Papa Francisco morre aos 88 anos após luta contra pneumonia

Papa Francisco Foto: Papa Francisco - Foto: Instagram

Jorge Mario Bergoglio, conhecido mundialmente como Papa Francisco, faleceu aos 88 anos na manhã de 21 de abril de 2025, às 7h35 no horário local do Vaticano (2h35 no horário de Brasília), em sua residência na Casa Santa Marta. A morte do primeiro pontífice latino-americano e jesuíta da história da Igreja Católica foi anunciada pelo cardeal Kevin Farrell, camerlengo da Santa Sé, em um comunicado que destacou a dedicação de Francisco ao serviço da Igreja e aos mais pobres. O falecimento ocorreu após uma longa batalha contra problemas respiratórios, agravados por uma pneumonia bilateral que o levou a uma internação de 38 dias no Hospital Gemelli, em Roma, entre 14 de fevereiro e 23 de março. A saúde fragilizada do Papa, que já vivia com apenas parte de um pulmão desde os 21 anos, foi um fator determinante para o desfecho.

Francisco, nascido em Buenos Aires, Argentina, em 17 de dezembro de 1936, liderou a Igreja Católica por 12 anos, desde sua eleição em 13 de março de 2013, após a renúncia de Bento XVI. Seu pontificado foi marcado por reformas administrativas, posições progressistas em temas sociais e uma abordagem pastoral que buscava aproximar a Igreja dos fiéis. A escolha do nome Francisco, inspirada em São Francisco de Assis, refletiu desde o início sua missão de simplicidade, humildade e compromisso com os marginalizados.

O impacto de sua morte reverberou globalmente, com líderes religiosos, políticos e fiéis prestando homenagens. O Vaticano entrou em período de sede vacante, e os preparativos para o funeral e o conclave para eleger o próximo Papa já estão em andamento. A trajetória de Francisco, suas contribuições e os desafios de saúde que enfrentou nas últimas semanas são o foco desta notícia, que também revisita os feitos mais marcantes de seu papado.

Uma saúde fragilizada por décadas

A saúde de Papa Francisco foi um tema recorrente ao longo de seu pontificado, especialmente nos últimos anos. Aos 21 anos, Bergoglio enfrentou uma grave pneumonia que resultou na remoção de parte de seu pulmão direito, uma condição que o acompanhou pelo resto da vida. Essa fragilidade respiratória tornou-o mais suscetível a infecções, como a bronquite diagnosticada no início de fevereiro de 2025. O quadro evoluiu rapidamente para uma infecção polimicrobiana, que afetou ambos os pulmões, levando à sua internação no Hospital Gemelli em 14 de fevereiro.

Durante os 38 dias de internação, Francisco enfrentou momentos críticos. Em 28 de fevereiro, uma crise respiratória asmática prolongada colocou sua vida em risco, com médicos considerando a possibilidade de interromper o tratamento para permitir uma morte em paz. Apesar disso, o pontífice apresentou melhoras intermitentes, recebendo alta em 23 de março. Contudo, a necessidade de repouso absoluto e fisioterapia respiratória não foi suficiente para reverter o desgaste de seu organismo. No dia 20 de abril, Francisco fez uma aparição surpresa na Praça de São Pedro durante as celebrações de Páscoa, acenando para os fiéis, mas sua condição já indicava exaustão.

A pneumonia bilateral, agravada por insuficiência renal inicial e anemia, foi a causa oficial de sua morte. O Vaticano descreveu a infecção como “complexa”, resultante de múltiplos microrganismos, o que exigiu tratamentos intensivos, incluindo oxigenoterapia de alto fluxo e transfusões de sangue. Mesmo com cuidados médicos avançados, o corpo de Francisco, já debilitado por décadas de problemas respiratórios e outras comorbidades, como dores no quadril, não resistiu.

O impacto imediato da morte no Vaticano

A notícia do falecimento de Francisco desencadeou uma série de rituais tradicionais no Vaticano. O cardeal Kevin Farrell, responsável por administrar a Santa Sé durante o período de sede vacante, anunciou a morte em um comunicado transmitido pelo canal oficial do Vaticano. Ele destacou o legado de Francisco como um “verdadeiro discípulo do Senhor Jesus”, enfatizando sua coragem e amor universal. A Basílica de São Pedro foi fechada temporariamente, e fiéis começaram a se reunir na Praça de São Pedro para orações e vigílias.

O funeral de Francisco está previsto para ocorrer entre quatro e seis dias após sua morte, seguindo as diretrizes atualizadas pelo próprio pontífice em 2023. Diferentemente da tradição, que previa o uso de três caixões (de cipreste, chumbo e carvalho), Francisco será sepultado em um único caixão de madeira e zinco, refletindo sua preferência por simplicidade. Ele também expressou o desejo de ser enterrado na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, rompendo com a prática de sepultamento nas Grutas Vaticanas, sob a Basílica de São Pedro.

