aos pulmões, podem causar inflamações graves, asfixia ou arritmias cardíacas, levando a consequências fatais em poucos minutos. Casos recentes no Distrito Federal e em Pernambuco expuseram a gravidade do problema, com vítimas de apenas 8 e 11 anos.

A facilidade de acesso a desodorantes, presentes na maioria dos lares, torna o desafio ainda mais preocupante. Diferentemente de substâncias controladas, esses produtos estão ao alcance de crianças, que muitas vezes não compreendem os riscos envolvidos. A disseminação de vídeos no TikTok amplifica o problema, já que o algoritmo da plataforma pode promover conteúdos virais sem filtros rigorosos, alcançando rapidamente um público jovem e impressionável.

Primeiros casos e impacto imediato

No início de abril de 2025, uma menina de 11 anos, Brenda Sophia Melo de Santana, faleceu em Bom Jardim, Pernambuco, após inalar desodorante aerossol. Ela foi encontrada por familiares em seu quarto, com sinais de parada cardiorrespiratória, ao lado de um frasco do produto. Apesar de ter sido levada ao hospital, não resistiu. Dias depois, no Distrito Federal, outra tragédia chocou o país: Sarah Raíssa Pereira, de 8 anos, também morreu após participar do mesmo desafio. Socorrida após uma parada cardiorrespiratória, ela chegou ao hospital, mas teve morte cerebral constatada três dias depois.

Esses casos, embora recentes, não são isolados. Nos últimos anos, o Brasil registrou pelo menos 27 mortes de crianças e adolescentes ligadas a desafios perigosos nas redes sociais até 2021, segundo dados de organizações voltadas à segurança infantil. A prática do desafio do desodorante, em particular, ganhou força com a popularização do TikTok, onde vídeos curtos e chamativos atraem milhões de visualizações em poucas horas.

A Polícia Civil de Pernambuco e do Distrito Federal abriu inquéritos para investigar as circunstâncias das mortes. No caso de Sarah, o celular da vítima foi apreendido para análise, e as autoridades buscam identificar se ela teve acesso a vídeos específicos do desafio e quem os produziu. A plataforma TikTok já foi notificada para colaborar com as investigações, mas a responsabilidade pela disseminação de conteúdos perigosos continua sendo um ponto de debate.

  • Inalação de aerossol: Substâncias químicas causam danos imediatos aos pulmões e ao coração.
  • Público jovem: Crianças são as principais vítimas devido à curiosidade e falta de supervisão.
  • Redes sociais: Algoritmos promovem vídeos virais sem controle rigoroso de conteúdo.
Tiktok
Tiktok – Foto:JarTee/Shutterstock.com

Riscos químicos do desafio

Inalar desodorante aerossol é uma prática que pode parecer inofensiva à primeira vista, mas seus efeitos no organismo são devastadores. A composição desses produtos inclui solventes voláteis, como butano e propano, que substituem o oxigênio nos pulmões quando inalados em grandes quantidades. Essa substituição impede a oxigenação adequada do sangue, levando a sintomas como tontura, desmaios e, em casos graves, parada cardiorrespiratória.

O etanol, presente em concentrações de até 90% em alguns desodorantes, também representa um risco significativo. Ao ser inalado, ele provoca inflamação nas vias respiratórias e pode desencadear uma reação em cadeia que afeta o coração. Especialistas explicam que a substância atinge rapidamente a corrente sanguínea, causando arritmias que podem levar à morte em poucos minutos. Além disso, o ácido clorídrico, usado como agente antisséptico em alguns produtos, pode queimar tecidos internos, agravando o quadro.

Outro fator preocupante é a acessibilidade dos produtos usados no desafio. Diferentemente de drogas ilícitas, desodorantes estão disponíveis em qualquer supermercado ou farmácia, muitas vezes por menos de R$ 10. Essa facilidade, combinada com a falta de informação sobre os perigos, faz com que crianças vejam a prática como uma brincadeira inofensiva, sem perceberem que estão colocando suas vidas em risco.

