Conclave 2025: 9 nomes cotados para suceder papa Francisco após sua morte

Papa Francisco

Papa Francisco - Foto: Riccardo De Luca - Update / Shutterstock.com

A morte do papa Francisco, aos 88 anos, na segunda-feira, 21 de abril de 2025, marcou o fim de um pontificado marcado por reformas, diálogo inter-religioso e defesa da justiça social. Francisco, o primeiro papa latino-americano, faleceu devido a um acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca, conforme informado pelo Vaticano. Agora, a Igreja Católica inicia um período de transição, conhecido como Sé Vacante, enquanto o Colégio dos Cardeais se prepara para o conclave, que deve começar entre 15 e 20 dias. Durante esse período, decisões urgentes ficam a cargo dos cardeais, e o mundo observa quem será o próximo líder de 1,4 bilhão de católicos. Entre os 135 cardeais aptos a votar, sete são brasileiros, mas nenhum aparece entre os principais cotados.

O conclave, que ocorre na Capela Sistina, é um processo sigiloso e ritualístico, no qual os cardeais elegem o novo papa por maioria de dois terços. A escolha reflete não apenas questões teológicas, mas também prioridades globais, como a crescente influência do catolicismo no Sul Global, a secularização na Europa e os desafios éticos contemporâneos. Francisco deixou um legado de abertura, mas também divisões internas, especialmente entre setores progressistas e conservadores. O próximo papa enfrentará o desafio de unir a Igreja enquanto lida com questões como mudanças climáticas, inclusão de minorias e escândalos de abuso sexual.

Nomes de diferentes continentes estão entre os cotados, refletindo a diversidade da Igreja. Cardeais da Europa, Ásia, África e América do Norte aparecem como favoritos, cada um com trajetórias e visões distintas. A escolha pode sinalizar continuidade das reformas de Francisco ou um retorno a posturas mais tradicionais. A seguir, apresentamos os principais candidatos ao papado, suas trajetórias e o que representam para o futuro da Igreja.

  • Jean-Marc Aveline: Arcebispo de Marselha, francês, 66 anos, conhecido por sua simplicidade e proximidade com as ideias de Francisco.
  • Peter Erdo: Cardeal húngaro, 72 anos, conservador com experiência em evangelização.
  • Mario Grech: Maltês, 68 anos, defensor das reformas de Francisco no Sínodo dos Bispos.
  • Juan Jose Omella: Arcebispo de Barcelona, espanhol, 79 anos, focado em justiça social.
  • Pietro Parolin: Italiano, 70 anos, atual secretário de Estado do Vaticano.
  • Luis Antonio Tagle: Filipino, conhecido como “Francisco Asiático”, com forte apelo pastoral.
  • Joseph Tobin: Americano, 72 anos, aberto à inclusão de pessoas LGBTQIA+.
  • Peter Turkson: Ganês, 76 anos, candidato a ser o primeiro papa africano.
  • Matteo Zuppi: Italiano, 69 anos, chamado de “Bergoglio italiano” por sua proximidade com os pobres.

Perfil de Jean-Marc Aveline: um francês progressista

Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, é um dos nomes mais associados ao legado de Francisco. Aos 66 anos, ele combina simplicidade, humor e um forte compromisso com o diálogo inter-religioso, especialmente com o islamismo. Nascido na Argélia, de uma família de imigrantes espanhóis, Aveline cresceu em Marselha, uma cidade multicultural, o que moldou sua visão inclusiva. Sua trajetória na Igreja foi impulsionada por Francisco, que o nomeou bispo em 2013, arcebispo em 2019 e cardeal em 2022.

Aveline se destaca por sua defesa da imigração, uma prioridade de Francisco, e por sua habilidade em organizar eventos de grande impacto, como a conferência mediterrânea de 2023, que reuniu líderes religiosos e teve o papa como convidado principal. Com doutorado em teologia e graduação em filosofia, ele é um intelectual respeitado, mas mantém uma abordagem acessível. Se eleito, seria o primeiro papa francês desde o século XIV, trazendo uma perspectiva europeia, mas alinhada às reformas progressistas.