  • Período de luto: O Vaticano observará nove dias de novemdiales, um período oficial de luto.
  • Conclave iminente: Entre 15 e 20 dias após a morte, cerca de 120 cardeais com menos de 80 anos se reunirão para eleger o novo Papa.
  • Sepultamento inovador: Caso o desejo de Francisco seja respeitado, ele será o primeiro Papa em mais de um século a ser enterrado fora do Vaticano.

Um pontificado de reformas e diálogo

O papado de Francisco foi marcado por uma abordagem inovadora, que trouxe a Igreja Católica para o centro de debates globais. Ele assumiu o comando em um momento de crise, após a renúncia de Bento XVI, a primeira em séculos. Sua eleição, em 13 de março de 2013, surpreendeu o mundo, já que Bergoglio não estava entre os favoritos. Desde o início, ele adotou um estilo simples, dispensando a limusine papal e optando por residir na Casa Santa Marta, em vez dos apartamentos papais no Palácio Apostólico.

Francisco promoveu reformas significativas na Cúria Romana, o braço administrativo do Vaticano, com foco na transparência financeira. Ele enfrentou escândalos de corrupção, como o caso do cardeal Angelo Becciu, indiciado em 2021 por desvios de milhões de euros. Além disso, o Papa tomou medidas contra a pedofilia na Igreja, levantando o segredo pontifício e exigindo que casos de abuso fossem denunciados à hierarquia eclesiástica, embora associações de vítimas tenham criticado a falta de ações mais contundentes.

Na esfera social, Francisco se destacou por posições progressistas. Ele defendeu a proteção de migrantes, chamando-a de “dever de civilização”, e criticou políticas anti-imigração, incluindo as do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O Papa também pediu a descriminalização da homossexualidade, afirmando que “ser homossexual não é crime”, e autorizou bênçãos individuais para pessoas em uniões do mesmo sexo, desde que não fossem realizadas em contexto litúrgico. Essas posturas geraram resistências entre setores conservadores da Igreja, mas ampliaram o diálogo com comunidades marginalizadas.

Principais marcos do pontificado

O legado de Francisco é vasto e multifacetado, abrangendo desde a administração eclesiástica até a diplomacia internacional. Abaixo, alguns dos feitos mais notáveis de seus 12 anos como Papa:

  • Reforma da Cúria: Reorganizou a estrutura administrativa do Vaticano, criando novos dicastérios e promovendo maior transparência financeira.
  • Diálogo inter-religioso: Fortaleceu laços com líderes muçulmanos, como o Grande Imame de Al-Azhar, e promoveu encontros ecumênicos.
  • Defesa ambiental: Publicou a encíclica Laudato Si’ (2015), um marco na defesa do meio ambiente e na crítica ao consumismo.
  • Sínodo da Sinodalidade: Convocou um processo global de consulta aos fiéis, considerado o evento mais importante da Igreja desde o Concílio Vaticano II.
  • Canonizações: Reconheceu 878 santos, incluindo os pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta Marto, canonizados em 2017.

Um líder próximo do povo

Francisco conquistou o coração de milhões com sua simplicidade e senso de humor. Logo após sua eleição, ele surpreendeu ao ligar pessoalmente para um jornaleiro em Buenos Aires, avisando que não poderia mais buscar seus jornais. Em outra ocasião, ao telefonar para um amigo jesuíta em Roma, foi confundido com um impostor, ouvindo do atendente: “Você é o Papa? E eu sou Napoleão!”. Essas histórias reforçam a imagem de um líder acessível, que preferia gestos espontâneos a protocolos rígidos.

Durante seu pontificado, Francisco realizou 47 viagens internacionais, visitando 67 países, incluindo o Brasil, em 2013, para a Jornada Mundial da Juventude, e Portugal, em 2017 e 2023, para eventos relacionados às aparições de Fátima. Suas viagens eram marcadas por encontros com comunidades pobres e mensagens de solidariedade. Ele também se reuniu com líderes políticos, como a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, em um gesto de reconciliação após tensões durante seu tempo como arcebispo de Buenos Aires.

A relação com Bento XVI, seu antecessor, foi outro aspecto notável. Apesar de visões teológicas distintas, Francisco manteve uma convivência respeitosa com o Papa Emérito, que faleceu em 2022. No funeral de Bento, Francisco o descreveu como um “amigo fiel” da Igreja, encerrando especulações sobre possíveis conflitos.