Casos anteriores e histórico do problema

O desafio do desodorante não é uma novidade. Em 2018, uma menina de 7 anos, Adrielly Gonçalves, morreu em São Bernardo do Campo, São Paulo, após inalar aerossol inspirada por vídeos na internet. Dois anos depois, em 2020, um menino de 10 anos perdeu a vida em Belo Horizonte em circunstâncias semelhantes. Em 2022, a morte de Iarlen Augusto, de 12 anos, em Salinópolis, Pará, reforçou a gravidade do problema, com a vítima encontrada desacordada ao lado de um frasco de desodorante.

Fora do Brasil, casos semelhantes também foram registrados. Em 2023, uma adolescente de 13 anos morreu na Austrália após participar do desafio, e, no mesmo ano, um menino de 11 anos faleceu no Reino Unido. Esses incidentes mostram que o problema transcende fronteiras, alimentado pela disseminação global de conteúdos perigosos nas redes sociais. A Organização Mundial da Saúde classifica práticas como o desafio do desodorante como “jogos perigosos”, listados como distúrbios comportamentais desde 2019.

A repetição desses casos ao longo dos anos evidencia a dificuldade em conter a disseminação de desafios virais. Apesar de esforços para remover conteúdos perigosos, novos vídeos continuam surgindo, muitas vezes criados por jovens que desconhecem os riscos ou buscam notoriedade online. A falta de regulamentação eficaz nas plataformas digitais agrava o cenário, deixando pais e autoridades em alerta constante.

Como o desafio se espalha nas redes

O TikTok, com mais de 1 bilhão de usuários ativos em todo o mundo, é uma das principais plataformas onde o desafio do desodorante tem circulado. A estrutura de vídeos curtos, com duração média de 15 a 60 segundos, facilita a viralização de conteúdos que chamam a atenção pela ousadia ou pelo choque. O algoritmo da plataforma, projetado para maximizar o engajamento, muitas vezes promove esses vídeos antes que sejam identificados como perigosos.

Crianças e adolescentes são especialmente vulneráveis a esses conteúdos. Um estudo apontou que cerca de 40% dos criadores de vídeos relacionados a desafios perigosos, como o do desodorante, são menores de idade. A combinação de curiosidade, pressão social e desejo de aceitação faz com que muitos jovens participem sem questionar as consequências. Além disso, a falta de supervisão parental durante o uso da internet aumenta o risco de exposição a conteúdos inadequados.

As autoridades brasileiras já notificaram o TikTok em casos recentes, exigindo informações sobre os criadores e a disseminação dos vídeos. A plataforma, por sua vez, afirma que remove conteúdos que violam suas diretrizes, mas a velocidade com que novos vídeos aparecem dificulta o controle. Esse ciclo de criação, viralização e remoção destaca a necessidade de medidas mais proativas para proteger usuários jovens.

  • Algoritmo do TikTok: Promove conteúdos virais rapidamente, incluindo desafios perigosos.
  • Público-alvo: Crianças e adolescentes são mais suscetíveis à influência de vídeos curtos.
  • Resposta da plataforma: Remoção de conteúdos ocorre, mas novos vídeos surgem constantemente.

Impacto nas famílias e comunidades

As mortes causadas pelo desafio do desodorante deixam marcas profundas nas famílias e nas comunidades. Em Ceilândia, no Distrito Federal, a família de Sarah Raíssa Pereira abriu uma vaquinha online para custear o funeral, já que não tinha condições financeiras para arcar com as despesas. A perda da menina de 8 anos gerou comoção na região, com vizinhos e amigos compartilhando mensagens de apoio nas redes sociais.

Em Bom Jardim, Pernambuco, a morte de Brenda Sophia também abalou a cidade. Familiares relataram que a menina era alegre e curiosa, características que a levaram a experimentar o desafio sem compreender os riscos. A tragédia reforçou a importância de conversas abertas entre pais e filhos sobre o uso da internet, mas também expôs a dificuldade de monitorar o que as crianças acessam em seus celulares.