Sua juventude relativa, em comparação com outros cardeais, é um ponto a favor, já que a Igreja pode buscar um líder com energia para um pontificado longo. No entanto, sua falta de experiência em cargos centrais no Vaticano pode ser um obstáculo, já que muitos cardeais preferem alguém com maior familiaridade com a Cúria Romana. Ainda assim, Aveline representa a continuidade do espírito reformador de Francisco, com foco em inclusão e diálogo global.

Peter Erdo: o conservador pragmático da Hungria

Peter Erdo, cardeal húngaro de 72 anos, é uma figura conhecida no Colégio dos Cardeais desde o conclave de 2013, quando já era cotado como possível papa. Especialista em direito canônico, Erdo se tornou bispo aos 40 anos e cardeal aos 51, em 2003, sendo o membro mais jovem do Colégio na época. Sua experiência em evangelização, especialmente na Europa secularizada, o torna um candidato atraente para cardeais que buscam reacender a fé no continente.

Apesar de sua inclinação conservadora, Erdo é visto como pragmático, evitando conflitos diretos com Francisco. Sua postura durante a crise migratória de 2015, no entanto, gerou controvérsia. Enquanto Francisco pedia que as igrejas acolhessem refugiados, Erdo sugeriu que isso poderia ser interpretado como tráfico de pessoas, alinhando-se parcialmente ao governo nacionalista húngaro. Essa posição pode dividir opiniões no conclave, especialmente entre cardeais do Sul Global, onde a imigração é uma questão sensível.

Erdo tem amplos contatos na África e na Europa, o que fortalece sua candidatura. Sua ênfase nas raízes cristãs da Europa ressoa com setores mais tradicionais da Igreja, mas sua habilidade em dialogar com diferentes alas pode atrair votos de cardeais que buscam um equilíbrio entre conservadorismo e modernidade.

Mario Grech: a voz das reformas de Malta

Mario Grech, de 68 anos, é um nome que ganhou destaque sob o pontificado de Francisco. Nascido na pequena ilha de Gozo, em Malta, ele é o atual secretário-geral do Sínodo dos Bispos, um cargo estratégico que o coloca no centro das reformas sinodais de Francisco. Grech evoluiu de uma postura inicialmente conservadora para se tornar um defensor da inclusão, especialmente em relação às pessoas LGBTQIA+.

Em 2014, durante um discurso no Vaticano, Grech pediu que a Igreja fosse mais acolhedora com seus membros LGBT, uma posição que recebeu elogios diretos de Francisco. Sua trajetória reflete a capacidade de adaptação, uma qualidade valorizada em um conclave que pode buscar um líder capaz de navegar divisões internas. Como maltês, Grech representa uma perspectiva periférica, mas sua experiência no Vaticano o torna familiar com os desafios administrativos da Igreja.

  • Origem humilde: Grech vem de uma ilha com menos de 40 mil habitantes, o que reforça sua imagem de simplicidade.
  • Reformas sinodais: Como secretário do Sínodo, ele ajudou a implementar o modelo de consulta ampla de Francisco.
  • Apoio de Francisco: Sua proximidade com o papa pode atrair votos de cardeais progressistas.
Cardeal Mario Grech – Foto: Divulgação

Juan Jose Omella: o espanhol da justiça social

Juan Jose Omella, arcebispo de Barcelona, é um cardeal de 79 anos cuja trajetória reflete os valores de simplicidade e compromisso com os pobres defendidos por Francisco. Nascido em uma vila no nordeste da Espanha, Omella dedicou sua carreira ao cuidado pastoral e à promoção da justiça social. Sua experiência como missionário no Zaire (atual República Democrática do Congo) e sua colaboração com a ONG Manos Unidas, que combate a pobreza, destacam seu foco em causas humanitárias.