Os desafios de saúde ao longo do pontificado

Além da pneumonia que marcou seus últimos meses, Francisco enfrentou outros problemas de saúde ao longo dos anos. Em 2021, ele passou por uma cirurgia intestinal para tratar uma diverticulite, permanecendo internado por 10 dias. Dores no quadril e no joelho, agravadas pela idade, também o obrigaram a usar cadeira de rodas em diversas ocasiões. Apesar disso, o Papa resistia à ideia de renunciar, diferentemente de Bento XVI. Em sua autobiografia, Vida: Minha História Através da História, ele afirmou que só abdicaria em caso de incapacidade grave, mas preferia continuar “indo em frente”.

A internação de fevereiro a março de 2025 foi a mais longa de seu pontificado. Durante esse período, Francisco sofreu quatro crises respiratórias, duas delas críticas, e chegou a gravar um áudio agradecendo as orações dos fiéis. Sua voz, afetada pelo uso prolongado de oxigênio, exigiu fisioterapia para recuperação parcial. Mesmo após a alta, os médicos recomendaram um “estilo de vida mais calmo”, evitando grandes eventos e contatos frequentes com multidões para prevenir novas infecções.

A insistência de Francisco em manter atividades públicas, como a aparição na Páscoa, refletiu sua determinação em cumprir sua missão até o fim. No entanto, o esforço físico pode ter contribuído para o agravamento de seu estado, culminando em sua morte menos de um mês após deixar o hospital.

O processo de sucessão no Vaticano

Com a morte de Francisco, o Vaticano entra em um período de transição conhecido como sede vacante, durante o qual o cardeal camerlengo assume a administração temporária. Kevin Farrell, um irlandês de 77 anos, será responsável por organizar o funeral e coordenar os preparativos para o conclave. O decano do Colégio de Cardeais, Giovanni Battista Re, de 91 anos, presidirá as cerimônias fúnebres e a eleição do novo Papa.

O conclave, previsto para começar entre 6 e 11 de maio de 2025, reunirá cerca de 120 cardeais eleitores, quase 80% dos quais foram nomeados por Francisco. A escolha do sucessor será um processo complexo, marcado por negociações e alianças, já que a votação exige uma maioria de dois terços. Durante o período de luto, os cardeais também discutirão os desafios futuros da Igreja, como a secularização, a crise de vocações sacerdotais e as tensões entre alas progressistas e conservadoras.

  • Cronograma previsto:
    • 21 a 27 de abril: Período de novemdiales e funeral.
    • 6 a 11 de maio: Início do conclave para eleger o novo Papa.
    • Até 20 de maio: Anúncio do novo pontífice, caso o conclave seja concluído rapidamente.

Um legado que transcende a Igreja

O pontificado de Francisco foi descrito por especialistas como uma “revolução silenciosa”, que trouxe a Igreja Católica para mais perto do mundo moderno. Sua ênfase na misericórdia, na inclusão e na justiça social ressoou em um público global, mesmo entre não católicos. A encíclica Laudato Si’, por exemplo, tornou-se uma referência para ambientalistas, enquanto suas críticas ao “imperialismo do dinheiro” desafiaram líderes econômicos e políticos.

Na Argentina, Francisco foi uma figura de união, apesar de tensões com governos anteriores. Durante a ditadura militar (1976-1983), ele organizou uma rede clandestina para proteger perseguidos, conforme relatado no livro A Lista de Bergoglio, do jornalista Nello Scavo. Como arcebispo de Buenos Aires, ele também enfrentou pressões por sua oposição às leis de aborto e casamento homossexual, mas, como Papa, adotou um tom mais conciliador, promovendo o diálogo com todos os setores da sociedade.

A morte de Francisco deixa um vazio não apenas na Igreja, mas no cenário global. Sua voz em defesa dos pobres, dos migrantes e do meio ambiente ecoará por gerações. Enquanto o Vaticano se prepara para escolher seu sucessor, fiéis de todo o mundo prestam homenagens ao Papa que, com simplicidade e coragem, buscou transformar a Igreja e o mundo.

Curiosidades sobre o Papa Francisco

  • Primeiro jesuíta: Francisco foi o primeiro membro da Companhia de Jesus a se tornar Papa, rompendo com séculos de tradição.
  • Nome inédito: A escolha do nome Francisco foi a primeira na história do papado, inspirada em São Francisco de Assis.
  • Viagens marcantes: Ele visitou 67 países, incluindo zonas de conflito como o Iraque e o Sudão do Sul.
  • Gestos espontâneos: Francisco era conhecido por telefonar diretamente a amigos e fiéis, surpreendendo até mesmo o Vaticano.

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