Esses casos têm gerado debates sobre a responsabilidade das plataformas digitais e a necessidade de educação digital nas escolas. Muitas famílias, especialmente em áreas periféricas, enfrentam barreiras para supervisionar o uso da internet, seja por falta de tempo, conhecimento ou acesso a recursos. Esse cenário destaca a urgência de políticas públicas que promovam a segurança online para crianças.

Ação das autoridades e investigações

A Polícia Civil tem atuado para esclarecer os casos e responsabilizar os envolvidos na criação e disseminação do desafio do desodorante. No Distrito Federal, as investigações sobre a morte de Sarah Raíssa focam na análise do celular da vítima, que pode revelar como ela acessou o conteúdo e se houve incentivo direto de outros usuários. Os responsáveis pela publicação dos vídeos podem responder por homicídio duplamente qualificado, com penas que chegam a 30 anos de prisão, devido ao uso de meios perigosos e à vítima ser menor de 14 anos.

Em Pernambuco, o caso de Brenda Sophia ainda é tratado como “morte a esclarecer”, mas os laudos do Instituto Médico Legal devem confirmar se a inalação de aerossol foi a causa principal. A polícia também busca identificar padrões na disseminação dos vídeos, incluindo possíveis redes de criadores que promovem desafios perigosos. A notificação ao TikTok é parte de um esforço para rastrear a origem dos conteúdos e evitar novos casos.

Além das investigações criminais, autoridades têm cobrado maior responsabilidade das plataformas digitais. A falta de moderação eficaz de conteúdos é um problema recorrente, e casos como o do desafio do desodorante reforçam a necessidade de regulamentações mais rígidas. Parlamentares já discutem projetos de lei para aumentar a fiscalização sobre redes sociais, mas a implementação de medidas concretas ainda é lenta.

Medidas preventivas para pais

Proteger crianças de desafios perigosos exige um esforço conjunto entre famílias, escolas e plataformas digitais. Pais podem adotar algumas estratégias para minimizar os riscos, começando por conversas abertas sobre o uso da internet. Explicar os perigos de vídeos virais e incentivar o pensamento crítico ajuda as crianças a questionarem conteúdos antes de segui-los.

Monitorar o tempo de uso do celular também é essencial. Aplicativos de controle parental permitem limitar o acesso a plataformas como o TikTok e bloquear conteúdos inadequados. Além disso, manter os dispositivos em áreas comuns da casa, como a sala, reduz a chance de as crianças acessarem vídeos perigosos sem supervisão.

Outras medidas incluem:

  • Configurar restrições de idade no TikTok e outras redes sociais.
  • Acompanhar os perfis seguidos e os vídeos curtidos pelas crianças.
  • Ensinar os filhos a relatar conteúdos perigosos diretamente nas plataformas.

Cronograma de casos no Brasil

Os registros de mortes ligadas ao desafio do desodorante no Brasil mostram a recorrência do problema:

  • 2018: Menina de 7 anos morre em São Bernardo do Campo, São Paulo.
  • 2020: Menino de 10 anos falece em Belo Horizonte, Minas Gerais.
  • 2022: Adolescente de 12 anos morre em Salinópolis, Pará.
  • 2025: Duas crianças, de 8 e 11 anos, morrem em abril, no Distrito Federal e em Pernambuco.

Impacto global do problema

Além do Brasil, o desafio do desodorante e práticas semelhantes, como o “chroming”, têm causado preocupação em outros países. No Reino Unido, um menino de 12 anos sobreviveu por pouco após inalar aerossol em 2024, enquanto na Austrália, uma adolescente de 13 anos morreu em 2023. Esses casos levaram governos a pressionarem plataformas como o TikTok por mais transparência na moderação de conteúdos.

A prática do chroming, que envolve a inalação de outros produtos como esmaltes e sprays de tinta, é uma variação do desafio do desodorante e apresenta riscos semelhantes. Nos Estados Unidos, famílias já processaram o TikTok por mortes ligadas a desafios virais, como o “blackout challenge”, que incentivava a asfixia. Esses processos destacam a dificuldade de responsabilizar plataformas por conteúdos gerados por usuários.