Promovido a cardeal em 2016, Omella é visto como um progressista em um país onde a Igreja espanhola historicamente teve forte influência conservadora. Sua idade avançada pode ser um obstáculo, já que os cardeais muitas vezes preferem um papa mais jovem para um pontificado longo. Ainda assim, sua humildade e alinhamento com as prioridades de Francisco o tornam um candidato respeitado.

Omella já declarou que a Igreja deve olhar para o mundo pelos olhos dos pobres, uma visão que ecoa o pontificado de Francisco. Sua capacidade de dialogar com diferentes setores da sociedade espanhola, incluindo os mais secularizados, pode ser um trunfo em um conclave que busca um líder capaz de enfrentar a secularização global.

Pietro Parolin: o diplomata favorito

Pietro Parolin, de 70 anos, é o atual secretário de Estado do Vaticano, um cargo que o coloca como o “vice-papa” na hierarquia da Igreja. Italiano, Parolin é um diplomata experiente, com passagens como embaixador do Vaticano na Venezuela e arquiteto de acordos com a China e o Vietnã. Sua habilidade em navegar questões geopolíticas complexas o torna um dos favoritos no conclave.

Parolin enfrentou críticas de setores conservadores por seu acordo com a China sobre a nomeação de bispos, mas defendeu a iniciativa como um passo para evitar um cisma. Sua postura discreta nas chamadas “guerras culturais” da Igreja, como debates sobre aborto e direitos LGBT, o posiciona como um candidato de consenso, capaz de unir alas progressistas e conservadoras.

  • Experiência diplomática: Parolin serviu em diversos países, incluindo México e Nigéria.
  • Proximidade com Francisco: Como secretário de Estado, ele implementou muitas das políticas do papa.
  • Idade ideal: Aos 70 anos, ele combina experiência com vitalidade para um pontificado.
Cardeal Pietro Parolin – Foto: Divulgação

Luis Antonio Tagle: o “Francisco Asiático”

Luis Antonio Tagle, conhecido como “Chito”, é um cardeal filipino que representa a crescente influência da Ásia na Igreja. As Filipinas, com mais de 80 milhões de católicos, são um dos maiores centros católicos do mundo, e Tagle, com sua energia e carisma, é visto como um possível primeiro papa asiático. Sua ordenação como sacerdote em 1982 foi seguida por uma carreira pastoral em Imus e Manila, antes de ser nomeado cardeal em 2012.

Tagle é frequentemente comparado a Francisco por seu foco na justiça social e sua abordagem acessível. Em 2019, Francisco o transferiu para o Vaticano, onde lidera o Dicastério para a Evangelização, uma posição que ampliou sua visibilidade global. Sua origem filipino-chinesa também simboliza a diversidade cultural da Igreja.

No entanto, alguns cardeais podem hesitar em escolhê-lo devido à sua relativa falta de experiência administrativa no Vaticano. Ainda assim, sua popularidade entre os fiéis e sua habilidade em se conectar com as bases católicas o tornam um candidato forte.

Joseph Tobin: um americano improvável

Joseph Tobin, arcebispo de Newark, nos Estados Unidos, é um nome menos provável, mas relevante. Aos 72 anos, Tobin é conhecido por sua abertura às pessoas LGBTQIA+ e por sua gestão transparente no escândalo de abuso sexual envolvendo o cardeal Theodore McCarrick. Sua trajetória inclui cargos no Vaticano e uma nomeação como cardeal em 2016, sob Francisco.

Tobin, que se descreve como alcoólatra em recuperação, tem uma abordagem pastoral que ressoa com o estilo de Francisco. Sua experiência em lidar com crises na Igreja americana o torna um líder testado, mas a escolha de um papa americano é vista como improvável devido ao peso político dos Estados Unidos no cenário global.

Peter Turkson: a esperança africana

Peter Turkson, de 76 anos, é um cardeal ganês que representa a possibilidade de um papa africano, algo inédito na história da Igreja. Nascido em uma família humilde, Turkson trabalhou como arcebispo de Cape Coast e liderou o Pontifício Conselho Justiça e Paz, promovendo temas como mudanças climáticas e direitos humanos. Sua experiência pastoral e administrativa o torna um candidato versátil.