A Organização Mundial da Saúde alerta que os “jogos perigosos” nas redes sociais são um problema de saúde pública, especialmente entre jovens. A classificação dessas práticas como distúrbios comportamentais reforça a necessidade de campanhas globais de conscientização, mas a implementação de medidas práticas varia entre os países.

Desafios para as plataformas digitais

Controlar a disseminação de desafios perigosos é uma tarefa complexa para plataformas como o TikTok. Com bilhões de vídeos carregados diariamente, a moderação manual é inviável, e os sistemas automatizados muitas vezes falham em identificar conteúdos de risco antes que se tornem virais. A pressão de anunciantes e reguladores tem levado a melhorias, mas o problema persiste.

O TikTok já removeu vídeos do desafio do desodorante em resposta a denúncias, mas a reincidência de conteúdos semelhantes mostra que as medidas atuais não são suficientes. Algumas propostas incluem limitar a visibilidade de vídeos de usuários menores de idade e investir em inteligência artificial para detectar padrões de comportamento perigoso. No entanto, essas soluções ainda estão em fase inicial.

A responsabilidade compartilhada entre plataformas, pais e governos é um ponto central do debate. Enquanto as redes sociais lucram com o engajamento, as consequências de conteúdos perigosos recaem sobre as famílias, que muitas vezes não têm recursos para lidar com as tragédias. Esse desequilíbrio alimenta críticas à indústria digital e aumenta a demanda por mudanças estruturais.

O papel da educação digital

Ensinar crianças e adolescentes a navegar com segurança na internet é uma prioridade urgente. Escolas podem desempenhar um papel fundamental ao incluir educação digital em seus currículos, abordando temas como a influência das redes sociais e os riscos de desafios virais. Oficinas para pais também são uma estratégia eficaz, ajudando-os a entender as plataformas que seus filhos usam.

Programas governamentais voltados à segurança online têm sido implementados em alguns estados brasileiros, mas a cobertura ainda é limitada. Em São Paulo, por exemplo, iniciativas em escolas públicas já abordam os perigos das redes sociais, mas a falta de recursos impede a expansão para outras regiões. A colaboração com ONGs também pode ampliar o alcance dessas ações, oferecendo materiais educativos acessíveis.

A conscientização coletiva é outro fator importante. Campanhas nas próprias redes sociais, com influenciadores alertando sobre os riscos, podem alcançar o público jovem de forma mais eficaz do que mensagens institucionais. Essa abordagem, aliada a políticas públicas robustas, pode reduzir a incidência de tragédias como as causadas pelo desafio do desodorante.

Notícias relacionadas

Mais lidas

  1. Destaques

    Polícia descarta investigar por homicídio namorado de jovem que caiu do 7º andar

  2. Destaques

    Júnior Bauru tem Porsche cercado na Lagoa e assaltante acaba baleado no Rio de Janeiro

  3. Destaques

    Detran-RJ emite Carteira de Identificação da Mãe Atípica sem custo

  4. Receita Federal

    Saiba como será o Split Payment: reforma tributária divide imposto na hora da compra e muda rotina de empresas no Brasil

  5. Economia

    Gasolina com 35% de etanol: testes do governo avaliam mistura e mecânicos alertam para riscos em carros no Brasil

  6. Brasil

    Fibras de pitanga e cambuci reduzem a viabilidade de células de câncer colorretal em laboratório, diz USP

  7. Destaques

    Bob Dylan se encontra com o Papa Leão XIV no Vaticano após mediação cultural

  8. Destaques

    Tornado no Aeroporto de Chapecó atinge 126 km/h, arranca teto de terminal e cancela voos em Santa Catarina

  9. Destaques

    Janaína Barbosa, ex-apresentadora do TV Fama, morre aos 48 anos em São Paulo

  10. Serasa

    Feirão Limpa Nome da Serasa oferece descontos de até 99% para quitar dívidas no Brasil até 6 de dezembro

Sua privacidade

O Mix Vale usa cookies para medir audiência e exibir anúncios que sustentam a redação. Você escolhe. Política de privacidade.