A África é uma das regiões de maior crescimento do catolicismo, e a escolha de Turkson poderia sinalizar um reconhecimento dessa realidade. Sua participação em eventos globais, como o Fórum Econômico de Davos, mostra sua capacidade de dialogar com líderes mundiais. No entanto, sua idade avançada pode ser um fator limitante.

Matteo Zuppi: o “Bergoglio italiano”

Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, é um italiano de 69 anos conhecido por sua proximidade com os pobres e migrantes. Apelidado de “Padre Matteo”, ele evita formalidades, muitas vezes usando uma bicicleta em vez de um carro oficial. Sua nomeação como presidente da Conferência Episcopal Italiana em 2022 reforçou sua influência.

Zuppi é visto como um continuador do legado de Francisco, mas enfrenta críticas de vítimas de abuso sexual, que apontam a lentidão da Igreja italiana em abordar o problema. Sua eleição seria um retorno a um papa italiano, algo que não ocorre desde 1978, e poderia agradar cardeais que buscam um líder familiar com as dinâmicas do Vaticano.

O processo do conclave: como funciona

O conclave é um dos eventos mais antigos e sigilosos da Igreja Católica. Após a morte de um papa, os cardeais com menos de 80 anos se reúnem na Capela Sistina para eleger o novo pontífice. O processo segue regras estritas, estabelecidas pelo Código de Direito Canônico e pela constituição apostólica Universi Dominici Gregis.

Os cardeais votam até que um candidato alcance dois terços dos votos. Cada votação é seguida pela queima de cédulas, com fumaça branca indicando a eleição de um novo papa e fumaça preta sinalizando que o processo continua. O conclave pode durar dias ou semanas, embora os últimos tenham sido rápidos, como o de 2013, que elegeu Francisco em dois dias.

  • Preparação: O camerlengo, atualmente o cardeal Kevin Farrell, gerencia a Sé Vacante.
  • Sigilo: Os cardeais fazem um juramento de segredo, e a Capela Sistina é isolada.
  • Anúncio: Após a eleição, o novo papa é apresentado com a frase “Habemus Papam”.

Desafios do próximo papa

O próximo papa enfrentará uma Igreja em transformação. A secularização na Europa, o crescimento do catolicismo na África e na Ásia e as tensões internas entre progressistas e conservadores são apenas alguns dos desafios. Francisco abriu debates sobre temas como a ordenação de mulheres diaconisas, o celibato clerical e a inclusão de pessoas LGBTQIA+, mas muitas questões permanecem sem resolução.

Além disso, escândalos de abuso sexual continuam a abalar a credibilidade da Igreja, exigindo um líder capaz de implementar reformas estruturais. A crise climática, uma prioridade de Francisco, também deve permanecer na agenda, assim como o diálogo com outras religiões em um mundo marcado por conflitos.

Cronograma do conclave

O processo de escolha do novo papa segue um calendário bem definido, com prazos estabelecidos pela tradição e pelo direito canônico.

  • 21 de abril de 2025: Morte do papa Francisco, início da Sé Vacante.
  • 6 a 11 de maio de 2025: Provável início do conclave, entre 15 e 20 dias após a morte.
  • Data incerta: Anúncio do novo papa, dependendo da duração do conclave.

Legado de Francisco e expectativas

Francisco transformou a Igreja com sua ênfase na simplicidade, na inclusão e na justiça social. Sua morte deixa um vazio, mas também uma Igreja mais diversa e global. O próximo papa terá a tarefa de consolidar suas reformas ou redirecionar a Igreja para um caminho mais conservador.

A escolha de um papa do Sul Global, como Tagle ou Turkson, poderia refletir a mudança demográfica do catolicismo, enquanto um europeu, como Parolin ou Zuppi, poderia reforçar a influência tradicional do continente. Independentemente do resultado, o conclave de 2025 será um momento decisivo para o futuro da Igreja Católica.

Veja Também